Mostrando postagens com marcador paz. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador paz. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de maio de 2015

ODE À HÓSTIA





Sol branco de trigo e paz
iluminando o universo interior
Floresces no céu da boca
com gosto de mistério e de milagre
Como Agostinho em Óstia
dividido entre o amor sensual e o espiritual
dissolves-me o parco entendimento
e sinto o amor com a essência do ente amado
Menino ávido de aurora e luz
elevado nessa pura lei da gravidade
oferto os lábios à seara diária E floresço:
trigal de Deus hóspede do divino
Cada ceia acorda a sagrada família interior
e renasço em mim multiplicado em pães e peixes
Brasas ardentes povoam-me o coração!
Que o sol que me desce às entranhas
sarça branca fogo imaculado
é o próprio cordeiro transplantado
síntese solar da mais pura alquimia
que converte em ouro tudo o que era chumbo
e faz do humano a passagem para o sagrado









Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 401



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O VAZIO





O vazio está no presente Jamais no passado Nunca no futuro
É um presente do presente


Vazias possibilidades: o amor chegar; a esperança passar
a noite; a autoestima permanecer em férias; a serenidade
relaxar; o desapego florir


Vazio é o espaço para o mistério passear e fazer
o seu trabalho


É o lugar que preparamos para o infinito vir cear
com o finito


É a antessala do divino; o altar da paz; o trono da plenitude;
o jardim da humildade; o fluxo do Eu-Sou


Vazio é o território do amor de Deus; da sabedoria de Deus;
da saúde de Deus; da harmonia de Deus; da alegria
de Deus em nós


Descerremos as cortinas Façamos silêncio
Limpemos a casa
Aceitemos a coragem e o temor
Chegue o vento
e instale o seu show








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 560



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

APOCALIPSE (2)




1
Nos tempos em que eu transformava pães em pedras
o sol mergulhava na matéria
e produzia ferimentos em meu coração
Vãos eram os pensamentos palavras e obras
e minha alma inconsolado deserto: covil de cactos
constelação e escorpiões


Época de as serpentes trocarem as peles
e a vaidade eclipsar as cores o camaleão
O amor se transformou em cólera
e a paz em campos de concentração
A humildade vestiu o manto do orgulho
a aparência triunfou sobre a essência
a fé foi derrotada pela tentação




2
Quando aprendi a transformar pedras em pães
o sol ergueu-se da imersão na matéria
e proclamou a temporada da transfiguração
Nova fonte e luz jorrou em meu espírito
e veio ter comigo o anjo da alegria
Rosas brotaram das chagas do coração


Desde então tenho colhido safra de milagres
e os gafanhotos foram expulsos das plantações
A serpente foi vencida pela pomba
o egoísmo tornou-se confraternização
o prazer buscou o sentido da vida
a morte transformou-se em vida eterna
a glória a vida vencera a tentação




3
Bem sei
que pães alimentam
e pedras apedrejam


Mas sei também
que pedras podem alimentar
e pães apedrejar
(Ó granito da vida
quando te dissolverás?)


Humilde ao raiar do dia
quedo-me contrito ao divino alquimista
que transmuta a pedra dos meus sofrimentos
no pão de sua perfeição


Eu só vivo
porque Ele morre
Eu sou o forno
Ele é a quinta-essência
Ele é a luz eterna
Eu sou o trigo
Eu sou a gota e sangue
Ele é o coração









Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol.1, p. 386





quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O POEMA DA VANGLÓRIA ou DA GLÓRIA VÃ

Teillhard de Chardin

                                                                                                                             a Teillhard de Chardin


Sou impuro Senhor
Nem omo total
lavará a minha alma


A sujeira perene
é minha virtude teologal
É de breu minha paz


Por mais que me esforce
não vislumbro pureza
nas flores do campo


Por mais que tente
só consigo concentrar-me
no umbigo das coisas vãs


Não é difícil de amar
Mas o outro meu Deus o outro
aí é difícil suportar


Bem que o outro podia ser céu
ponte aérea do bem asa de anjo
néctar do azul sorriso da estrela


Mas quando penetro em seu território
o humor sangra seus alicates
o inferno arma o lança-chamas


