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quarta-feira, 18 de março de 2015

A CASA DOS ESPÍRITOS ( O Batismo da Cruz sobre a Foice e o Martelo)


Maria de Jesus Carvalho e Maria Aragão


a Maria de Jesus Carvalho 
e Maria Aragão


1
duas marias
cheias de alegria
uma era espírita
a outra: comunista

duas mulheres
cheias de graça
duas mulheres
contra a farsa

duas marias
de luz
duas marias
da cruz


2
uma jejuava
na revelação
a outra comia
a revolução

uma era maria
de jesus
a outra: maria
aragão

uma confiava
no céu
a outra confessava
ao chão


3
uma pregava
a luta de classes
a outra: o amor
face a face

uma iluminava
a consciência
a outra partejava
a inocência

uma à esquerda
de jesus
a outra: à esquerda
da luz


4
na casa dos espíritos
maria de jesus lavava
na casa dos aflitos
maria aragão passava

uma confiava no coração
a outra: na cor da ação
uma distribuía chinelos
a outra: foice e martelo

duas marias das ruas
passando a vida a limpo
duas marias sol e lua
jogando a miséria ao limbo


5
assim as duas marias
grávidas de compaixão
findaram os dias
na mesma oração

uma era maria
de jesus
a outra: maria
aragão

uma foi rindo
pro céu
a outra: sorrindo
ao chão







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 444





terça-feira, 28 de outubro de 2014

SECOS E MOLHADOS





A Teologia mata o amor
cria categorias mistérios dominações
O amor foge e não se resolve:
amor divino amor filial
amor ágape amor carnaval
O primeiro ato do amor
é esquecer o ato de amar
e desterrar os gurus os santos
enterrar os compêndios de compaixão
e os cursos de correspondência da paixão
E amar amar amar amar amar
até jamais enjoar
Amar não para ser amado pelo amor
amar não em nome do amor
amar não com as regras do amor
mas unicamente por amor
Só existe amor
quando existe compromisso
de não amar
Só existe o amar
quando se carrega dentro 
o mar









Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 534



terça-feira, 27 de maio de 2014

A PORTA ESTREITA

Saturno


Saturno manda chumbo grosso
O meu tempo se esgotou
Sou uma alma que jamais
coube no próprio corpo
(e eu digo: não sou grego
nem conheço o seu panteão)
Não renovará licença de oxigênio
sistema imunológico coração
Acusa Netuno de drogar-me
sendas iniciáticas & ilusão
Júpiter de ativista de excesso
expansão sem contração
Vênus de submeter-me
à nutrição do prazer
(fujo pela esquina:
fecha-me na contramão)
Veio pra me ensinar a ser
mas desconsidero a lição
(só passando por seu cadáver
permanecerei no salão)
Já me mandou catástrofes turnês
hospitalares ameaça de castração
(e continuo a vestir
a armadura da negação)
Saturno olha-me nos olhos
amável pede reconsideração
(Estranho membro do clero
em sinistra devoção)
_ "Como ser pobre de espírito
sem aceitar a transformação?"
Amorosamente vi o Mestre
envolto em negra compaixão
(Os olhos de lágrimas negras
pingando óleo pelo chão)
Súbito a ficha caiu
e rolou a conexão
_ "Eis-me aqui: digo
ao meu fim e início
submeto-me ao sacrifício
e aceito a restrição"







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 367


sexta-feira, 16 de maio de 2014

OS MESTRES DO JARDIM (Presságios)

Cristo e Buda


um cristo em lótus
um buda em chagas
balançam incandescentes
no terceiro olho
(nascente/poente)
deixando-me caolho

dizem as línguas de fogo
quando buda ora
no mar vermelho
o cristo medita
no rio amarelo
é segredo da flor de ouro

a mim cabe segurar a haste
do pensamento em brasa
e acender o incenso
no altar da casa:
que mensagem de interdependência
trazem as flores da existência?

definitivamente místico
esse convite alquímico
de dois mestres do espírito:
a prece e meditação
abrindo-me os pesados trincos
dos jardins da compaixão





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 303


quarta-feira, 2 de abril de 2014

PEQUENA INTRODUÇÃO AOS MISTÉRIOS DA PAIXÃO E DA COMPAIXÃO



Luís Augusto Cassas


1
O amor é a maior experiência mística do ser humano. A lei do amor é a grande síntese do universo. A vida cumpre seus desígnios através do cumprimento da lei do amor. Doamo-nos para descobrir-nos cheios. No vazio, encontramos a plenitude. É vida e morte, beleza e tortura, mel e fel, luz e sombra, fogo e água, céu e terra. Somos demônios e deuses na ascensão e queda no vazio de nossas perplexidades. De mãos vazias, penetramos no templo do desconhecido. Todo ele se dirige à transcendência, ao centro, ao nirvana, à cruz, à realização. É o dever-ser, no qual o ente que somos realiza o valor mais profundo da existência.

