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quarta-feira, 11 de junho de 2014

A BELA E A FERA



tua ausência
explode os castelos da minha angústia
em que pululam famintos no fosso
os jacarés da aflição 


tua ausência
sufoca o sol c/ aranhas e centopeias
esbofeteia os lírios do jardim
e planta buracos negros nas constelações


tua ausência
é máquina de tortura: geme a fúria dos ossos
em consórcio de agonias e range o peito
derramando absinto pelo chão


tua ausência
é sinfonia de vitrais partidos
estilhaços de angústias litanias de cobalto
cruz devorando a carne em flagelação


aquela que brilha em chamas na pupila
chegará a tempo antes que me cresçam as garras
e a fera destrua o sonho de transmutação?


lança último olhar sobre o espelho:
entre o bicho e o infinito desfaleço
rosa negra desabrocha-me nas mãos


nos lábios despetala o derradeiro suspiro
de animal ferido que sabe o encantamento
e em desespero aguarda o beijo da libertação







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 337




quinta-feira, 8 de maio de 2014

A ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA NA INFLUÊNCIA DA ANGÚSTIA

Blake
Goethe
Rei Salomão
a Harold Bloom


1
meus precursores
são agora meus sucessores


salomão goethe blake
 comeram do meu banquete
 e adoraram o peixe
no meu estabelecimento poético
 atuam na carteira de crédito:


vestidos de quepe
 limpam o tapete
 (molhados e secos
recados e bilhetes)


no olhar noético o brilho fixo
da poética do holístico


(ainda há outros estafetas-poetas
que comem do meu pirão
e apanham do meu cinturão
mas estes insatisfeitos-feitos
despetalados parvos-padroeiros
já receberam a lição em cheio)



2
meus precursores
são agora meus colaboradores
 salomão goethe blake
associaram-se ao meu sorvete
e bisaram o chiclete


tradição: por que dizer não
se a repetição da estilística
é a estilística da repetição?
gaia ciência:
a influência da angústia
é a angústia da influência
no olhar chagal
a herança da casa comercial:


ideias — selos &
 palavras — atropelos
(palíndromos
&
palimpsestos)


atiradores de elite
 imitam o poema ao pombo
com o olho atrás do ombro


(ainda há outros mais
autores menos citados
 de outros poemas natais


mas a estes pássaros sem aliche
que a lembrança-tema atesta
deixai-os dormir a sesta)



3
quem diria:
poesia!


meus precursores
salomão goethe blake


  
são agora oficiais patrocinadores
do meu falsete
(e portanto estão
no bolso do colete)


herdeiros de textos panfletos pã-textos
imitam em coro/só/ou ladainha
a voz iconoclasta na cozinha:


ave augusto
a angústia ficou pra tia
a influência virou vovozinha!”





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

PISCIS







Sou partidário da água:

rios, regatos e córregos
são fontes de celebração interior.
Um rio parte do coração
e banha as profundezas da alma.
Os braços são dois longos afluentes
correndo subterrâneos para o abraço da vida.
Nas veias serpeia a líquida seiva
que se derrama em um lago de transcendências.
Transformar pântanos em regatos cristalinos
sob o olhar aceso do firmamento - as estrelas -
eis a essência do trabalho da vida!
Muitos querem ser exaltados.
Aceito com paciência a humilhação.
Muitos são seduzidos pela glória e o poder.
Sou anônimo como o vento e a serenidade
e inútil como o amor e a poesia.
Muitos desejam a imortalidade.
Quedo-me à transformação da matéria
e ao esquecimento.
Enquanto alguns têm os olhos secos
carrego no olhar a chuva de muitas estações.
Como a semente lançada, que enquanto dorme,
floresce sem cessar,
em mim a natureza do seu curso
no dilúvio do tempo e eternidade.
Sou eterno como a gota d'água.
Na fraqueza reside a minha fortaleza.
No meu líquido inconsciente
liberto a angústia dos poetas
dos bêbados e desesperados.
Eu compreendo os incompreendidos,
consolo os que têm sede de justiça,
e aceito (de joelhos) fazer o serviço sujo
de lavar os pés da humanidade.







Luis Augusto Cassas   
In  O Retorno da Aura, p. 120