Mostrando postagens com marcador mistério. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mistério. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O SEGREDO DE DEUS




Há anos guardo comigo
um segredo
Salvo-conduto do humano
passaporte para o eterno
só eu sei dele
e Deus


Desde a madrugada de outrora
quando o fogo misturou-se à água
e os sete planetas foram criados
trago-o guardado a sete chaves


Dele não falo às árvores
ou dou notícias aos peixes do rio
Medo de trair o estranho pacto
que o universo revelou-me
num terrível jogo de dados
sobre o paradoxo da criação


Às vezes
o segredo pesa
como bomba de nitroglicerina
Às vezes
é leve
como a carícia do vento
(minha estratégia
é carregá-lo como pluma
embora tenha peso de pena:
as duras penas de existir!)


Crepuscularmente
quando as trevas e a luz se compreendem
no abraço oposto da lua e do sol
acende-me um riso cúmplice
de intimidade com os mistérios da vida
Sutil Deus fala por símbolos
e retribui com um piscar de estrelas
selando a nossa aliança de silêncio
sobre a grande ironia da criação


Ele é o autor do meu mistério
Eu sei parte do seu segredo
Cúmplices seremos
por toda a eternidade







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 362

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O VAZIO DO ESPELHO





à beira de estranho lago
reflito calado mistério
mamando o seio imaginado

o que sou? vento:
morte e renascimento
no pensamento

toda a meditação
a ausente canção
pra ouvir-se o coração

sou rei do que não sei
e da carne que me ergue
jamais saberei

a tinta do meu nome
dissolve-se nas crenças
de impoluta névoa

ó lavadeira do ser:
mergulho nas causas
que precedem as coisas

existencialismo divino
o amplo vazio
do tempo fluindo

ser o espaço em branco
respirando abscôndito
s/ intenção de súplica

e (sendo) ainda assim
piscina deserta
que a gota gesta






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 216


sexta-feira, 28 de março de 2014

A NOITE LONGA DO POETA


                                                                                                          a Ivan Junqueira


que incêndio ou prece
lavra em pleno quarto
girassóis na face
do meu sobressalto?


que estranho van gogh
pintou esse fogo
embuste do logos
mistério do logro?


queima-me os lençóis
queima-me o peito
acende os meus sóis
de napalm no leito


quem riscou o fósforo 
do insano milagre
- escrita no bósforo -
consciência em zinabre?


quem ateou o fogo
e alteou a centelha
assando-me no lago
da mais ígnea ceia?


é o aflito deus
que preside em mim
as glórias do céu
do inferno o estopim


é o anjo e demônio
- mistério e mister -
milagre do ozônio
fero lúcifer!


é o santo verbo
com seus mil neurônios
cozinhando os nervos
fritando-me os sonhos


lança apocalíptico
diesel ao madeiro
desfila alegórico
o corpo dos bombeiros


explode os ritos
da água pesada
imprime no espírito
sua fúria sagrada


assa-me em brasas
a carne e o poema
renasce-me as asas
no fogo dos temas


soca o arrozal
teu pilão de sol
purifica o mal
lepras do arrebol


cicatriza o fel
nas chamas do laser
derrama o mel
na taça do ser


sopra tua luxúria
cavalos de força
acende a fúria
dos puros na forca


quem inventou o poema
bicho ou deus da noite
elegeu a pena
sol maior que a foice


enquanto arde a messe
sua espiga fáustica
o corpo amanhece
em vigília cáustica


deixando entrever
no inflamado bonzo
a glória do ser
em línguas de gozo


acendam ó meus sóis
pela vida inteira
chamas dos faróis
temas das fogueiras!




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 461






terça-feira, 25 de março de 2014

A PELEJA DA SERPENTE E DA POMBA NO ESTÁDIO CÓSMICO LUZ E SOMBRA

OU A
DISCUSSÃO DA GRAÇA E DA ELETRICIDADE
NO QUINTAL BIFOCAL DA CLARIDADE





INTRODUÇÃO DA SERPENTE
AO LEITOR

Não sei por que às portas de Binah
fisgou-em a atração de Chochmah
trazendo no reflexo da quimera
o que do espelho brilha  a bela e a fera
Da pia batismal leia-me Nahash
e a outra a virgem a santa a  Shechinah
Eis afinal a verdadeira fábula
em que o mal e o bem lavam as velhas mágoas


A SERPENTE:

__ Dize lavanderia da esperteza:
por que o branco sendo a cor do puro
lavas a roupa diária intramuros
como se exorcizasses a tua pureza?
Tens a pálida neurose do sol
que a tudo encobre o claro lençol
A que vens: seduzir ou converter?
O fogo imortal queime-te o ser!