Cada vez que alguém ama, repete-se a história da criação do Mundo. Seja dirigido a uma mulher, a uma causa, a um ideal, ao próximo, á vida, a Deus, o amor é a execução da lei cósmica que nos remete ao infinito de nós mesmos, para que possamos concretizar a busca da totalidade. Onde eram dois, se tornam um, para vivenciar uma nova realidade na abrangência da plenitude humana. É a ponte que nos liga ao eterno, desertando as máscaras de nossa impermanência.

O amor é o chicote que nos expulsa do edifício da insinceridade. É a espada violenta que corta o cordão umbilical do nosso egoísmo, transmutado no violino introdutor da nota da esperança na sinfonia da vida. Nele, o destino pacifica-se com o livre-arbítrio, sob as bençãos da providência, para forjar um novo horizonte repleto de significados a serem descobertos e realizados.

Todos os caminhos - ensina a tradição - levam ao amor. Pelo amor se chega à infinita sabedoria. Pela verdadeira sabedoria, desembarca-se no amor. Na árvore da vida, o amor é a verdadeira raiz, embora estejamos quase sempre absorvidos na paisagem. Sem ele, nada seríamos.

São Francisco amava os passarinhos. Kant amava a liberdade e a alma. Freud viu no amor a sublimação do desejo. Victor Frankl vislumbrou no amor a própria essência do ser. Goethe dizia que o homem que não realizou o amor não cumpriu o seu destino. Cristo dizia que devemos amar até os nossos inimigos.

Chega-se ao amor pela busca? Depara-se com o amor, pela não busca? Nasce em nós ou passa por nós? É uma ciência, uma in-ciência, a recompensa do justo salário da vida? É uma grande corrente explosiva que ao romper as comportas do nosso mundo interior, faz-nos rever todos os conceitos que achávamos ridículos? É uma explosão? Um transbordamento?

O amor é o céu? O inferno, portanto, seria a ausência do amor? De que é feito o amor? Quem são seu pai e sua mãe?

Quem é o amor?



2
Liturgia da Paixão
Este livro é uma tentativa de falar do amor. Fala-se do amor, quando se quer vivenciá-lo plenamente ou quando se foi tragado por suas chamas. Só a cinza deve falar do fogo? Não pode a madeira falar da brasa que a quer consumir? Ainda assim, quem o vivenciou, como o explicaria, face a seu caráter de obra aberta, impregnado de multiplicidade? E, explicando-o, como cada um de nós, na pluralidade da apreensão dessa mensagem, o entenderia, sabendo-se de antemão que no significado está sempre embutido o código pessoal de quem o recebe?

Protossíntese do paradoxo, o amor, ao ser analisado, poematizado, verbalizado, raciocinado, tende a perder a sua essência. Pertence, por sua natureza, à coleção dos enigmas do silêncio. Mas calá-lo significaria, também, uma adesão à morte, à sonegação de si mesmo.  Estes poemas, destarte, estão inscritos na categoria do silêncio e da voz e servem de paradoxo das suas notas dissonantes, mas integrativas: a da sonegação e da oferta. Da preservação da sua essência e da profanação da sua fragrância. Esta última, como declarado e sutil objeto de catarse, purificação, redenção.

Preferível é dizer que este livro fala da paixão. Da paixão e compaixão. Qual é o primeiro nome da compaixão? Paixão. Qual o segundo nome da paixão? Compaixão. Fala dos pequenos mistérios da paixão e compaixão de um poeta dividido ( e unido) entre o amor sensual e o amor espiritual, entre a lógica formal e a lógica moral, entre a causa do mundo e a causa de Deus. Dualidade-unidade, a que todos estamos submetidos por um imperativo da criação, que nos modelou Céu e Terra, fazendo os cabelos arranharem as nuvens e os pés presos no barro dos dias. Dirige-se ao amor-fricção que queima e ilumina, e ao amor-irradiação, consubstanciado nas palavras do Mestre:


Então os justos brilharão com o sol no reino do meu pai.
                                                                                                     (Mateus, 13;43)


No caminho da totalidade, o autor percorre estradas não ortodoxas. Não faz opção entre o amor humano e o amor divino. Deus e a mulher. Ele busca a essência de que está impregnado. A penetração nos mistérios para saber dos seus significados. A matéria e o espírito. A paixão e a sua outra face: a compaixão.

