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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

POEMA 3X4

Luís Augusto Cassas



Meus olhos estão brincando
de esconde-esconde
entro o prato de sopa quente
No entanto estão frios e lúcidos
e não parecem conversar
Estão quietos resignados
investigando meus sonhos
policiando meus sentimentos
Às vezes me vem um visão triste
(sinto que dentro do prato
um menino com fome me espreita)
e eu sinto raiva de todas as ideologias
Então fico pausando lento vagaroso
e com vergonha de mim mesmo
dissolvo a sopa quente com a colher
para que meus olhos não me vejam









Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 126



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O SENHOR DA GUERRA





1
cordeiro de deus
fúria do leão
touro de orfeu
- vede o grande mar
da desolação - 
remédios adoecem
médicos matam
padres não confessam
pastores pastam:
contra grande besta
quem nos salvará?



2
o tiranossaurus rex
quem o imaginou abolido
do sangue da criação?
o dna entra em sêxtil
o gigantesco réptil
ei-lo em operação
máquina mortífera
a fome de vísceras
aperta-lhe o botão



3
cordeiro de deus
berra mais forte
que os donos da terra

cordeiro de deus
grita mais fundo
que os canhões do mundo

cordeiro de deus
clama mais alto
que os animais imundos


águia
de oxalá
vinde
nos salvar



4
baixa as tuas línguas de fogo
explode a mansão do logro
destrói os tímpanos dos poderosos

fulmina os cavaleiros do apocalipse
livra-nos dos arquitetos de auschwitz
salva-nos do eterno eclipse

incendeia-lhes os campos de batalha
reduze-os a pó e palha
faz das suas arrogâncias mortalha

espalha a tua sagrada ira
devora o fígado da pantera
- essa prostituta das eras -

dá-lhes por comunhão
o sangue derramado
do próprio irmão



5
depois
eleva as tuas ovelhas
serve-lhes o banquete das estrelas
veste-as no linho das centelhas
acalenta-as na música das esferas
então
na alcandorada manhã
saciada nossa fome
lavaremos tua lã
na luz do coração do homem








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 523



sexta-feira, 25 de julho de 2014

O LIVRO DO ÊXODO




     Devorar/ dentes como punhais/ a que nos gestou e pariu/ o corpo branco perfumado de ervas/ assado em brasas e folhas de bananeira/ Devorar em ritos amorosos/ o corpo da mama/ pedaço por pedaço/ reivindicar os seios/ os seios/ os seios/ o direito de primogenitura/ não só pelo prazer de incorporar o poder/ a transmissão da energia/ mas fortalecer o ser/ o ser/ o ser/ e a alegria/

     Devorar vorazmente a carne/ mais que a carne/ o arco-íris da tarde em chamas do corpo de Míriam/ (ouvindo os tambores da ilha)/ banquetear-se do gozo/ gosto/ dos que a amaram/ o sabor que reclama saber/ da matriarca de nossa lã/ nada deixar à terra e às formigas/ sequer o vulto da clara pele de papel-bíblia/ (enqto. os tambores despedem-se da noite da ilha)

     Devorar (como Dvorák devorou as pautas tíbias)/ todo corpo/ horto de Míriam/ na fogueira santa da nossa antropofagia/ daquela que nos engordou para a cerimônia do adeus/ e suas primícias/ Devorando-a/ fomos dev-orados/ descobrindo que nossa fome não era de comida/ mas de amor e vida/ e nos libertamos da carne envenenada/ reiniciando a jornada/ renunciando a luta contra a vida/

      Devorar a que foi a ovelha sacrificial/ p/ expiação dos karmas familiares/ mastigada até o tutano pelos nossos temores/ assada no azeite de nossa angústia corrosiva/ E quando anoiteceu/ anoitecemos/ e quando adoeceu/ fomos curados/ e conduzidos ao cordeiro imolado/ que clama há séculos/ há séculos/ há séculos/ pela ressurreição da carne



A que era/
A que é/
e A que será/
A Shekinah/
invocamo-la/
A testemunhar







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 496