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sexta-feira, 27 de junho de 2014

O PALHAÇO (O Homem que Ri)




ó alegria
vingança do ridículo
salva os palhaços
do circo


ó alegria
kamikaze do insólito
extermina a agonia
do plástico


vem tragicômica
nux vomica
gargalha a risada
tragédia da lágrima


fecha o siso
genocídio do riso
libera o opio
fetiche dos trópicos


embora detrás
da máscara de carne
um orfanato ambulante
cante no palhaço


o santo canonizado
no antiácido
protege-o do humor negro
do fracasso


ó alegria
brincas sem dó e piedade
mas és a melhor fantasia
na careta da humanidade







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 473


segunda-feira, 31 de março de 2014

ODE A NETUNO





Nirvana dos drogados
Estrela-guia dos hippies e lunático
Patrono dos bêbados  e desesperados
Porteiro do Sanatório Cósmico
ora pro nobis
Trago nos olhos a tua assinatura cósmica
de tanto mergulhar nos oceanos de álcool
um jeito displicente de lágrima em supermercado
como a visão crucificada dos primeiros cristãos


Pelo fruto se conhece a árvore
Pelo peixe se conhece o mar
a 3 bilhões de km da Terra
tua vibração diluviana e sutil
faz girar a minha constelação interna
e enlouquecer a órbita de todos os planetas
qual depósito de lixo cósmico despejado na alma
OAN
NOA
HOA
MANU
POSSEIDON


Grão-mestre da ilusão
por que abriste o céu como paraíso da volúpia
e pregaste o desregramento de todos os sentidos?
(Não sabias
__ assim como o flash da fotografia
descolore a tinta nos quadros a óleo __
o desejo exacerbado
afoga a alegria no homem?)
E assim naveguei e naufraguei
por mares de álcool e dor nunca navegados
disfarçado no vapor do êxtase divino
Eros infantil buscando o amor idealizado
nas paisagens femininas do sexo dos anjos
na cama da eternidade
como um guesa errante entoando a melodia do desejo


Grande Iniciador
fizeste-me cansar das coisas desse mundo
ao dissolver-me o inconsciente
na turbulenta fronteira entre a fantasia e a realidade
onde a verdade e o erro _ como diz o poeta Rumi _
são separados apenas por um fio de cabelo
(Pela educação do sofrimento fui transportado
para o roteiro sacrificial a que me indicavas)
Em tudo te revelaste um Mestre
Se me deste a paixão dos suicidas
mostraste-me em seguida o amor universal
Primeiro a paixão
Depois a compaixão
Primeiro a diluição dos sentidos no mar da ilusão
Depois o inconsciente resolvido no oceano da
compreensão
Pelo excesso abriste-me o caminho da renúncia
antes cobra
depois corda de salvação


Mas compreendi depois
que por trás de tudo estava o Amigo
O Amigo que escreve com as letras das estrelas
o convite
para até o mais extraviado dos seres
vir à sua mesa
sorver o vinho cósmico da alegria e união
sem a embriaguez das alturas


O Amigo cuja misericórdia e rigor
são sempre maiores que a nossa ira
e espera até o final dos tempos
pela oportunidade do reencontro





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 299




sábado, 22 de março de 2014

BORRACHARIA DO AROUCHE (40 GRAUS)






Sol de látex
Calor importado pela Pirelli ou Goodyear
de alguma floresta amazônica ou africana
(temperatura ideal
pra ler Dante no original)
Os pneus feridos renascem com suor
na incubadora da máquina de recauchutar
Até o vil metal
derrama uma lágrima tropical
Menos Rita apenas Rita
pose felina na folhinha de calendário
permanece bela e refrescante
igual a um boeing sacudindo as estrelas
Marylin Monroe mulata tão gata
que a fotografa descolorida
traz de longe o cheiro do seu sexo
e a multidão é mosca procurando açúcar
excitada na febre humana de viver




Luis Augusto Cassas




sexta-feira, 18 de outubro de 2013

ELOGIO DA LÁGRIMA




1



Joia secreta de alguma dinastia celestial

Relâmpado molhado de água marinha
Chuva de prata do céu interior
Meteorito desconhecido
que o Super-Homem não perceberá
Precioso pingente
que os joalheiros não adjudicarão
Só os puros e impuros te conhecerão
quando chegares translúcida e terrível
como uma tempestade de cristais


2



Síntese do fogo e da água

Consoladora dos contrários
Secreta fonte da dor e da alegria
Oásis? Nascimento? Morte?
Puro milagre do espírito
ao romperes (nas faces) os diques
da mais fria emoção
semeias os devastados campos da alma
refloresces das cinzas o coração
e renasces no opaco brilho dos olhos
o súbito clarão





Luís Augusto Cassas 

In Liturgia da Paixão, p. 178 e 179