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terça-feira, 28 de outubro de 2014

SECOS E MOLHADOS





A Teologia mata o amor
cria categorias mistérios dominações
O amor foge e não se resolve:
amor divino amor filial
amor ágape amor carnaval
O primeiro ato do amor
é esquecer o ato de amar
e desterrar os gurus os santos
enterrar os compêndios de compaixão
e os cursos de correspondência da paixão
E amar amar amar amar amar
até jamais enjoar
Amar não para ser amado pelo amor
amar não em nome do amor
amar não com as regras do amor
mas unicamente por amor
Só existe amor
quando existe compromisso
de não amar
Só existe o amar
quando se carrega dentro 
o mar









Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 534



terça-feira, 24 de junho de 2014

A OBRA EM CINZA (O Iluminado)




És o maior iluminado que conheço
 na iniciação dos segredos mais ocultos
Aspirar tua presença é inventar a chave
que penetra os mistérios do êxtase mais profundo
 Todos os dias um bilhão de fiéis presta-Te culto
Te invocam em Bombaim na Lituânia e no Chipre
nos cafés de Buenos Aires ou no horário nobre da CNN
És céu e inferno prisão e libertação
vida e morte consciência e inconsciência
e estás em Ti mesmo como o arcano da liberdade
 na dimensão recôndita de nossa revelação
És a chama plúmbea da sabedoria
que penetras o corpo físico mental e emocional
 protegido pela magia dos elementos fogo e ar
 No espaço entre os dedos e os lábios
exercitas tua sublime alquimia
que converte ímpios em puros e tolos em sábios
 Tuas espirais de fumaça evocam os anéis de Saturno
 onde sentamos na escadaria para meditar
Buda vegetal lança-nos a um incensado nirvana
 com tua fragrância de alcatrão e nicotina
Sou o teu discípulo mais incandescente
derramando luz e muco pelo sistema solar
Reverencio-Te como a um deus pagão:
sou o raio cinza do teu ensinamento
No juízo final os críticos divinos dirão:
toda a sua obra recebeu-lhe o gentil alento








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol, 1, p. 284



quarta-feira, 2 de abril de 2014

PEQUENA INTRODUÇÃO AOS MISTÉRIOS DA PAIXÃO E DA COMPAIXÃO



Luís Augusto Cassas


1
O amor é a maior experiência mística do ser humano. A lei do amor é a grande síntese do universo. A vida cumpre seus desígnios através do cumprimento da lei do amor. Doamo-nos para descobrir-nos cheios. No vazio, encontramos a plenitude. É vida e morte, beleza e tortura, mel e fel, luz e sombra, fogo e água, céu e terra. Somos demônios e deuses na ascensão e queda no vazio de nossas perplexidades. De mãos vazias, penetramos no templo do desconhecido. Todo ele se dirige à transcendência, ao centro, ao nirvana, à cruz, à realização. É o dever-ser, no qual o ente que somos realiza o valor mais profundo da existência.

Cada vez que alguém ama, repete-se a história da criação do Mundo. Seja dirigido a uma mulher, a uma causa, a um ideal, ao próximo, á vida, a Deus, o amor é a execução da lei cósmica que nos remete ao infinito de nós mesmos, para que possamos concretizar a busca da totalidade. Onde eram dois, se tornam um, para vivenciar uma nova realidade na abrangência da plenitude humana. É a ponte que nos liga ao eterno, desertando as máscaras de nossa impermanência.

O amor é o chicote que nos expulsa do edifício da insinceridade. É a espada violenta que corta o cordão umbilical do nosso egoísmo, transmutado no violino introdutor da nota da esperança na sinfonia da vida. Nele, o destino pacifica-se com o livre-arbítrio, sob as bençãos da providência, para forjar um novo horizonte repleto de significados a serem descobertos e realizados.

Todos os caminhos - ensina a tradição - levam ao amor. Pelo amor se chega à infinita sabedoria. Pela verdadeira sabedoria, desembarca-se no amor. Na árvore da vida, o amor é a verdadeira raiz, embora estejamos quase sempre absorvidos na paisagem. Sem ele, nada seríamos.

São Francisco amava os passarinhos. Kant amava a liberdade e a alma. Freud viu no amor a sublimação do desejo. Victor Frankl vislumbrou no amor a própria essência do ser. Goethe dizia que o homem que não realizou o amor não cumpriu o seu destino. Cristo dizia que devemos amar até os nossos inimigos.

Chega-se ao amor pela busca? Depara-se com o amor, pela não busca? Nasce em nós ou passa por nós? É uma ciência, uma in-ciência, a recompensa do justo salário da vida? É uma grande corrente explosiva que ao romper as comportas do nosso mundo interior, faz-nos rever todos os conceitos que achávamos ridículos? É uma explosão? Um transbordamento?

O amor é o céu? O inferno, portanto, seria a ausência do amor? De que é feito o amor? Quem são seu pai e sua mãe?

Quem é o amor?



2
Liturgia da Paixão
Este livro é uma tentativa de falar do amor. Fala-se do amor, quando se quer vivenciá-lo plenamente ou quando se foi tragado por suas chamas. Só a cinza deve falar do fogo? Não pode a madeira falar da brasa que a quer consumir? Ainda assim, quem o vivenciou, como o explicaria, face a seu caráter de obra aberta, impregnado de multiplicidade? E, explicando-o, como cada um de nós, na pluralidade da apreensão dessa mensagem, o entenderia, sabendo-se de antemão que no significado está sempre embutido o código pessoal de quem o recebe?