Como transcender a dualidade, senão aceitando as duas faces do rosto da vida? Ficar numa polaridade  e renegar a outra face seria combater o próprio amor, princípio da totalidade. Seria render-se à unilateralidade e assumir-se apenas pela metade. Tenta nada julgar, absorvendo as experiências, para que naturalmente sejam feitas a mutação e a comunhão. De que maneira? Permanecendo natural, deixando a vida fluir espontaneamente, conduzindo-o naturalmente à realização. Sabe que é impossível dirigir a vida. Deixa que o amor a dirija. Pode uma gota de água governar o oceano? Um gota de água é apenas uma minúscula gota do oceano da vida. Uma gota de água é apenas uma criança que quer ser  conduzida ao paraíso.



3
A Poesia Sou Eu, vol. 1
Assim como o homem é dividido em corpo e alma, para melhor ser apreciado, o autor pensou em agrupar, inicialmente, por motivos didáticos, o conteúdo poemático do livro em dois blocos: Sábado da Paixão e Domingo da Compaixão, paráfrase ao trânsito roteirial da noite escura de São João da Cruz.  Pelo sábado da paixão penetrar-se-ia no domingo da compaixão. Mas depois percebeu – paradoxo da unidade na diversidade e da diversidade na unidade –  que muitos dos poemas incorporam características binárias dos dois polos. Na via-crucis  humana, o mistério glorioso, às vezes, é preparação para o mistério gozoso.  A Terra cobra o preço do condomínio de existir.  Então, a linearidade foi trocada pela deambulação dirigida ao centro, à cruz, à realização. O amor, no meio, seria a síntese. Será por esta razão que, na arquitetura do corpo, o coração está no meio do tórax, não totalmente no centro, mas um pouco mais à esquerda, indício formal de que a compaixão é a inclinação natural para que a paixão seja transcendida?

O autor busca o seu caminho no amor. Não o caminho oficial das escrituras que opõem o amor humano ao divino. Seu caminho passa pela paixão e quer viver a sua experiência integral, rumo à plenitude desse significado. O caminho do homem comum impregnado do Céu e  da Terra. O Jnãna-Bhatkii do seu céu-terra interior.

Na sua busca tudo se faz sagrado. O profano e o divino, a eternidade e a provisoriedade, o erotismo e o amor-ágape, o prazer e o significado da vida. Ora seus poemas dirigem-se à existência, a Deus, à mulher, à própria poesia, à matéria e à transcendência. Ora mergulham na transmutação do valores do sentimento e do pensamento. Ora investem contra a própria escuridão íntima para devassa-la e extrair-lhe o puro ouro do cascalho.  Tudo serve,  no seu entender, à glória da vida.

Nessa viagem, faz parceria de ideal com a personagem Sidarta, de Herman Hesse, que, convidado por Buda para segui-lo em seu caminho ascético, preferiu viver no mundo a sua solitária experiência interior, pequeno mestre de si mesmo, embora advertido dos perigos e das emboscadas do caminho. 

Sabe que o caminho é cheio de pântanos e pedras.  Sempre existirá uma pedra no meio do caminho. Mas sabe que a busca passa por trevas e pedras para desembocar na luz. Por via das dúvidas ou dúvidas da via, sabe que o caminho da totalidade é mais doloroso e solitário, mas talvez seja a única via – para que nada se perca e tudo seja salvo – do batismo de fogo da sua iluminação.





 Luís Augusto Cassas
In Liturgia da Paixão
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 317




segunda-feira, 31 de março de 2014

ODE A NETUNO





Nirvana dos drogados
Estrela-guia dos hippies e lunático
Patrono dos bêbados  e desesperados
Porteiro do Sanatório Cósmico
ora pro nobis
Trago nos olhos a tua assinatura cósmica
de tanto mergulhar nos oceanos de álcool
um jeito displicente de lágrima em supermercado
como a visão crucificada dos primeiros cristãos


Pelo fruto se conhece a árvore
Pelo peixe se conhece o mar
a 3 bilhões de km da Terra
tua vibração diluviana e sutil
faz girar a minha constelação interna
e enlouquecer a órbita de todos os planetas
qual depósito de lixo cósmico despejado na alma
OAN
NOA
HOA
MANU
POSSEIDON


