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terça-feira, 5 de maio de 2015

AMOR: O CUMPRIMENTO DA LEI






De grande e pequenos gestos
vive o amor:
sol no coração
água na emoção
até molhar as raízes
do mais alegre verão!


De grande e pequenos gestos
morre o amor:
lua no coração
deserto na paixão
até secar o íntimo oásis
da fonte da emoção!


De pequenos e grandes gestos
renasce o amor:
fogo no coração
chuva na emoção
até ressurgir a luz
cristalina da paixão!


Ó natureza naturante
ferida mas não decaída!
De pequenos e grandes gestos
renasce sempre o amor
pra que se cumpra a natureza
na lei eterna da vida!








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 410





sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

AQUA PRO NOBIS





de áries a aquário
em pleno martírio
somos todos peixes
árido santuário
queimando em círios



tudo o que cultivar
o amor e o mar
dirá ao mar: abre-te!
e qual afiado sabre
o amar  se abrirá!



diz-me senhora:
o que te inunda as órbitas
desrepresa os seios
e resseca a flora? 
_ o mar também chora!



da onda da discórdia
darei trégua à mágoa
mas quem blasfemar
contra o reino da água
não terei misericórdia



horas de Urano
lembrai-vos de Sara
fecundou-a  um rio
e irrigou o Saara
de nos infortúnios!



louco stradivarius
tua nota úmida
povoe o relicário:
um aquário sem peixes
não é santuário








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 270






segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A FALA DO BECO

Beco da Bosta, São Luis-MA


nos signos de rotação
fui de áries a peixes
nuvem e gavião


livrei-me das neuroses
com a overdose
das metempsicoses


tomei sol com Menipo
soldado em Alexandria
vaso e arquétipo


depois fui crepúsculo
na bela anatomia
de sólido músculo


estranha coorte:
só eu sei o que vem
depois da morte


verdade nua:
fui antes rua
na Catalunha


realidade-triste
em bico de pássaro
cumpri-me alpiste


quando fui água
segui o roteiro
de todas as mágoas


quando fui fogo
descobri o ideal
do bem e do mal


quando fui ar
descortinei a alcova
onde o vento faz a curva


mudo no mundo
girando na roda-gigante
da alma do todo


reencarnando
ora encarnado
ora verde-musgo


eis-me agora no chão:
pra entender a matéria
e o seu coração




*
tua alma tantra
tem superlativo nó
dar-te-ei um mantra
as cinzas do pó


mas logo te advirto
nada posso aprendizar
a não ser as lições
do teu próprio avatar


ouve: o abc do viver
compreende dois capítulos
a ciência o mestre
a arte o discípulo


como podes entender
o corpo de ressurreição
se combates a matéria
e o corpo do teu irmão?


como ousas apreciar
o belo torso de Apolo
se aos olhos da realidade
és criança de colo?


às vezes não sendo se é
pra ser-se o conteúdo
mas o que se ser pretende
é ser não sendo contudo


mas há um mini-instante
na hora do ave-maria
que a ciência do ser
é a arte do não seria


teu o dizes: sou o beco!
meu caminho é estreito
pela estreita porta
não passa a moura torta


aquele que joga pedras
no telhado do vizinho
sequer perceberá
as pétalas do caminho


quem atira pedras
e esconde a mão
jamais conhecerá
minha salvação


mas quem reza minha cartilha
pega no pote
e segura na rodilha
esse é de família










Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 623
Foto: Gilmore Guy






segunda-feira, 21 de julho de 2014

O (O FILHO PRÓDIGO:Um Poema de Luz e Sombra)



Após o pânico
das caranguejeiras
borboletas azuis 
voam na clareira


O que fora elaborado
no ritmo agônico das horas
irrompe súbito no afogado
no fundo do poço da memória
nas mãos trêmulas do menino
cavando a escuridão
pra não causar o mau destino
nem ser o algoz de seu irmão
fogos-fátuos do passado
campos de concentração
em que adultos desgovernados
desmontavam os seus brinquedos
pra uso e reutilização
absolutamente por maldade
mas por não haver bondade
na guerra em seus corações


Toda a íntima odisseia
fragmentos e mitos
lições do sinistro
do homem em desgraça
perante sua raça:
pétalas de suor
raios de misericórdia
- ritos de passagem
de trágica viagem -
pra quebrar-me o rigor
e manifestar o amor
em meu mundo interior