Minha coroa de espinhos
é amar o próximo
ainda que distante


Crucifica o próximo Senhor
Crucifica-me junto com o outro
pra ver se o suporto no paraíso








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol.1, p. 421



sexta-feira, 20 de junho de 2014

BALADA NEGRA




1
Anjo decaído meu
esplendoroso príncipe de alcatraz
melhor seria não te conhecer pessoalmente
e relegar-te à escuridão do jardim interno
Mas se me escondo e fecho a porta
fazes um louco pandemônio
retornas com o teu séquito de angústias
ateias fogo no tapete
afugentas os pássaros da garganta
e torno-me um polichinelo em tuas mãos


E te vejo em todos os lugares
no semáforo das esquinas
nos anúncios das vitrines
nos letreiros das boutiques
na tábua de frios dos restaurantes
Até nas tábuas da lei
te introduzes zombeteiro
nas páginas do missal romano


Anjo decaído meu
inevitável te conhecer: 
portanto (o que fazer?)
muito prazer


Dentro de mim borbulhas no sangue
celebrando a minha parte corrompida
e subtrais os rios do Éden
teus combustíveis de alumínio líquido



2
Quando eu captava o mundo
pela impressão colorida dos 5 sentidos
estavas comigo
Quando celebrava os signos da matéria
estavas comigo
Quando o intelecto se rebelava na consciência
estavas comigo
formando rica matéria-prima
para os confessionários das igrejas
e os consultórios dos psicanalistas


Cativas-me com teu cativeiro
tua energia de alta tensão
exaltas-me os sentidos
para a posse e a paixão



3
Na divina comédia da vida
és o ator mais procurado
mesmo quando escondes o rabo
e mostras sob as gambiarras acesas
a tua face de raro esplendor


Mestre de negro humor
saltimbanco de ópera bufa
Príncipe dos deserdados
tua maior glória é esta:
ensinar que na fraqueza do divino
está a ascensão do humano


Vê: todo o território
até onde o olhar alcança é teu:
a paisagem que não é de Deus
Não foi a ti que nos confiou
a piedade divina
Como então zelas e proteges
guardas e iluminas?



4
No reflexo do espelho
vejo que os desejos de apropriar possuir seduzir
são as chaves do teu reino
e nele gravito incandescente
(paraquedas chegando ao chão)
por mais que esfregue a pele da alma
e lave a consciência com sabão


Ah teu paraíso é feito
das delícias do humano
dos escombros do divino
do gozo do profano
de excremento dos anjos
das impurezas do branco


e nele ficarás até o final dos tempos
rondando os templos
como o cão de guarda
defende a casa


essa é a receita da serra:
a contrapartida da terra!



5
Anjo decaído meu
porta do inferno
sol da eletricidade
estrela do egoísmo
arco-íris fendido
arco da lamentação
luz dos orgulhosos
seta do desânimo


agora que te conheço
renuncio às tuas obras
agora que me conheço
renuncio às minhas cobras
indigesto foi comer o pudim de sobras
doloroso dizer: mas valeu



6
Do inferno e sua alfaiataria
não me visto mais
Agora visto a roupa do eterno
e a sua profunda paz








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 373


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A CASA

a minha filha Carol



Penetra todos os aposentos
ocupa os espaços cinzentos
toma posse dos sentimentos
Depois leva pra dentro o mar


Cultiva o vazio interior
saúda o mistério da flor
mistura alegria ao suor
e a paz irá habitar


Pinta de arco-íris os cômodos
convoca o sol e os sicômoros
decora o espaço de sonhos
e o amor se ofertará


Não temas subir as escadas
Abre as janelas da casa
Eis o enigma das asas
Estás pronta Podes voar




Luis Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 526



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

OM





quem vela
a vela?
quem chama
a chama?
quem vale
e vela
xamã
do prana?
samurai 
da paz
o Dalai
Lama




Luís  Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p.202




terça-feira, 17 de dezembro de 2013

MAMÃE E A ESTRELA D'ALVA




um pedaço de céu
caiu em minha mão
ergueu catedrais
amores sinais
um sonho de paz
e escorregou no chão






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 507