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quarta-feira, 6 de abril de 2016

EPÍGRAFE PARA QUALQUER CONGRESSO DE POESIA






moderno não é o avião
o míssil o laser o perfume de madonna
os cabelos de cobalto de andy warhol
a crítica da razão impura de rené
descartes clement
a aspirina a dialética o corte de
cabelos de elizabeth taylor
a gravata do príncipe de gales
o externo existir


moderno é o coração
companheiro de viagem
de todas as idades
que escreve os Vedas
e apazigua  Força
e apesar de ferido
pelo pensamento
permanece terno
e eterno
dentro do centro






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 28






terça-feira, 14 de julho de 2015

CARTA AO ALEPH





(ou a 2a. Luta de Jacó contra o Anjo)




por que me ofertas mãos de seda
a tantas mãos renegadas
e a meus dedos se tornam espadas
despencando-me à treva?


por que me acenas caminhos
se carregas as mãos crispadas
e colho a marca dos espinhos
das plantas secas na estrada?


por que me cobras o dízimo
por ter as mãos espalmadas
se o território do vazio
é a palmatória do nada?


por que me concedes a trégua
de repousar em tuas águas
passageiro de mil léguas
afoga-me em vale de lágrimas?


por que me obrigas a voar
de retorno à tua morada
se me interpões o mar
e a inexistência de asas?


que estranha missão reservas
aos dependurados dos pés
_ inversas as bocas mãos de viés _
mastigar ervas amargas?


qual o meu crime hediondo
senão viver da vida o sonho?
vale o céu o dia de hoje:
o sol a luz não me soube!


toma as formas do humano
e a luz precipitará
ã leitura dos meridianos
nova dimensão do olhar!


posto que retornas à cena
ferindo-me a coxa em refrão
sentirás a dor eterna
lançando-te ao chão com o bastão!


confrontando ao tronco a árvore
vergado o galho na mão
à alma tocada a carne
abras (enfim) o coração







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p.379







quinta-feira, 2 de julho de 2015

DE AMOR E DE SOMBRAS






O amor não morre Rosa


O amor não é ave em extinção
O amor não entra na lista dos desaparecidos
O amor não quer saber a quem se dar
O amor nunca deserta de sua função de ser


Às vezes o amor despede-se: tira férias
pois o coração que acendia a tocha apagou


Então se recolhe e se transfere
viaja a um novo coração ferido
torna-se presa de suave melancolia
e retorna disfarçado em sofrimento e alegria


Mas súbito a palha vira fogo
A floresta invade o céu
e inesperadamente uma tarde
a rosa nasce entre as tochas


Onde era azul agora é verde
onde foi Joana agora é Célia
onde foi Tristana agora é Helena
onde foi Clara agora é Karina
e tudo renasce como a chuva
sobre as pedras ávidas de sede


O amor não morre Rosa


O tempo esculpe novos rostos
em antigos sentimentos







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 352



sexta-feira, 19 de junho de 2015

RUMPELSTISTIKEN






1
Um dia ficarei absolutamente só
com as minhas lembranças
Solitárias elas virão Uma a uma
descerão a escadaria da memória moral
Pisarão com calma para não ranger
as velhas tábuas do passado
As boas as tristes as passageiras
nenhuma descartarei (Chopin ao fundo
entoará uma sonata distante)
Mensageiras da minha secreta verdade
tingiram as cores do meu arco-íris pessoal
e coloriram o meu sonho de viver
Despedirei cedo os empregados
pra que venham sem cerimônia
Descerrarei os antigos castiçais
Polirei a prata
Baterão à porta? Velhas amigas
sentar-se-ão à rústica mesa de madeira
pra fumar o cachimbo das recordações
Pássaros esvoaçarão contra o relógio
Xícaras de porcelana comovidas as fitarão




