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terça-feira, 5 de maio de 2015

AMOR: O CUMPRIMENTO DA LEI






De grande e pequenos gestos
vive o amor:
sol no coração
água na emoção
até molhar as raízes
do mais alegre verão!


De grande e pequenos gestos
morre o amor:
lua no coração
deserto na paixão
até secar o íntimo oásis
da fonte da emoção!


De pequenos e grandes gestos
renasce o amor:
fogo no coração
chuva na emoção
até ressurgir a luz
cristalina da paixão!


Ó natureza naturante
ferida mas não decaída!
De pequenos e grandes gestos
renasce sempre o amor
pra que se cumpra a natureza
na lei eterna da vida!








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 410





terça-feira, 28 de outubro de 2014

SECOS E MOLHADOS





A Teologia mata o amor
cria categorias mistérios dominações
O amor foge e não se resolve:
amor divino amor filial
amor ágape amor carnaval
O primeiro ato do amor
é esquecer o ato de amar
e desterrar os gurus os santos
enterrar os compêndios de compaixão
e os cursos de correspondência da paixão
E amar amar amar amar amar
até jamais enjoar
Amar não para ser amado pelo amor
amar não em nome do amor
amar não com as regras do amor
mas unicamente por amor
Só existe amor
quando existe compromisso
de não amar
Só existe o amar
quando se carrega dentro 
o mar









Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 534



sexta-feira, 20 de junho de 2014

BALADA NEGRA




1
Anjo decaído meu
esplendoroso príncipe de alcatraz
melhor seria não te conhecer pessoalmente
e relegar-te à escuridão do jardim interno
Mas se me escondo e fecho a porta
fazes um louco pandemônio
retornas com o teu séquito de angústias
ateias fogo no tapete
afugentas os pássaros da garganta
e torno-me um polichinelo em tuas mãos


E te vejo em todos os lugares
no semáforo das esquinas
nos anúncios das vitrines
nos letreiros das boutiques
na tábua de frios dos restaurantes
Até nas tábuas da lei
te introduzes zombeteiro
nas páginas do missal romano


Anjo decaído meu
inevitável te conhecer: 
portanto (o que fazer?)
muito prazer


Dentro de mim borbulhas no sangue
celebrando a minha parte corrompida
e subtrais os rios do Éden
teus combustíveis de alumínio líquido



2
Quando eu captava o mundo
pela impressão colorida dos 5 sentidos
estavas comigo
Quando celebrava os signos da matéria
estavas comigo
Quando o intelecto se rebelava na consciência
estavas comigo
formando rica matéria-prima
para os confessionários das igrejas
e os consultórios dos psicanalistas


Cativas-me com teu cativeiro
tua energia de alta tensão
exaltas-me os sentidos
para a posse e a paixão



3
Na divina comédia da vida
és o ator mais procurado
mesmo quando escondes o rabo
e mostras sob as gambiarras acesas
a tua face de raro esplendor


Mestre de negro humor
saltimbanco de ópera bufa
Príncipe dos deserdados
tua maior glória é esta:
ensinar que na fraqueza do divino
está a ascensão do humano


Vê: todo o território
até onde o olhar alcança é teu:
a paisagem que não é de Deus
Não foi a ti que nos confiou
a piedade divina
Como então zelas e proteges
guardas e iluminas?



4
No reflexo do espelho
vejo que os desejos de apropriar possuir seduzir
são as chaves do teu reino
e nele gravito incandescente
(paraquedas chegando ao chão)
por mais que esfregue a pele da alma
e lave a consciência com sabão


Ah teu paraíso é feito
das delícias do humano
dos escombros do divino
do gozo do profano
de excremento dos anjos
das impurezas do branco


e nele ficarás até o final dos tempos
rondando os templos
como o cão de guarda
defende a casa


essa é a receita da serra:
a contrapartida da terra!



