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terça-feira, 8 de julho de 2014

ROLETA PAULISTA




I
A estrada que interliga 
a terra ao céu
já foi inaugurada
(confidenciou-me esta semana
um anjo de guarda)
destina-se a acelerar a circulação das almas
almas penadas arrependidas desgarradas
todas penitenciadas
que querem voar pra Deus
e por descuido do Eterno
quase iam parar no Inferno





II
É via preferencial
construída com cuidado
pra bloquear o pecado
(risco de contaminar o céu)
Por isso caros amigos
pra prevenir todo mal
em todo o percurso da estrada
anjos arcanjos 
serafins e querubins
montam guarda





III
Quando eu morrer 
também quero que a minha alma
- assim como todas as outras almas
siga por essa estrada
Mas como não sei pedir perdão
esqueci o ato de contrição
e não quero jogar palitos
como um exército de aflitos
arrisco uma louca penitência:
acelero o carro a toda velocidade
e vou desrespeitando os silvos
todos os sinais vermelhos
todas as placas de advertência






IV
É a única probabilidade
de chegar à Eternidade









Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 77

quinta-feira, 29 de maio de 2014

TEMA DE HULK & DAVID BANNER



1

em cia. de maioneses hellmans e marmeladas colombo


em cia. de johann sebastian bach & johnny walker (rótulo preto)


em cia. de bife com fritas  cabelos azuis de silvana
estudo 11 de villalobos  fichas de orelhão  mala de couro
cru



em cia. de aleksiei ivanovitch  espelho quebrado do
guarda-roupa  anúncio de calvin klein  ponteiros do velocímetro
telegramas das putas de missouri



em cia. da estrada pra chicago  tua foto descolorida na
carteira  sinos da igreja chamando pro motel  sol forte
incendiando os cabelos



em cia. dos cílios de halley  motocicletas de modigliani
preces a N.S. da Multidão  pôr-do-só em ipanema



em cia. do sol


em cia. dos bancos de praça  notas de 10 dólares  poemas
de pound devorados com molho inglês  penca de bananas
podres



em cia. de notas fiscais dos restaurantes  metrô de buenos aires
relógio quebrado de graciliano ramos  urubus sangrando
minha sombra no asfalto




em cia. das nuvens imbecis de gauguin  versos protestados
no cartório das letras  rh negativo  soco inglês
no queixo da história




2

fotografia no álbum do colégio
           - Só
       mickey e clarabela na sessão do cine-éden

            - Só
                                             carona de moto pra são paulo                                 - Só
                                                       ombros de luciana                                         - Só
                                                    livraria noturna & pub                                       - Só
                                                       banana split a dois                                         - Só
                                           almoço em família aos domingos                              -  
                                    ônibus salvador-cruz das almas-salvador                          - Só
                                                              enfim  sós                                               - Só

DUELO na BR

entre cascavel e o carro da polícia:
sssssssssssssssssssssssssssssssss
óóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóóó


cactos:

obrigado pela audiência


3


soletrar



socar



solar


o



le

mio




ó


4


coiote solitário incendeio a dor em gás neon
e toco saxofone para as estrelas


mi


S .  O . S .








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 226





sexta-feira, 21 de março de 2014

TAO DO PEDICURO CELESTIAL





quem segue 
o caminho dos opostos
tem os pés tortos
enviesados para dentro
cruzados pro centro

quem segue
o caminho do lado
tem os pés de pato
estilo dez pras duas
no meio-fio das ruas

quem segue
o caminho do meio
usa sapatos sem meias
pisa macio a folha
pra não espocar a bolha

quem segue
o caminho de baixo
os pés ficam um escracho
o chão parece um tacho
mesmo caminhando no capacho

quem segue
o caminho de cima
os pés logo afinam
o vento sopra onde quer
esquece logo mulher

em todos 
os caminhos da estrada
há sempre uma unha encravada
mas sigamos ouvindo os galos
ainda que nos cantem os calos



Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 197