2
Ouvirei (comovido) suas conversas de nuvens
relatos e viagens parábolas de sonhos
obituário do acontecido rastros noturnos
da lanterna mágica sussurro no vitral
(Ó trágica flor de ouro maldição de anjos decaídos:
o temível segredo que eu intuía elas sabiam!)
Acrescentarei (com gentileza saturniana)
um ponto de vista virgem pedido de desculpas
ficção de outros personagens leitura do cristal
O que não foi sonegado entenderei
O excesso perdoarei Palavra de lei
Algumas envelheceram juvenilmente
e aderiram ao amargo chá das lamentações
Outras despiram a velha roupa dos preconceitos
e falam o prenunciado idioma da transfiguração
Onde havia ferimento agora há unguento
Onde havia amargura há cura
(Ó trágica flor de ouro maldição de anjos decaídos:
o temível segredo que eu intuía elas sabiam!)
Tudo o que era grande tornou-se pequeno
Tudo o que era pequeno tornou-se grande
e invadiu o pesado teto das reminiscências
- flor rebentando os telhados da casa -
pra colher a saliva dourada do sol


Escombros já não pesam nos lombos
Da desgraça sopra o vento da graça
O que eu sei o que eu não sei
passam a ser lápides extintas
música distante convívio de flautas
frutas submersas no espelho do vivido
Um arquipélago de lágrimas
desata um cardume de sorrisos
Todas as culpas e remorsos lavados
na clara fonte da compreensão
secam no amplo varal da resignação
E me recolho pacificado aos aposentos
lavado na pura água do desfalecimento
Coração de água ferido de um rei




3
Ó destino és (como eu) um animal divino
farejando as pegadas do sentido da vida
De que adianta pagar o cigarro das luzes
as pálpebras e a consciência
se os deuses guardam ciúme dos homens
e se vingam tão eternamente?










Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 364






terça-feira, 5 de maio de 2015

AMOR: O CUMPRIMENTO DA LEI






De grande e pequenos gestos
vive o amor:
sol no coração
água na emoção
até molhar as raízes
do mais alegre verão!


De grande e pequenos gestos
morre o amor:
lua no coração
deserto na paixão
até secar o íntimo oásis
da fonte da emoção!


De pequenos e grandes gestos
renasce o amor:
fogo no coração
chuva na emoção
até ressurgir a luz
cristalina da paixão!


Ó natureza naturante
ferida mas não decaída!
De pequenos e grandes gestos
renasce sempre o amor
pra que se cumpra a natureza
na lei eterna da vida!








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 410





segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

UM TRISTE TIGRE




Amor - vera fera
bela primavera
Não me foi concedido o mortal tiro
que convertesse a pele em tapete
Mas fui recompensado duplamente:
paixões e arranhões no peito
e milagrosas vagas para veículos
nos estacionamentos das calçadas
Felino insaciável mordo os lábios quentes
com a buzina in concert saúdo a vida
e abafo o rugido no coração








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol, 1, p. 594




quarta-feira, 22 de outubro de 2014

EPÍSTOLA AOS TOLOS

'Universal Love' de Julie Jensen



Não quero mais o amor cartesiano
que divide o ser em corpo e alma:
que elogia as pernas e a finesse
mas critica o recato e o idealismo
Quero o amor universal
que seja sexo e transcendência
prazer e Deus morte e renascimento
e nenhum tratado ou encíclica
reclame o território conquistado


Não quero mais o amor
que mata a cobra
e esconde o pau
Quero o amor que seja
cara e coração
Mostrem-me com urgência
onde começa o corpo e termina a alma
Procurem pacientemente
em que bolso escondem-se o amor e a fúria


Não quero mais o amor cartesiano
descartiano descartável
até por Descartes - pois pois - 
nunca foi dois mas somente um


Quero o amor que seja apenas amor
e não simulacro de amor
e que seja absolutamente puro pleno e ridículo
como o céu invadido por casal de passarinhos








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol, 1, p. 535





quarta-feira, 1 de outubro de 2014

APOCALIPSE (2)




1
Nos tempos em que eu transformava pães em pedras
o sol mergulhava na matéria
e produzia ferimentos em meu coração
Vãos eram os pensamentos palavras e obras
e minha alma inconsolado deserto: covil de cactos
constelação e escorpiões


