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quinta-feira, 8 de maio de 2014

A ANGÚSTIA DA INFLUÊNCIA NA INFLUÊNCIA DA ANGÚSTIA

Blake
Goethe
Rei Salomão
a Harold Bloom


1
meus precursores
são agora meus sucessores


salomão goethe blake
 comeram do meu banquete
 e adoraram o peixe
no meu estabelecimento poético
 atuam na carteira de crédito:


vestidos de quepe
 limpam o tapete
 (molhados e secos
recados e bilhetes)


no olhar noético o brilho fixo
da poética do holístico


(ainda há outros estafetas-poetas
que comem do meu pirão
e apanham do meu cinturão
mas estes insatisfeitos-feitos
despetalados parvos-padroeiros
já receberam a lição em cheio)



2
meus precursores
são agora meus colaboradores
 salomão goethe blake
associaram-se ao meu sorvete
e bisaram o chiclete


tradição: por que dizer não
se a repetição da estilística
é a estilística da repetição?
gaia ciência:
a influência da angústia
é a angústia da influência
no olhar chagal
a herança da casa comercial:


ideias — selos &
 palavras — atropelos
(palíndromos
&
palimpsestos)


atiradores de elite
 imitam o poema ao pombo
com o olho atrás do ombro


(ainda há outros mais
autores menos citados
 de outros poemas natais


mas a estes pássaros sem aliche
que a lembrança-tema atesta
deixai-os dormir a sesta)



3
quem diria:
poesia!


meus precursores
salomão goethe blake


  
são agora oficiais patrocinadores
do meu falsete
(e portanto estão
no bolso do colete)


herdeiros de textos panfletos pã-textos
imitam em coro/só/ou ladainha
a voz iconoclasta na cozinha:


“ave augusto
a angústia ficou pra tia
a influência virou vovozinha!”





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu


sexta-feira, 2 de maio de 2014

O OLHAR DO PEIXE






Terrível é ter faróis acesos
e não vencer a neblina dos homens


O olhar do peixe tem um vazio ancestral
Giram no arco-íris da pupila
os segredos do éter universal
a crônica interrompida de Akasha
peregrinações ao Mar Morto
reencarnações de outros mares
cartões postais de oficiais da SS
quebrando as espinhas de seis milhões de judeus
sonhos de uma humanidade distante
(uma sede ancestral de outras águas
derrama lacrima christi em seus olhos)


Sob os sinais de tortura
quem se deterá para fitá-lo?
Ante a fumaça dos olhos
 quem ousará incomodá-lo?
O olhar do peixe é profanador
como os castiçais de Sardanapalo
e belo como um anjo de procissão
 enfrentando na igreja o diabo


Observai o marítimo sacrifício
dos campeões do despenhadeiro líquido
Lavai as mãos e a consciência
antes de adentrar-lhe o frontispício:
púrpura kriptonita acrílico
No sepulcro dos frigoríficos
 aplaca o karma o zodíaco


O mar é anterior ao peixe
ou o peixe é anterior ao mar?
Só Rembrandt e Picasso
podem explicá-lo
O estado fundamental do peixe
é ser repartido
Mas só lhe mensuram o cálcio
 o ômega-3 o potássio
Que lições herdou
do mar do espírito?
Quantas hidrelétricas iluminam
o raio devastador de seu cobalto?


Às vezes a sua sede explode torres
é quando lança a sua pedra do calvário
 com a fúria do cordeiro
para salvar os irmãos de aquário
Mas logo retorna ao mar de transcendência
 e o olhar retorna impávido
ao seu canto de finados





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 261