A POMBA:

__Desenrola o teu negro intelecto
permite desembarque o meu espírito
Enquanto te arrasta pelas urzes
solto velas brancas no céu em cruzes
Sou omo total  És petróleo bruto
Governa sobre nós o Absoluto
Tens a profundidade Eu a altura
Dissolve no veneno a amargura


A SERPENTE:

__Eu sou da luz a eletricidade:
o vapor a descarga a claridade!
Sustento há éons o fogo nas alturas
aquecendo o intelecto na noite escura
Todo progresso da ciência e a cura
oram por mim nos templos da usura
Vê: nem o dia escapa ao meu fascínio
às igrejas e shoppings ilumino!


A POMBA:

__Quem hasteou o sol na criação
e acendeu no homem o coração?
Quem deu à vida a contribuição
de tornar sábias a fé e a razão?
Sutil apreendeste a branca magia
tornando-a espessa por analogia
Do sol a sua total irradiação
converteste-o à nuclear fissão


A SERPENTE:

__ Reconheces a contraparte ativa
coagulada à natureza viva?
Decompus as estrelas em mil átomos
e fiz da explosão fiéis apóstolos
Na sombra da graça te movimentas
lançando-me dos créditos a descrença
Teu canto de cisne fere-me as luzes:
também o bem ao mal dispara obuses



A POMBA:

__ Quem paga a conta da humanidade:
a luz da graça ou a eletricidade?
A minha luz é pura e virtuosa
tornando as cinco chagas puras rosas
A recompensa ao bem que nada cobro
é o mal que a tua luz recebe em dobro
Mas o sol lançando às sutis esferas
irradia o prazer e o sol da guerra


A SERPENTE:

__ Por que metes o bico em meu zodíaco
se nem te sabem as penas os outros bichos?
Tua magia é pouca A voltagem fraca
Recarrega as baterias ora gastas
Ninguém chega ao céu senão por mim
faísca na verdade o estopim
Nas noites do Sinai ou Everest
resplandeço igual ao Empire State


A POMBA:

__ Brincas com o fogo e mal conheces a pólvora
gera a luz o mistério da palavra
A eletricidade é irmã do sexo
a força esgota em mortal amplexo
Oceânica a graça se espraia
multiplicando as marés da energia
O que proponho a ti é um novo pacto:
a abertura do círculo em um ato


A SERPENTE:

__ Se Deus for o Diabo e o Diabo for Deus?
E se o azul do céu for apenas breu?
Pode o cordeiro pastar com o leão
e voarem juntos perdiz e gavião?
No intrincado jogo das essências
pra que mudar a pele das aparências?
A tua presunção noiva é platônica:
envia flores para a bomba atômica!


A POMBA:

__ Rainha dos disfarces da alquimia
separa a técnica da sabedoria
Inverte o fluxo da polaridade
cooperando à nova gravidade
Permita que batize em fogo e água
os colaterais efeitos das tuas larvas
Compensa à graça a iluminação
furtada à energia da criação!


A SERPENTE:

__ Crismou-me tola e frágil a natureza:
rebelar-me não ouso à correnteza
Abandonar controle e constrição
frustrar seria a divina missão
Reabro o círculo e deponho a guarda
desde que bata as asas em retirada
Prudência cale a língua em água quente:
misericordiosas são as serpentes!


A POMBA:

__ Celebre a claridade o amor profundo
e o amor reate o espírito ao mundo!
Das obras do sol reaprende a lição
libertar das trevas o coração
Crucifica a vontade de poder
e ressuscita a vontade de ser
Se no jardim à flor protege-lhe o espinho
o mal é sempre um bem vindo a caminho



CONCLUSÃO DA POMBA

__ Debaixo do teu suntuoso couro
plantou-te o criador belo tesouro
Quanto a mim pássaro de fino agouro
o que reluz em mim é a flor do ouro
Quer vistamos tentáculos ou asas
somos figuras da magia sagrada
Na vida real ou em contos de fadas
dirige a obra a bem aventurada