Só o amor vence o ódio
mas se o amor não o vencer
o ódio torna a florescer
com seus megatons de sódio


Só declarando impotência
ante qualquer violência
lava o homem a consciência
despedindo a culpa imensa


No estranho mundo do ter
vale a metade do apreço
no universo do ser
paga-se em dobro o preço


Criei a mim - vestígios que sabia
filho do abismo e da mão tateante
Sou os escombros e a cumeeira
o que arde em baixo é sol de feira


Ó vocação do fogo
queimar e perecer
ó vocação da água:
morrer e renascer


Meu trabalho é fazer
das folhas secas - verdes
dos sucos - frutos
do luto - muco
descobrir no precipício
o divino
após o demoníaco
e sobrevivente do lixo
hastear o solstício


Meu ofício: realizar
o percurso da água
navegar o coração
(como um rio)
à fonte da lágrima
o ouro da flor:


a água gosta
de lugares baixos
a ferida dos homens
e a sua dor


porque nada passa
nem o ferro de engomar
que as roupas traça
nem o vinco do passado
que o mar escalpa
nem o sol do Saara
que os homens assa


Só o que morre
sobrevive







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 390



quarta-feira, 2 de julho de 2014

O SEGREDO DE DEUS




Há anos guardo comigo
um segredo
Salvo-conduto do humano
passaporte para o eterno
só eu sei dele
e Deus


Desde a madrugada de outrora
quando o fogo misturou-se à água
e os sete planetas foram criados
trago-o guardado a sete chaves


Dele não falo às árvores
ou dou notícias aos peixes do rio
Medo de trair o estranho pacto
que o universo revelou-me
num terrível jogo de dados
sobre o paradoxo da criação


Às vezes
o segredo pesa
como bomba de nitroglicerina
Às vezes
é leve
como a carícia do vento
(minha estratégia
é carregá-lo como pluma
embora tenha peso de pena:
as duras penas de existir!)


Crepuscularmente
quando as trevas e a luz se compreendem
no abraço oposto da lua e do sol
acende-me um riso cúmplice
de intimidade com os mistérios da vida
Sutil Deus fala por símbolos
e retribui com um piscar de estrelas
selando a nossa aliança de silêncio
sobre a grande ironia da criação


Ele é o autor do meu mistério
Eu sei parte do seu segredo
Cúmplices seremos
por toda a eternidade







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 362

quinta-feira, 15 de maio de 2014

ELOGIO DA DELICADEZA


"A Sabedoria faz o seu próprio elogio"
                                              Eclesiástico


A delicadeza
não faz seu elogio
Serve-se à mesa
sem pompa e estilo:
dispõe os lugares
mostra os talheres
sacia os olhares
mas deixa o espaço
a outros concílios
A delicadeza
não é prato cheio
é antes o vazio
Tempos de aspereza
- em verdade - é exílio
Onde encontrá-la
em meio ao comício
de suposto brilho?
Está não estando
- cuidando dos filhos -
sutil arabesco
desenhando a prenda
de dourado auxílio
Está na criação
no átrio do templo:
nenhuma inscrição
orna-lhe o evento
Tecelã da graça
tênue bailarina
gira a bola do mundo
jeito de menina
Com suas mãos de fada
jamais nos fascina:
alivia-nos a queda
reenvia-nos pra cima
Está no coração
no reino da água
acalma o leão
libera-nos as garças
Com as letras do ser
imprime o alfabeto
que as luzes do éter
mostram a céu aberto
A delicadeza
é massa de pão:
fermento e unguento
move a inspiração
Resplandece em Séfora
no pousar das ânforas
Ilumina Ester
destino de conchas
A delicadeza
opera milagres:
gentil natureza
lavra o azinhavre
Quando fala em público
não gera tumulto
Lançado insulto
veste o branco-luto
Quais os oito graus
da delicadeza?
pureza? leveza?
beleza? harmonia?
sutil transcendência?
sábia alegria?
suba-lhes os degraus
ajunte-se-lhe à nobreza
o que respiraria?
- Pura poesia!
A delicadeza
é só coração
Única riqueza:
amar os irmãos
Em tempos difíceis
de fome de mísseis
em que às virtudes
se toca o alaúde
e o interior lixo
polui o espírito
seu suave ofício
seja o teu vício





