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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O VAZIO





O vazio está no presente Jamais no passado Nunca no futuro
É um presente do presente


Vazias possibilidades: o amor chegar; a esperança passar
a noite; a autoestima permanecer em férias; a serenidade
relaxar; o desapego florir


Vazio é o espaço para o mistério passear e fazer
o seu trabalho


É o lugar que preparamos para o infinito vir cear
com o finito


É a antessala do divino; o altar da paz; o trono da plenitude;
o jardim da humildade; o fluxo do Eu-Sou


Vazio é o território do amor de Deus; da sabedoria de Deus;
da saúde de Deus; da harmonia de Deus; da alegria
de Deus em nós


Descerremos as cortinas Façamos silêncio
Limpemos a casa
Aceitemos a coragem e o temor
Chegue o vento
e instale o seu show








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 560



quinta-feira, 31 de julho de 2014

V (O FILHO PRÓDIGO: Um poema de Luz e Sombra)



Pai
pelo sopro
pelo horto
obrigado


pelos planetas em rotação
pelos ratos do porão
obrigado


pelo amor envergonhado
pelo pão compartilhado
obrigado


pelo vazio ontológico
pelo osso filosófico
obrigado


pelas horas de alegria
misturadas à agonia
obrigado


por voar de asas cortadas
por ter incendiado a casa
obrigado


pelos ciclos de morte
e exposição aos ventos
gerando-me renascimentos
obrigado


pelo jardim e pela torre
pelos pântanos e flores
obrigado


pela beleza sonhada
pela biografia rasurada
obrigado


pelo preço da encarnação
pelo peso da evolução
obrigado


pelo que foi impronunciado
abafado e não gerado
obrigado


pela totalidade
moeda do erro e verdade
muito obrigado







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2. p. 401 



quarta-feira, 30 de julho de 2014

A GRAVIDADE




cair cair
sem paraquedas
(mistério de sete quedas)
                       despencar
da árvore cósmica
(como um relâmpago)
estrela sapoti romã
objeto não identificado
violando o espaço aéreo
de guarás e urubus
(urinando azul
pelas galáxias)
anjo rebelado
q esgotou o prazo
                de validade
e mergulha (com
a bengala de carlitos)
vertiginosamente
sobre os vitrais
              das catedrais
(travis descendo
aos infernos
de nastassia kinsky:
paris/texas)
o abismo no corpo
o vento no rosto
o inverno nos ossos
ao fundo do poço
do grande vazio
onde rompem-se os véus


o fundo do nada
nos braços de Deus







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 307



quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O LIVRO (O Sopro)







No início era o verso
dormindo na escuridão
E um grande amplexo
regia a imensidão
Não havia sofrimento
nem não sofrimento
apenas o mistério
em seu fluxo eterno
As letras do alfabeto
suspensas e incriadas
eram penduradas âncoras
fecundando o universo
A multiplicidade
subordinava-se
à unidade da criação
Estrelas pétalas e peixes
pássaros animais homens
pastavam em cooperação
Mas a obsessão do ser
e a possessão de viver
germinaram o cio
incendiando o vazio
Então o verso
apaixonou-se pelo reflexo
e irrompeu o adverso
desnorteando a estação
-  Faça-se a luz!
clamou a Unidade
- "Faça-se a ilusão!"
bradou a Multiplicidade
Instituiu-se a cobiça
o Bem e o Belo
a Verdade e a Justiça
desconectaram-se do quatérnio
O narciso e a flor de lótus
romperam os votos
E o grande caos
turvou a fonte original
Então a Multiplicidade
dissociou-se da Unidade
Mas preservou-a a Verdade
no arco-íris das Idades






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 513
Gravura em hebraico 'no princípio' (Genesis)




quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

SILÊNCIOS







as ideias e as formas
pedem-me o descanso
das estações dos ventos
atravessa-me a melancolia
o sacrifício de nomear
a indizível água do mundo
o essencial tornou inútil
a carnadura das palavras
qualquer imperceptível ruído
ferirá o pássaro no ninho
entre memória e abismo
deus constrói o seu vazio
não escreverei mais poemas
sobre a beleza e a verdade
poetarei c/ o silêncio
essa máquina hiperbólica
capaz de captar e ferir a voz
mesmo sem despertá-la




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 241