Mostrando postagens com marcador menino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador menino. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

BOLETIM METEOROLÓGICO-SENTIMENTAL DE 25 DE DEZEMBRO





Tempo bom
temperatura estável
em quase todos os corações
Visibilidade ampla:
nas vitrines das lojas
nos vitrais das casas
nos para-brisas dos carros
nas lentes dos óculos



Temperatura em franca elevação
no São Francisco e em outros bairros da cidade
O champanha francês servido a 12 graus
o uísque escocês sorvido a 43 graus
o peru assado a 150 graus
Foguetes e risos explodindo/nozes
e abraços repartidos/
(Euforia subindo no termômetro
em níveis não registrados)



Temperatura agora em declínio
com lufadas de ventos frios
vindos das bandas da baía de São Marcos



O menor abandonado que dormiu
na manjedoura do banco da Praça Pedro II
passeia miséria e tristeza pela Rua Grande



Vê manequins vestidos/brinquedos eletrônicos/
e sente que seu Cristo não nascerá jamais
(Ele está crucificado na Igreja do Carmo)



Temperatura baixando
Nuvens espessas se formando
nos olhos do menino



Temperatura caindo ainda mais



Em São Luís do Maranhão
está chovendo






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 113



Praça Maria Aragão
São Luis - MA






sexta-feira, 17 de outubro de 2014

POEMA 3X4

Luís Augusto Cassas



Meus olhos estão brincando
de esconde-esconde
entro o prato de sopa quente
No entanto estão frios e lúcidos
e não parecem conversar
Estão quietos resignados
investigando meus sonhos
policiando meus sentimentos
Às vezes me vem um visão triste
(sinto que dentro do prato
um menino com fome me espreita)
e eu sinto raiva de todas as ideologias
Então fico pausando lento vagaroso
e com vergonha de mim mesmo
dissolvo a sopa quente com a colher
para que meus olhos não me vejam









Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 126



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

T (O FILHO PRÓDIGO: UM POEMA DE LUZ E SOMBRA)





Órfão de mim e sozinho
então tomei meu menino
apertei-o contra o peito
lambuzei-lhe par de beijos
cabelos acariciei-os
ombro a ombro embalei-o 
(arco-íris expulsando escombros
irrompendo à terra o veio)
desfiz-lhe o nó na garganta
cera lavei-lhe dos olhos
acendi-lhe o sol no seio
sequei-lhe a fonte de mágoa
clamando à dor o despejo
sob proteção dos afagos
dissolvi-lhe o sal amargo
sentindo que a frágil criança
transformava-se contrafeito
não em embevecido infante
mas em ancião satisfeito
aquele que em densa névoa
ressuscitou-me do leito
encaixando-me as suas pernas
para um caminho refeito
amparando as minhas quedas
guiando-me a novo berço
Como não ouvir o estampido
de dois peitos comprimidos
boi e bezerro em mil lambidos
derramando os seus vagidos?
O velho e o menino
o menino e o velho
cumprem o seu destino
nos mesmos artelhos
Abraçado à velha árvore
senti no tronco o temor
novos ritos de passagem
antecipação da flor
Descascando velhas mágoas
de enclausuradas cebolas
serpentes tornadas lágrimas
transmutam-se em alvas rolas
Do pranto meu lave o Rei
os pés feridos em alcatrazes:
Pai não te deixarei
enquanto não me abençoares
Ó horas de viver
ó horas de morrer
conciliou-me o ser:
morrer e renascer
Já não sou eu quem vive
é o pai que em mim revive
Já não sou mais eu quem chora
é o pai que em mim ora


( - faz a suma correção
inverte a inércia em ação:
nove meses no mundo
três meses no fundo

sê mensageiro do verde
refloresce a tua família
sê como filho à tua filha
a todos abastece a sede

ulisses em retorno à ilha
recupera a alta magia
torna as feridas em espigas
junta ao trabalho a alegria

ergue-te ó fênix das sobras
planta o sol em tua casa
concedo-te poder  e honra
pra concluíres tua obra)








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 398




segunda-feira, 21 de julho de 2014

O (O FILHO PRÓDIGO:Um Poema de Luz e Sombra)



Após o pânico
das caranguejeiras
borboletas azuis 
voam na clareira


O que fora elaborado
no ritmo agônico das horas
irrompe súbito no afogado
no fundo do poço da memória
nas mãos trêmulas do menino
cavando a escuridão
pra não causar o mau destino
nem ser o algoz de seu irmão
fogos-fátuos do passado
campos de concentração
em que adultos desgovernados
desmontavam os seus brinquedos
pra uso e reutilização
absolutamente por maldade
mas por não haver bondade
na guerra em seus corações


Toda a íntima odisseia
fragmentos e mitos
lições do sinistro
do homem em desgraça
perante sua raça:
pétalas de suor
raios de misericórdia
- ritos de passagem
de trágica viagem -
pra quebrar-me o rigor
e manifestar o amor
em meu mundo interior


Só o amor vence o ódio
mas se o amor não o vencer
o ódio torna a florescer
com seus megatons de sódio


Só declarando impotência
ante qualquer violência
lava o homem a consciência
despedindo a culpa imensa


No estranho mundo do ter
vale a metade do apreço
no universo do ser
paga-se em dobro o preço


Criei a mim - vestígios que sabia
filho do abismo e da mão tateante
Sou os escombros e a cumeeira
o que arde em baixo é sol de feira


Ó vocação do fogo
queimar e perecer
ó vocação da água:
morrer e renascer


Meu trabalho é fazer
das folhas secas - verdes
dos sucos - frutos
do luto - muco
descobrir no precipício
o divino
após o demoníaco
e sobrevivente do lixo
hastear o solstício


Meu ofício: realizar
o percurso da água
navegar o coração
(como um rio)
à fonte da lágrima
o ouro da flor:


a água gosta
de lugares baixos
a ferida dos homens
e a sua dor


porque nada passa
nem o ferro de engomar
que as roupas traça
nem o vinco do passado
que o mar escalpa
nem o sol do Saara
que os homens assa


Só o que morre
sobrevive







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 390



quarta-feira, 28 de maio de 2014

UM POSTER CONTRA A POSTERIDADE


                                                 

menino da etiópia
armado até os dentes
 costelas como fuzis


se tua mãe visse
o teu sorriso amarelo
 menino da etiópia
diria (entredentes):
 menino jesus de praga
cinco chagas de cristo


se marx visse
o teu sorriso amarelo
 menino da etiópia
diria (extradentes):
sol do ouro roubado
pelos irmãos metralha
para a dentadura de reagan


menino da etiópia
que superpoderes do mal
há em teu sorriso amarelo
pra mandarem (tira-dentes)
até a sexta frota naval?


tão fraco fraco fraco
como o cordão do sapato
de flash gordon
tão fraco fraco fraco
que até o flash
da máquina fotográfica
que filmou teu último ato
 ato ato ato
te faz explodir





Luís Augusto Cassas