5
Anjo decaído meu
porta do inferno
sol da eletricidade
estrela do egoísmo
arco-íris fendido
arco da lamentação
luz dos orgulhosos
seta do desânimo


agora que te conheço
renuncio às tuas obras
agora que me conheço
renuncio às minhas cobras
indigesto foi comer o pudim de sobras
doloroso dizer: mas valeu



6
Do inferno e sua alfaiataria
não me visto mais
Agora visto a roupa do eterno
e a sua profunda paz








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 373


quarta-feira, 2 de abril de 2014

PEQUENA INTRODUÇÃO AOS MISTÉRIOS DA PAIXÃO E DA COMPAIXÃO



Luís Augusto Cassas


1
O amor é a maior experiência mística do ser humano. A lei do amor é a grande síntese do universo. A vida cumpre seus desígnios através do cumprimento da lei do amor. Doamo-nos para descobrir-nos cheios. No vazio, encontramos a plenitude. É vida e morte, beleza e tortura, mel e fel, luz e sombra, fogo e água, céu e terra. Somos demônios e deuses na ascensão e queda no vazio de nossas perplexidades. De mãos vazias, penetramos no templo do desconhecido. Todo ele se dirige à transcendência, ao centro, ao nirvana, à cruz, à realização. É o dever-ser, no qual o ente que somos realiza o valor mais profundo da existência.

Cada vez que alguém ama, repete-se a história da criação do Mundo. Seja dirigido a uma mulher, a uma causa, a um ideal, ao próximo, á vida, a Deus, o amor é a execução da lei cósmica que nos remete ao infinito de nós mesmos, para que possamos concretizar a busca da totalidade. Onde eram dois, se tornam um, para vivenciar uma nova realidade na abrangência da plenitude humana. É a ponte que nos liga ao eterno, desertando as máscaras de nossa impermanência.

O amor é o chicote que nos expulsa do edifício da insinceridade. É a espada violenta que corta o cordão umbilical do nosso egoísmo, transmutado no violino introdutor da nota da esperança na sinfonia da vida. Nele, o destino pacifica-se com o livre-arbítrio, sob as bençãos da providência, para forjar um novo horizonte repleto de significados a serem descobertos e realizados.

Todos os caminhos - ensina a tradição - levam ao amor. Pelo amor se chega à infinita sabedoria. Pela verdadeira sabedoria, desembarca-se no amor. Na árvore da vida, o amor é a verdadeira raiz, embora estejamos quase sempre absorvidos na paisagem. Sem ele, nada seríamos.

São Francisco amava os passarinhos. Kant amava a liberdade e a alma. Freud viu no amor a sublimação do desejo. Victor Frankl vislumbrou no amor a própria essência do ser. Goethe dizia que o homem que não realizou o amor não cumpriu o seu destino. Cristo dizia que devemos amar até os nossos inimigos.

Chega-se ao amor pela busca? Depara-se com o amor, pela não busca? Nasce em nós ou passa por nós? É uma ciência, uma in-ciência, a recompensa do justo salário da vida? É uma grande corrente explosiva que ao romper as comportas do nosso mundo interior, faz-nos rever todos os conceitos que achávamos ridículos? É uma explosão? Um transbordamento?

O amor é o céu? O inferno, portanto, seria a ausência do amor? De que é feito o amor? Quem são seu pai e sua mãe?

Quem é o amor?



2
Liturgia da Paixão
Este livro é uma tentativa de falar do amor. Fala-se do amor, quando se quer vivenciá-lo plenamente ou quando se foi tragado por suas chamas. Só a cinza deve falar do fogo? Não pode a madeira falar da brasa que a quer consumir? Ainda assim, quem o vivenciou, como o explicaria, face a seu caráter de obra aberta, impregnado de multiplicidade? E, explicando-o, como cada um de nós, na pluralidade da apreensão dessa mensagem, o entenderia, sabendo-se de antemão que no significado está sempre embutido o código pessoal de quem o recebe?