Grão-mestre da ilusão
por que abriste o céu como paraíso da volúpia
e pregaste o desregramento de todos os sentidos?
(Não sabias
__ assim como o flash da fotografia
descolore a tinta nos quadros a óleo __
o desejo exacerbado
afoga a alegria no homem?)
E assim naveguei e naufraguei
por mares de álcool e dor nunca navegados
disfarçado no vapor do êxtase divino
Eros infantil buscando o amor idealizado
nas paisagens femininas do sexo dos anjos
na cama da eternidade
como um guesa errante entoando a melodia do desejo


Grande Iniciador
fizeste-me cansar das coisas desse mundo
ao dissolver-me o inconsciente
na turbulenta fronteira entre a fantasia e a realidade
onde a verdade e o erro _ como diz o poeta Rumi _
são separados apenas por um fio de cabelo
(Pela educação do sofrimento fui transportado
para o roteiro sacrificial a que me indicavas)
Em tudo te revelaste um Mestre
Se me deste a paixão dos suicidas
mostraste-me em seguida o amor universal
Primeiro a paixão
Depois a compaixão
Primeiro a diluição dos sentidos no mar da ilusão
Depois o inconsciente resolvido no oceano da
compreensão
Pelo excesso abriste-me o caminho da renúncia
antes cobra
depois corda de salvação


Mas compreendi depois
que por trás de tudo estava o Amigo
O Amigo que escreve com as letras das estrelas
o convite
para até o mais extraviado dos seres
vir à sua mesa
sorver o vinho cósmico da alegria e união
sem a embriaguez das alturas


O Amigo cuja misericórdia e rigor
são sempre maiores que a nossa ira
e espera até o final dos tempos
pela oportunidade do reencontro





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 299




quinta-feira, 27 de março de 2014

A NOITE ESCURA DA ÁGUA




1
cuidado com a água parada
pra que não a cultivem as larvas
e o mal em bolhas chocado
o inverno atraindo o inferno
em larvas queime o cuidado
porque o amor não é amado

sob a água sob a terra
úmido empoça o passado
multiplica-se o olvido
à luz do sol coagulado
surge o lago putrefato
porque o amor não é amado

articulando a linfa
a profundidade empalha
reproduzindo os miasmas
suspira na água afogada
o coração asfixiado
porque o amor não é amado

bastaria uma palavra
anticoagulante e alga
ou a luz da estrela d'alva
constela-se o espelho em névoa
acende velas a treva
porque o amor não é amado

mas onde o amor é amado
brilha o mistério da alba
lava o espírito o intelecto
ressurge a vitória-régia
no coração do regato
circula o céu entreaberto


2
minha santa depressão
padroeira da escuridão
que preces rezas ao coração:
"...amar demais é em vão...?"
ouve a santa compaixão
na liturgia do perdão:
"...os outros amar como são..."
"...amar jamais é em vão...!"


3
quando os ventos do verão
enviarem-me as folhas mortas
quando o antigo caminhão
despencar na fria encosta
quando a sombra da emoção
derramar como compotas
_ despejando ao rés do chão
mágoas medos e suas polpas _
desperta: é a revisão
que gentil te adentra as portas
acolhe-a no coração
curva-te à sábia proposta
findo o prazo à correção
choverá em tua horta


4
compaixão eis teu mercado de trabalho:
orfanatos feiras penitenciárias hospitais
horas extras c/ creches e extraviados
plantão a marinheiros de último naufrágio
mas guarda minuto de precioso tempo
àqueles privados do sol da própria casa
liberta-lhes o fogo trancado nas gargantas
deles o sopro inflará tuas narinas
lançando-te ao oceano mais profundo




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol.2, p. 285



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

POEMA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS







1
O amor de Deus nos torna ridículos.
Enriquece-nos com tesouros do céu
mas desliga-nos das coisas da terra.
A barba cresce o orgulho desaparece,
os amigos entristecem as mulheres fenecem.
Pródigos do céu e perdulários do mundo
somos atraídos pelo ouro do alto que ninguém vê
Tudo doamos: até o amor
que não sabíamos armazenado.
Em vez de prazer, ofertamos compaixão.
Em lugar do ódio, oferecemos comunhão.
Somos frágeis palmeiras inclinadas
ao sopro da sua sabedoria.
Mas a arquitetura e engenharia do Senhor,
as obras, as obras, as obras,  quem as compreende?



2
Não e não. Não queríamos Deus
em nossos corações.  Antes uma vida tranquila,
um pôr do sol no campo, um amor à beira-mar,
do que cultivar esses imensos campos verdes
com tantas ovelhas desgarradas a pastar!
Mas o Senhor nos destruiu com seu raio divino:
invadiu-nos a alma, afugentou-nos o temor,
deu-nos por casa o universo,
vestiu-se belos como os lírios dos campos,
alimentou-nos com os pássaros do céu
e nos fez andar descalços
sobre as pedras e espinhos do passado.
Meus pés ardem em chagas,
Meu espírito está em brasa,
mas meu coração transborda em seu cálice!
Maldito quem nos tornou ridículos
 em nome do Amor!
Bendito seja por toda a eternidade
o nome do Senhor!