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 282


quarta-feira, 2 de abril de 2014

PEQUENA INTRODUÇÃO AOS MISTÉRIOS DA PAIXÃO E DA COMPAIXÃO



Luís Augusto Cassas


1
O amor é a maior experiência mística do ser humano. A lei do amor é a grande síntese do universo. A vida cumpre seus desígnios através do cumprimento da lei do amor. Doamo-nos para descobrir-nos cheios. No vazio, encontramos a plenitude. É vida e morte, beleza e tortura, mel e fel, luz e sombra, fogo e água, céu e terra. Somos demônios e deuses na ascensão e queda no vazio de nossas perplexidades. De mãos vazias, penetramos no templo do desconhecido. Todo ele se dirige à transcendência, ao centro, ao nirvana, à cruz, à realização. É o dever-ser, no qual o ente que somos realiza o valor mais profundo da existência.

Cada vez que alguém ama, repete-se a história da criação do Mundo. Seja dirigido a uma mulher, a uma causa, a um ideal, ao próximo, á vida, a Deus, o amor é a execução da lei cósmica que nos remete ao infinito de nós mesmos, para que possamos concretizar a busca da totalidade. Onde eram dois, se tornam um, para vivenciar uma nova realidade na abrangência da plenitude humana. É a ponte que nos liga ao eterno, desertando as máscaras de nossa impermanência.

O amor é o chicote que nos expulsa do edifício da insinceridade. É a espada violenta que corta o cordão umbilical do nosso egoísmo, transmutado no violino introdutor da nota da esperança na sinfonia da vida. Nele, o destino pacifica-se com o livre-arbítrio, sob as bençãos da providência, para forjar um novo horizonte repleto de significados a serem descobertos e realizados.

Todos os caminhos - ensina a tradição - levam ao amor. Pelo amor se chega à infinita sabedoria. Pela verdadeira sabedoria, desembarca-se no amor. Na árvore da vida, o amor é a verdadeira raiz, embora estejamos quase sempre absorvidos na paisagem. Sem ele, nada seríamos.

São Francisco amava os passarinhos. Kant amava a liberdade e a alma. Freud viu no amor a sublimação do desejo. Victor Frankl vislumbrou no amor a própria essência do ser. Goethe dizia que o homem que não realizou o amor não cumpriu o seu destino. Cristo dizia que devemos amar até os nossos inimigos.

Chega-se ao amor pela busca? Depara-se com o amor, pela não busca? Nasce em nós ou passa por nós? É uma ciência, uma in-ciência, a recompensa do justo salário da vida? É uma grande corrente explosiva que ao romper as comportas do nosso mundo interior, faz-nos rever todos os conceitos que achávamos ridículos? É uma explosão? Um transbordamento?

O amor é o céu? O inferno, portanto, seria a ausência do amor? De que é feito o amor? Quem são seu pai e sua mãe?

Quem é o amor?



2
Liturgia da Paixão
Este livro é uma tentativa de falar do amor. Fala-se do amor, quando se quer vivenciá-lo plenamente ou quando se foi tragado por suas chamas. Só a cinza deve falar do fogo? Não pode a madeira falar da brasa que a quer consumir? Ainda assim, quem o vivenciou, como o explicaria, face a seu caráter de obra aberta, impregnado de multiplicidade? E, explicando-o, como cada um de nós, na pluralidade da apreensão dessa mensagem, o entenderia, sabendo-se de antemão que no significado está sempre embutido o código pessoal de quem o recebe?

Protossíntese do paradoxo, o amor, ao ser analisado, poematizado, verbalizado, raciocinado, tende a perder a sua essência. Pertence, por sua natureza, à coleção dos enigmas do silêncio. Mas calá-lo significaria, também, uma adesão à morte, à sonegação de si mesmo.  Estes poemas, destarte, estão inscritos na categoria do silêncio e da voz e servem de paradoxo das suas notas dissonantes, mas integrativas: a da sonegação e da oferta. Da preservação da sua essência e da profanação da sua fragrância. Esta última, como declarado e sutil objeto de catarse, purificação, redenção.