Protossíntese do paradoxo, o amor, ao ser analisado, poematizado, verbalizado, raciocinado, tende a perder a sua essência. Pertence, por sua natureza, à coleção dos enigmas do silêncio. Mas calá-lo significaria, também, uma adesão à morte, à sonegação de si mesmo.  Estes poemas, destarte, estão inscritos na categoria do silêncio e da voz e servem de paradoxo das suas notas dissonantes, mas integrativas: a da sonegação e da oferta. Da preservação da sua essência e da profanação da sua fragrância. Esta última, como declarado e sutil objeto de catarse, purificação, redenção.

Preferível é dizer que este livro fala da paixão. Da paixão e compaixão. Qual é o primeiro nome da compaixão? Paixão. Qual o segundo nome da paixão? Compaixão. Fala dos pequenos mistérios da paixão e compaixão de um poeta dividido ( e unido) entre o amor sensual e o amor espiritual, entre a lógica formal e a lógica moral, entre a causa do mundo e a causa de Deus. Dualidade-unidade, a que todos estamos submetidos por um imperativo da criação, que nos modelou Céu e Terra, fazendo os cabelos arranharem as nuvens e os pés presos no barro dos dias. Dirige-se ao amor-fricção que queima e ilumina, e ao amor-irradiação, consubstanciado nas palavras do Mestre:


Então os justos brilharão com o sol no reino do meu pai.
                                                                                                     (Mateus, 13;43)


No caminho da totalidade, o autor percorre estradas não ortodoxas. Não faz opção entre o amor humano e o amor divino. Deus e a mulher. Ele busca a essência de que está impregnado. A penetração nos mistérios para saber dos seus significados. A matéria e o espírito. A paixão e a sua outra face: a compaixão.

Como transcender a dualidade, senão aceitando as duas faces do rosto da vida? Ficar numa polaridade  e renegar a outra face seria combater o próprio amor, princípio da totalidade. Seria render-se à unilateralidade e assumir-se apenas pela metade. Tenta nada julgar, absorvendo as experiências, para que naturalmente sejam feitas a mutação e a comunhão. De que maneira? Permanecendo natural, deixando a vida fluir espontaneamente, conduzindo-o naturalmente à realização. Sabe que é impossível dirigir a vida. Deixa que o amor a dirija. Pode uma gota de água governar o oceano? Um gota de água é apenas uma minúscula gota do oceano da vida. Uma gota de água é apenas uma criança que quer ser  conduzida ao paraíso.



3
A Poesia Sou Eu, vol. 1
Assim como o homem é dividido em corpo e alma, para melhor ser apreciado, o autor pensou em agrupar, inicialmente, por motivos didáticos, o conteúdo poemático do livro em dois blocos: Sábado da Paixão e Domingo da Compaixão, paráfrase ao trânsito roteirial da noite escura de São João da Cruz.  Pelo sábado da paixão penetrar-se-ia no domingo da compaixão. Mas depois percebeu – paradoxo da unidade na diversidade e da diversidade na unidade –  que muitos dos poemas incorporam características binárias dos dois polos. Na via-crucis  humana, o mistério glorioso, às vezes, é preparação para o mistério gozoso.  A Terra cobra o preço do condomínio de existir.  Então, a linearidade foi trocada pela deambulação dirigida ao centro, à cruz, à realização. O amor, no meio, seria a síntese. Será por esta razão que, na arquitetura do corpo, o coração está no meio do tórax, não totalmente no centro, mas um pouco mais à esquerda, indício formal de que a compaixão é a inclinação natural para que a paixão seja transcendida?

O autor busca o seu caminho no amor. Não o caminho oficial das escrituras que opõem o amor humano ao divino. Seu caminho passa pela paixão e quer viver a sua experiência integral, rumo à plenitude desse significado. O caminho do homem comum impregnado do Céu e  da Terra. O Jnãna-Bhatkii do seu céu-terra interior.

Na sua busca tudo se faz sagrado. O profano e o divino, a eternidade e a provisoriedade, o erotismo e o amor-ágape, o prazer e o significado da vida. Ora seus poemas dirigem-se à existência, a Deus, à mulher, à própria poesia, à matéria e à transcendência. Ora mergulham na transmutação do valores do sentimento e do pensamento. Ora investem contra a própria escuridão íntima para devassa-la e extrair-lhe o puro ouro do cascalho.  Tudo serve,  no seu entender, à glória da vida.

Nessa viagem, faz parceria de ideal com a personagem Sidarta, de Herman Hesse, que, convidado por Buda para segui-lo em seu caminho ascético, preferiu viver no mundo a sua solitária experiência interior, pequeno mestre de si mesmo, embora advertido dos perigos e das emboscadas do caminho. 

Sabe que o caminho é cheio de pântanos e pedras.  Sempre existirá uma pedra no meio do caminho. Mas sabe que a busca passa por trevas e pedras para desembocar na luz. Por via das dúvidas ou dúvidas da via, sabe que o caminho da totalidade é mais doloroso e solitário, mas talvez seja a única via – para que nada se perca e tudo seja salvo – do batismo de fogo da sua iluminação.





 Luís Augusto Cassas
In Liturgia da Paixão
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 317