Luís Augusto Cassas
In Liturgia da Paixão, p. 184



terça-feira, 22 de outubro de 2013

A QUINTA CHAGA




Aos amigos Leonel Araújo Lima, Zeca Belo e Alberico Carneiro, companheiros da flor-de-lis metálica no coração



Eis o caminho das espadas
que o Mar Vermelho abençoou
na constelação das coronárias
Taça de vinho tinto derramado
 na toalha branca do sacrário
sou a ceia devorando ervas amargas


Víscera sagrada estressado músculo
ovelha imolada templo do crepúsculo
sol de Hiroshima bíblia de Abel
palco da chacina açougue do céu
bala de canhão dos doze apóstolos
 UTI da paixão de todos os sós


Morrer pela cruz ou pela espada?
Arrancaria do peito a bomba-relógio
e contra a turba arremessaria a granada?
Metralhado ostentaria estrelado
os buracos do céu em adoração
guerrilheiro da magia sagrada?


Ave quinta chaga de Cristo:
o serafim científico executou o rito
de angioplástico gozo: projétil metálico
Ante-sala da iniciação — stent no coração —
fuso a fuso parafuso a parafuso
penetraremos no paraíso?


Buraco de agulha — eis a porta estreita
da artéria — chave da compaixão
Por esse buraco passaram e passarão
Franciscos e Pios o vício e o perdão
Nos canais interditados das veias
navegam uníssonos o mau e o bom ladrão

Vede os estigmatizados da razão
 e o mistério decepado de asas
Ninguém transformará em devoção
 os estigmas dos endurecidos corações
clamando onipresentes à rigidez do músculo:
— “afastai a pedra do sepulcro!”


Venerado com catéteres e adrenalina
 o corpo cambaleia nas estações
Ora a nicotina: “ópio do povo /
 vício do todo / cinzas de maria”
A serpente com as presas de metal
 envenena-me com a seta do aguilhão


Na caverna do peito — fenda
da rocha — o poço da paixão
3 da tarde: as angustiadas badaladas
da máquina gritando manutenção
Arame farpado: a chaga da terra
a natureza submetida à corrupção


Ferido por minhas próprias transgressões
 dilacerado pelos meus pecados
minhas feridas jamais me curarão:
pingue nelas o sangue do crucificado
Quem reerguerá esse templo de paixão
consumido em desejos e desolação?


Consagrei o corpo em flor
às obras em suor do amor:
mão direita — realeza
mão esquerda — beleza
pé direito — profundidade
pé esquerdo — busca da verdade


Mas o coração milagre da criação
sofre o abalo da gravitação
a queda da eterna árvore
Entre o elástico e o esclerótico
lançou-me o peito a um voo egoico
— estreito céu — fatídica ave

Extenuado em vasoconstrição
 quem reconciliará meu coração
com a senda do amor e compaixão?
o crucificado sursum corda
alargará os afluentes envenenados
jorrando sangue e água da misericórdia


Ser conduzido pela claridade
aprender com a fonte a sobriedade
como o lírio curvar-se à castidade
eis minha precária humanidade:
a água condutora de eletricidade
fogo espalhou à chama da vaidade


Celebrei-te ó fragmento
 sob as colunas do templo
Prisioneiro do tempo e vento
 ergui-te fáustico monumento
Hoje ardendo em fragmentação
 aspiro ao sol da união


Desta sexta-feira sou o crucificado
clamando ao meu anjo os seus cuidados
Coração novo Caminho novo
Cântico novo Mundo novo
Complete o céu a grande obra
de quem na vida suportou ígneas provas


Do amor a via sacra negativa
seja transmutada a chaga em água viva
Pai glorifica os meus fracassos:
no peito habite o sagrado pássaro
Ó mangueiras do Sítio do Físico:
sobre vós derramo o meu espírito


OFERTÓRIO

Quando fores a São Luís aquece o teu coração:
enverga a jaqueta gris e leva a flor entre as mãos
Indaga à rua do Giz e aos sabiás de plantão
pela alegre codorniz que morreu de solidão
Chama um menino feliz do Coroado ou Pespontão
pra abençoar a cicatriz e dar asas à rejeição
Quando fores a São Luís ajoelha-te em oração:
encontrarás na Matriz meu corpo de ressurreição!




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 550