Protossíntese do paradoxo, o amor, ao ser analisado, poematizado, verbalizado, raciocinado, tende a perder a sua essência. Pertence, por sua natureza, à coleção dos enigmas do silêncio. Mas calá-lo significaria, também, uma adesão à morte, à sonegação de si mesmo.  Estes poemas, destarte, estão inscritos na categoria do silêncio e da voz e servem de paradoxo das suas notas dissonantes, mas integrativas: a da sonegação e da oferta. Da preservação da sua essência e da profanação da sua fragrância. Esta última, como declarado e sutil objeto de catarse, purificação, redenção.

Preferível é dizer que este livro fala da paixão. Da paixão e compaixão. Qual é o primeiro nome da compaixão? Paixão. Qual o segundo nome da paixão? Compaixão. Fala dos pequenos mistérios da paixão e compaixão de um poeta dividido ( e unido) entre o amor sensual e o amor espiritual, entre a lógica formal e a lógica moral, entre a causa do mundo e a causa de Deus. Dualidade-unidade, a que todos estamos submetidos por um imperativo da criação, que nos modelou Céu e Terra, fazendo os cabelos arranharem as nuvens e os pés presos no barro dos dias. Dirige-se ao amor-fricção que queima e ilumina, e ao amor-irradiação, consubstanciado nas palavras do Mestre:


Então os justos brilharão com o sol no reino do meu pai.
                                                                                                     (Mateus, 13;43)


No caminho da totalidade, o autor percorre estradas não ortodoxas. Não faz opção entre o amor humano e o amor divino. Deus e a mulher. Ele busca a essência de que está impregnado. A penetração nos mistérios para saber dos seus significados. A matéria e o espírito. A paixão e a sua outra face: a compaixão.

Como transcender a dualidade, senão aceitando as duas faces do rosto da vida? Ficar numa polaridade  e renegar a outra face seria combater o próprio amor, princípio da totalidade. Seria render-se à unilateralidade e assumir-se apenas pela metade. Tenta nada julgar, absorvendo as experiências, para que naturalmente sejam feitas a mutação e a comunhão. De que maneira? Permanecendo natural, deixando a vida fluir espontaneamente, conduzindo-o naturalmente à realização. Sabe que é impossível dirigir a vida. Deixa que o amor a dirija. Pode uma gota de água governar o oceano? Um gota de água é apenas uma minúscula gota do oceano da vida. Uma gota de água é apenas uma criança que quer ser  conduzida ao paraíso.



3
A Poesia Sou Eu, vol. 1
Assim como o homem é dividido em corpo e alma, para melhor ser apreciado, o autor pensou em agrupar, inicialmente, por motivos didáticos, o conteúdo poemático do livro em dois blocos: Sábado da Paixão e Domingo da Compaixão, paráfrase ao trânsito roteirial da noite escura de São João da Cruz.  Pelo sábado da paixão penetrar-se-ia no domingo da compaixão. Mas depois percebeu – paradoxo da unidade na diversidade e da diversidade na unidade –  que muitos dos poemas incorporam características binárias dos dois polos. Na via-crucis  humana, o mistério glorioso, às vezes, é preparação para o mistério gozoso.  A Terra cobra o preço do condomínio de existir.  Então, a linearidade foi trocada pela deambulação dirigida ao centro, à cruz, à realização. O amor, no meio, seria a síntese. Será por esta razão que, na arquitetura do corpo, o coração está no meio do tórax, não totalmente no centro, mas um pouco mais à esquerda, indício formal de que a compaixão é a inclinação natural para que a paixão seja transcendida?

O autor busca o seu caminho no amor. Não o caminho oficial das escrituras que opõem o amor humano ao divino. Seu caminho passa pela paixão e quer viver a sua experiência integral, rumo à plenitude desse significado. O caminho do homem comum impregnado do Céu e  da Terra. O Jnãna-Bhatkii do seu céu-terra interior.

Na sua busca tudo se faz sagrado. O profano e o divino, a eternidade e a provisoriedade, o erotismo e o amor-ágape, o prazer e o significado da vida. Ora seus poemas dirigem-se à existência, a Deus, à mulher, à própria poesia, à matéria e à transcendência. Ora mergulham na transmutação do valores do sentimento e do pensamento. Ora investem contra a própria escuridão íntima para devassa-la e extrair-lhe o puro ouro do cascalho.  Tudo serve,  no seu entender, à glória da vida.

