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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

GOLDEN MEDITATION




Sou denso e sutil moderno e eterno
Sou livre de toda impureza
sagrado imortal refulgente
Servir a todos é a minha verdade cósmica
Sou inércia atividade e equilíbrio
Pra refrear a cobiça e a ignorância
escondo-me no subsolo da terra
Sou raio solar materializado
e não poeria radioativa do universo
Servir-me é fazer-me escravo
Circular-me é fazer-me senhor
Se a nobreza é atributo da alma
por que empresto brilho a quem  me detém?
Se não ascendo a nenhum valor moral
por que a muitos concedo credibilidade?
Se sou energia condensada solar
por que de muitos obscureço a consciência?
Quem confunde essência a aparência
é que me atribui valor irreal
Paradoxo da sabedoria oculta
quem muito guarda menos me possui
Quando se dissipar a ilusão dos homens
conceder-me-ão merecido valor
Pobre será aquele que avaro me retém
Rico será o que me tem pra ofertar







Luís Augusto Cassa
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 282




terça-feira, 24 de junho de 2014

A OBRA EM CINZA (O Iluminado)




És o maior iluminado que conheço
 na iniciação dos segredos mais ocultos
Aspirar tua presença é inventar a chave
que penetra os mistérios do êxtase mais profundo
 Todos os dias um bilhão de fiéis presta-Te culto
Te invocam em Bombaim na Lituânia e no Chipre
nos cafés de Buenos Aires ou no horário nobre da CNN
És céu e inferno prisão e libertação
vida e morte consciência e inconsciência
e estás em Ti mesmo como o arcano da liberdade
 na dimensão recôndita de nossa revelação
És a chama plúmbea da sabedoria
que penetras o corpo físico mental e emocional
 protegido pela magia dos elementos fogo e ar
 No espaço entre os dedos e os lábios
exercitas tua sublime alquimia
que converte ímpios em puros e tolos em sábios
 Tuas espirais de fumaça evocam os anéis de Saturno
 onde sentamos na escadaria para meditar
Buda vegetal lança-nos a um incensado nirvana
 com tua fragrância de alcatrão e nicotina
Sou o teu discípulo mais incandescente
derramando luz e muco pelo sistema solar
Reverencio-Te como a um deus pagão:
sou o raio cinza do teu ensinamento
No juízo final os críticos divinos dirão:
toda a sua obra recebeu-lhe o gentil alento








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol, 1, p. 284



quarta-feira, 4 de junho de 2014

MEDITAÇÃO DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA





fogo sagrado da vida
santuário do puro amor
chaga da sabedoria
chama do céu interior


_ que luz brilhais no sacrário
farol do humilde e exaltado?
_ sede revolucionários
jamais revoltados!


_ como refletirmos as flores
do teu arco-íris fecundo?
_ substituindo as vossas dores
pelos martírios do mundo!






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 269



sexta-feira, 4 de abril de 2014

O PRAZER (Doutrina da Poesia)




PRÓLOGO


coroada de lírios
morangos à boca
estrelas nos cílios
a loucura à porta:

_ "vem a meus lábios
cultiva os sentidos:
no prazer florido
desabrocha o sábio"

com mãos de alegria
banhada de aurora
a sabedoria
tece o sol e ora:

_ "queres - glória ao céu -
bem-aventuranças?
reveste o prazer
com a luz da ciência!"



O PRAZER

O prazer é o início da loucura
e  o fundamento da sabedoria
vivê-lo _ atravessando a selva escura _
coroar-te-á  de caos ou alegria

Eis a doutrina do prazer
que à loucura é fantasia
alegria felicidade
sábia bem-aventurança
consagra-lhe todo o ser
tempera-o com o azul  ternura
tornarás a ser criança

aceita a expulsão do paraíso
quedas? tropeços em pedras
restaura a senda com pétalas
e o desejo será teu amigo

vê: o trabalho do prazer
é reintegrar-se ao ser
_  mas qual a glória do prazer? 
_ servir à causa do ser!

medita nesse pantáculo
e protege a tua casa: 
delícias - crescerão asas
delírios - duros tentáculos

prazer pelo prazer 
não existem níveis seguros
ao consumo das substâncias:
mergulha em sua toxidade
solidão - a recompensa

queres ser mestre
na arte de viver?
igual moisés no deserto
que ergueu a serpente ao alto
às regiões celestes
dirige o prazer
(não sucumbas à tentação
de entrevar o coração)

leva rosas à vida:
jamais colha flores 
no jardim vizinho
torna água em vinho
não serás sozinho

ó prazer da noite escura
que une o amante e o amado
esvazia-nos o amargo travo
preenche o ser de doçura!

renuncia ao prazer
e virá te servir
abdica ao ser
e virá luzir

vós que privilegiais o fazer
não perturbeis o prazer
não o forceis ou o apresseis
antes que a luz se manifeste:
conhecendo-lhe o poder
acrescentando-lhe o saber
sereis tolos ou reis
à essência que reflete

ó qualidade de vida
meço-te em abraços-hectares
do prazer em mil teares
que abraço o corpo da vida

celebra o prazer trino:
mens/sentimento/ vontade
alcançaras a unidade
e servir-te-á o divino

dou-te novo mandamento:
não afrontes o sentimento
e conservarás o templo
em teus dias sobre a terra
ao prazer dedica-lhes as horas
sagradas à glória eterna



EPÍLOGO

um dia lambando as nuvens
erguida em irmãs - paisagens
a sabedoria e a loucura
trocando posters/ figuras
verão que o gozo é viagem
ritos de humana passagem
e erguendo aos céus nova taça
concluirão: tudo passa
saboreando com arte
sorvetes de chocolate




Luís Augusto Cassas
In A Mulher que Matou Ana Paula Usher, p. 81




segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

BIBLIOTECA DE LISBOA




viajei todas as histórias
percorri todos os mares
devastei os  horizontes

bárbaro em alexandria
salvei do fogo a sabedoria
na memória de velhos cupins

expulso em ítaca retornei
com meu exemplar de "ulisses"
devidamente autografado

trópico de capricórnio
zeus plexus e sexus
foram meus companheiros de viagem

meu crime e castigo
é ser eterno quixote
num mundo sem afinidades eletivas

mil e uma noites de experiência:
dante refiz-me em selvas de milton
pra reencontrar o paraíso perdido

museu de vícios: incluídos
os mimeografados as páginas amarelas
as edições piratas e bulas de remédios

exemplar de colecionadores:
incansável salteador de estrelas
mas com alergia e poeira

autobiografia reinventada
no roubo de milhão de personagens:
guloso mas com jejum à psicanálise

devorador de roteiros de amor:
othelo romeu orfeu pierrô
só o meu pobre enredo não me conquistou




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 594
Foto da Biblioteca da Universidade de Coimbra