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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

REMEMBER ANCHIETA





Passeando descalço - pulmões inflados - 
por estas praias solitárias do litoral
em companhia de gente muito importante:
o sol as ondas as dunas brisas coqueiros e gaivotas
(a mais de 3.000 km da Praia de Iperoig;
a 418 anos da 1a. edição do poema
Da Virgem Santa Maria Mãe de Deus) 
às vezes detenho-me na alva areia
e com o indicador escrevo teu nome: Maria
Como quem procura as tuas mãos
O mar - exército de lavadeiras - vem e apaga
Escrevo de novo: Maria
As ondas vêm carregam a palavra
arremessam-na contra os arrecifes:
teu nome vira sal e espuma
4.172 vezes escrevo: Maria
4,172 vezes o mar vem e leva a areia
Ó Editores do tempo! Pelas barbas de Gutemberg!
Ó Anchieta! Apóstolo da Palavra!
Merecias ser canonizado - Santo Santo Santo -
por realizares o teu milagre maior: o da Poesia
Enquanto eu - sem a proteção
de Deus e da História
mercê do mar da chuva e maus ventos
não deixarei vestígio:
pedra arremessada
alimento de peixes
ou fósforo apagado
na memória







Luís Augusto Cassas
in A Poesia Sou Eu, vol. 1 , p. 129

Este poema consta  no livro  de Rubem Braga, 'A poesia é necessária', 
com os melhores poetas brasileiros de todos os tempos, pela Global Editora.







quinta-feira, 27 de março de 2014

A NOITE ESCURA DA ÁGUA




1
cuidado com a água parada
pra que não a cultivem as larvas
e o mal em bolhas chocado
o inverno atraindo o inferno
em larvas queime o cuidado
porque o amor não é amado

sob a água sob a terra
úmido empoça o passado
multiplica-se o olvido
à luz do sol coagulado
surge o lago putrefato
porque o amor não é amado

articulando a linfa
a profundidade empalha
reproduzindo os miasmas
suspira na água afogada
o coração asfixiado
porque o amor não é amado

bastaria uma palavra
anticoagulante e alga
ou a luz da estrela d'alva
constela-se o espelho em névoa
acende velas a treva
porque o amor não é amado

mas onde o amor é amado
brilha o mistério da alba
lava o espírito o intelecto
ressurge a vitória-régia
no coração do regato
circula o céu entreaberto


2
minha santa depressão
padroeira da escuridão
que preces rezas ao coração:
"...amar demais é em vão...?"
ouve a santa compaixão
na liturgia do perdão:
"...os outros amar como são..."
"...amar jamais é em vão...!"


3
quando os ventos do verão
enviarem-me as folhas mortas
quando o antigo caminhão
despencar na fria encosta
quando a sombra da emoção
derramar como compotas
_ despejando ao rés do chão
mágoas medos e suas polpas _
desperta: é a revisão
que gentil te adentra as portas
acolhe-a no coração
curva-te à sábia proposta
findo o prazo à correção
choverá em tua horta


4
compaixão eis teu mercado de trabalho:
orfanatos feiras penitenciárias hospitais
horas extras c/ creches e extraviados
plantão a marinheiros de último naufrágio
mas guarda minuto de precioso tempo
àqueles privados do sol da própria casa
liberta-lhes o fogo trancado nas gargantas
deles o sopro inflará tuas narinas
lançando-te ao oceano mais profundo




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol.2, p. 285



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

RETRATO DO AUTISTA QDO JOVEM







Escrevo pela absoluta incapacidade de me expressar A incomunicabilidade é meu guia: me salvará 

Escrevo p/ me desconhecer mais do que me traduzir Desescrever-me é o exercício mágico que a 
realização me absolverá Escrevo p/ fugir à obrigatoriedade de ser feliz perante público que jamais 
se lerá Meu leitor _ os que dão as costas à escrita cuneiforme dos apócrifos de Shangrilá


Destextualizar-me é o objetivo final até ser a palavra que ninguém ouvirá Sou a obra inacabada   de

poeta que inaugurou o não pesadelo de sonhar Não sou _ retrato mais perfeito de incomunicar Sou
um dicionário de águias em voo orbital rumo à página que jamais rasgará O Diabo constrói sistemas 
fechados eu os destruo Fosse _ falaria Escrevo por não saber sonhar







Luis Augusto Cassas

In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 225
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