Nessa viagem, faz parceria de ideal com a personagem Sidarta, de Herman Hesse, que, convidado por Buda para segui-lo em seu caminho ascético, preferiu viver no mundo a sua solitária experiência interior, pequeno mestre de si mesmo, embora advertido dos perigos e das emboscadas do caminho. 

Sabe que o caminho é cheio de pântanos e pedras.  Sempre existirá uma pedra no meio do caminho. Mas sabe que a busca passa por trevas e pedras para desembocar na luz. Por via das dúvidas ou dúvidas da via, sabe que o caminho da totalidade é mais doloroso e solitário, mas talvez seja a única via – para que nada se perca e tudo seja salvo – do batismo de fogo da sua iluminação.





 Luís Augusto Cassas
In Liturgia da Paixão
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 317




segunda-feira, 31 de março de 2014

ODE A NETUNO





Nirvana dos drogados
Estrela-guia dos hippies e lunático
Patrono dos bêbados  e desesperados
Porteiro do Sanatório Cósmico
ora pro nobis
Trago nos olhos a tua assinatura cósmica
de tanto mergulhar nos oceanos de álcool
um jeito displicente de lágrima em supermercado
como a visão crucificada dos primeiros cristãos


Pelo fruto se conhece a árvore
Pelo peixe se conhece o mar
a 3 bilhões de km da Terra
tua vibração diluviana e sutil
faz girar a minha constelação interna
e enlouquecer a órbita de todos os planetas
qual depósito de lixo cósmico despejado na alma
OAN
NOA
HOA
MANU
POSSEIDON


Grão-mestre da ilusão
por que abriste o céu como paraíso da volúpia
e pregaste o desregramento de todos os sentidos?
(Não sabias
__ assim como o flash da fotografia
descolore a tinta nos quadros a óleo __
o desejo exacerbado
afoga a alegria no homem?)
E assim naveguei e naufraguei
por mares de álcool e dor nunca navegados
disfarçado no vapor do êxtase divino
Eros infantil buscando o amor idealizado
nas paisagens femininas do sexo dos anjos
na cama da eternidade
como um guesa errante entoando a melodia do desejo


Grande Iniciador
fizeste-me cansar das coisas desse mundo
ao dissolver-me o inconsciente
na turbulenta fronteira entre a fantasia e a realidade
onde a verdade e o erro _ como diz o poeta Rumi _
são separados apenas por um fio de cabelo
(Pela educação do sofrimento fui transportado
para o roteiro sacrificial a que me indicavas)
Em tudo te revelaste um Mestre
Se me deste a paixão dos suicidas
mostraste-me em seguida o amor universal
Primeiro a paixão
Depois a compaixão
Primeiro a diluição dos sentidos no mar da ilusão
Depois o inconsciente resolvido no oceano da
compreensão
Pelo excesso abriste-me o caminho da renúncia
antes cobra
depois corda de salvação


Mas compreendi depois
que por trás de tudo estava o Amigo
O Amigo que escreve com as letras das estrelas
o convite
para até o mais extraviado dos seres
vir à sua mesa
sorver o vinho cósmico da alegria e união
sem a embriaguez das alturas


O Amigo cuja misericórdia e rigor
são sempre maiores que a nossa ira
e espera até o final dos tempos
pela oportunidade do reencontro





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 299




quarta-feira, 27 de novembro de 2013

CASABLANCA







Humphrey Bogart tropical
defensor da nobre causa da paixão
rosa amarela na lapela
duas taças: uma na mão
                  outra no coração
abandono o truísmo de perder o amor
pelo altruísmo de vivê-lo
é a última hora do voo
altero o infeliz roteiro
derramo a taça da mão
na taça do coração
apago o cigarro nos dedos
acendo um beijo com o isqueiro
os lábios dela tocam A Merselhesa
e despacho o marido solitário
são e calvo
no último avião





Luís Augusto Cassas
In Liturgia da Paixão, p. 42