Preferível é dizer que este livro fala da paixão. Da paixão e compaixão. Qual é o primeiro nome da compaixão? Paixão. Qual o segundo nome da paixão? Compaixão. Fala dos pequenos mistérios da paixão e compaixão de um poeta dividido ( e unido) entre o amor sensual e o amor espiritual, entre a lógica formal e a lógica moral, entre a causa do mundo e a causa de Deus. Dualidade-unidade, a que todos estamos submetidos por um imperativo da criação, que nos modelou Céu e Terra, fazendo os cabelos arranharem as nuvens e os pés presos no barro dos dias. Dirige-se ao amor-fricção que queima e ilumina, e ao amor-irradiação, consubstanciado nas palavras do Mestre:


Então os justos brilharão com o sol no reino do meu pai.
                                                                                                     (Mateus, 13;43)


No caminho da totalidade, o autor percorre estradas não ortodoxas. Não faz opção entre o amor humano e o amor divino. Deus e a mulher. Ele busca a essência de que está impregnado. A penetração nos mistérios para saber dos seus significados. A matéria e o espírito. A paixão e a sua outra face: a compaixão.

Como transcender a dualidade, senão aceitando as duas faces do rosto da vida? Ficar numa polaridade  e renegar a outra face seria combater o próprio amor, princípio da totalidade. Seria render-se à unilateralidade e assumir-se apenas pela metade. Tenta nada julgar, absorvendo as experiências, para que naturalmente sejam feitas a mutação e a comunhão. De que maneira? Permanecendo natural, deixando a vida fluir espontaneamente, conduzindo-o naturalmente à realização. Sabe que é impossível dirigir a vida. Deixa que o amor a dirija. Pode uma gota de água governar o oceano? Um gota de água é apenas uma minúscula gota do oceano da vida. Uma gota de água é apenas uma criança que quer ser  conduzida ao paraíso.



3
A Poesia Sou Eu, vol. 1
Assim como o homem é dividido em corpo e alma, para melhor ser apreciado, o autor pensou em agrupar, inicialmente, por motivos didáticos, o conteúdo poemático do livro em dois blocos: Sábado da Paixão e Domingo da Compaixão, paráfrase ao trânsito roteirial da noite escura de São João da Cruz.  Pelo sábado da paixão penetrar-se-ia no domingo da compaixão. Mas depois percebeu – paradoxo da unidade na diversidade e da diversidade na unidade –  que muitos dos poemas incorporam características binárias dos dois polos. Na via-crucis  humana, o mistério glorioso, às vezes, é preparação para o mistério gozoso.  A Terra cobra o preço do condomínio de existir.  Então, a linearidade foi trocada pela deambulação dirigida ao centro, à cruz, à realização. O amor, no meio, seria a síntese. Será por esta razão que, na arquitetura do corpo, o coração está no meio do tórax, não totalmente no centro, mas um pouco mais à esquerda, indício formal de que a compaixão é a inclinação natural para que a paixão seja transcendida?

O autor busca o seu caminho no amor. Não o caminho oficial das escrituras que opõem o amor humano ao divino. Seu caminho passa pela paixão e quer viver a sua experiência integral, rumo à plenitude desse significado. O caminho do homem comum impregnado do Céu e  da Terra. O Jnãna-Bhatkii do seu céu-terra interior.

Na sua busca tudo se faz sagrado. O profano e o divino, a eternidade e a provisoriedade, o erotismo e o amor-ágape, o prazer e o significado da vida. Ora seus poemas dirigem-se à existência, a Deus, à mulher, à própria poesia, à matéria e à transcendência. Ora mergulham na transmutação do valores do sentimento e do pensamento. Ora investem contra a própria escuridão íntima para devassa-la e extrair-lhe o puro ouro do cascalho.  Tudo serve,  no seu entender, à glória da vida.

Nessa viagem, faz parceria de ideal com a personagem Sidarta, de Herman Hesse, que, convidado por Buda para segui-lo em seu caminho ascético, preferiu viver no mundo a sua solitária experiência interior, pequeno mestre de si mesmo, embora advertido dos perigos e das emboscadas do caminho. 

Sabe que o caminho é cheio de pântanos e pedras.  Sempre existirá uma pedra no meio do caminho. Mas sabe que a busca passa por trevas e pedras para desembocar na luz. Por via das dúvidas ou dúvidas da via, sabe que o caminho da totalidade é mais doloroso e solitário, mas talvez seja a única via – para que nada se perca e tudo seja salvo – do batismo de fogo da sua iluminação.





 Luís Augusto Cassas
In Liturgia da Paixão
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 317