Época de as serpentes trocarem as peles
e a vaidade eclipsar as cores o camaleão
O amor se transformou em cólera
e a paz em campos de concentração
A humildade vestiu o manto do orgulho
a aparência triunfou sobre a essência
a fé foi derrotada pela tentação




2
Quando aprendi a transformar pedras em pães
o sol ergueu-se da imersão na matéria
e proclamou a temporada da transfiguração
Nova fonte e luz jorrou em meu espírito
e veio ter comigo o anjo da alegria
Rosas brotaram das chagas do coração


Desde então tenho colhido safra de milagres
e os gafanhotos foram expulsos das plantações
A serpente foi vencida pela pomba
o egoísmo tornou-se confraternização
o prazer buscou o sentido da vida
a morte transformou-se em vida eterna
a glória a vida vencera a tentação




3
Bem sei
que pães alimentam
e pedras apedrejam


Mas sei também
que pedras podem alimentar
e pães apedrejar
(Ó granito da vida
quando te dissolverás?)


Humilde ao raiar do dia
quedo-me contrito ao divino alquimista
que transmuta a pedra dos meus sofrimentos
no pão de sua perfeição


Eu só vivo
porque Ele morre
Eu sou o forno
Ele é a quinta-essência
Ele é a luz eterna
Eu sou o trigo
Eu sou a gota e sangue
Ele é o coração









Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol.1, p. 386





sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O SENHOR DA GUERRA





1
cordeiro de deus
fúria do leão
touro de orfeu
- vede o grande mar
da desolação - 
remédios adoecem
médicos matam
padres não confessam
pastores pastam:
contra grande besta
quem nos salvará?



2
o tiranossaurus rex
quem o imaginou abolido
do sangue da criação?
o dna entra em sêxtil
o gigantesco réptil
ei-lo em operação
máquina mortífera
a fome de vísceras
aperta-lhe o botão



3
cordeiro de deus
berra mais forte
que os donos da terra

cordeiro de deus
grita mais fundo
que os canhões do mundo

cordeiro de deus
clama mais alto
que os animais imundos


águia
de oxalá
vinde
nos salvar



4
baixa as tuas línguas de fogo
explode a mansão do logro
destrói os tímpanos dos poderosos

fulmina os cavaleiros do apocalipse
livra-nos dos arquitetos de auschwitz
salva-nos do eterno eclipse

incendeia-lhes os campos de batalha
reduze-os a pó e palha
faz das suas arrogâncias mortalha

espalha a tua sagrada ira
devora o fígado da pantera
- essa prostituta das eras -

dá-lhes por comunhão
o sangue derramado
do próprio irmão



5
depois
eleva as tuas ovelhas
serve-lhes o banquete das estrelas
veste-as no linho das centelhas
acalenta-as na música das esferas
então
na alcandorada manhã
saciada nossa fome
lavaremos tua lã
na luz do coração do homem








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 523



quarta-feira, 23 de julho de 2014

DETALHES DA CAPELA SISTINA



1
nada
a te oferecer


Senhor
a não ser


(inútil
contraste!)


um coração 
endurecido


o peito
em chamas


e o corpo
em brasa




2
mas te oferto
esse sol de desconforto


(precário alimento
da minha provisoriedade)


como lenha
para tua fogueira


ou azeite
para tua lâmpada


pra acender círios
aos que estão no escuro


e iluminar a glória
da tua eternidade






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 404



terça-feira, 1 de julho de 2014

DECLARAÇÃO DE AMOR (manuscrito encontrado pela faxineira num pequeno quarto de pensão)




Difícil é penetrar-te Amor
quando o porteiro avisa: não há vagas
Ainda assim conheci teu aroma
escalando furtivo altos muros
penetrando como um ladrão em teu jardim
Mas o que fazer se o convite
atrasou-se para o esperado encontro

ou apressei-me no itinerário da busca?
(..........................................................
...........................................................
...........................................................
...........................................................
ilegível)
Perdoa-me Amor
Amei-te errado
com a paixão dos cinco sentidos:
tato olfato paladar audição visão
Permitires - um dia - 
te amarei com o coração







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 166