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 534



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

CORPUS HERMETICUM



sou como tu israel
um país recheado de tragédias
e infinitas belezas naturais

um rio de água-viva
jorra nos jardins do tempo
enquanto o sangue dos puros
escorre no muro das lamentações

sou o eleito e o injustiçado
a estrela e a videira
o pastor e a estrela extraviada
a coroa de davi a faca de abraão

embriagado de profecias e maldições
saio ziguezagueando pelas ruas
ouvindo a litania das metralhadores
meu corpo apodrecido estala raízes
range nas tábuas do antigo testamento
as pesadas rodas do canhão

minha espada? a pena
da plumagem de um pombo branco
sujo na fumaça do crepúsculo

o grande mistério da vida
fala pela boa dos profetas:
_ 'jamais te conhecerás integralmente!_
sempre haverá segredos
entre a árvore e a semente!" 
clamam os anciões aos ventos:
_ 'consideras-te sábio?"
aos ignorantes lavam-se os trajes
ao sábio nada é perdoado"

sibila no ar a serpente:
_ 'não conhecerás o amor pleno:
a ilusão será teu veneno!"

aquele que está nas alturas
quando salvará nossa amargura
ó israel?

até quando servir-se-á a dignidade
como prato de vísceras 
no banquete da desolação?

ai israel
meu pecado e o teu
_ a falta de unidade espiritual _ 
desnuda-se a céu aberto:
somos apenas uma rês
multiplicada em três
pastando no deserto

oferto-te um cordeiro em holocausto
com flor de farinha e azeite batido
temperado na pólvora das retaliações

inútil acender-te o incenso
c/ bálsamo cravo libânio açafrão
não disfarçaremos o fedor da eternidade
dos corpos em decomposição

eu vi o sangue libanês
da minha bisavó estrela
resplandecer na taça do sepulcro:
"cerradas permanecem as lojas
'trajes p/ noivas'
enquanto não se consumarem
as núpcias do candelabro e da oliveira
sobre a pedra negra do altar"

flor do cedro
vasilha de luz
de amidá
vinde nos cuidar

adonai 72 vezes
contaram-te morto nas fileiras
exilado na fornalha de nossos corações
tornamo-nos surdos às tuas lamentações

vinde mulher vestida de sol
mãe dos fracos e combalidos
dormir com todos os mutilados:
restaurai-lhes as torres fulminadas

a árvore do bem e do mal
despencou carcomida pelas guerras
(crianças dançam cirandas
jogando-lhes rosa e mirra)

de nossas costelas
escorre um rio de água límpida

somos o livro mordido pelos ossos
navegando no úmero de nomes e números




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 529


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O LIVRO (O Sopro)







No início era o verso
dormindo na escuridão
E um grande amplexo
regia a imensidão
Não havia sofrimento
nem não sofrimento
apenas o mistério
em seu fluxo eterno
As letras do alfabeto
suspensas e incriadas
eram penduradas âncoras
fecundando o universo
A multiplicidade
subordinava-se
à unidade da criação
Estrelas pétalas e peixes
pássaros animais homens
pastavam em cooperação
Mas a obsessão do ser
e a possessão de viver
germinaram o cio
incendiando o vazio
Então o verso
apaixonou-se pelo reflexo
e irrompeu o adverso
desnorteando a estação
-  Faça-se a luz!
clamou a Unidade
- "Faça-se a ilusão!"
bradou a Multiplicidade
Instituiu-se a cobiça
o Bem e o Belo
a Verdade e a Justiça
desconectaram-se do quatérnio
O narciso e a flor de lótus
romperam os votos
E o grande caos
turvou a fonte original
Então a Multiplicidade
dissociou-se da Unidade
Mas preservou-a a Verdade
no arco-íris das Idades






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 513
Gravura em hebraico 'no princípio' (Genesis)




quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

OS SAPATEIROS




                                                                                                 a Americo Sommerman



que mistério da fé
envolve os sapateiros?
por que velar os pés
acende no alto luzeiros?

mesmos os peixes astrológicos
aguadeiros dos artelhos
copiam-lhes o ofício místico
assistindo-os de joelhos

só o calcanhar da virgem
resiste aos calceteiros
esmagando a imagem
do mal sob os tornozelos

meia-sola bate-sola
laboram a noite inteira
talham o couro passam cola
vestem os pés da terra inteira

quero ir à festa do céu
com sapatos de boheme
luzidios como hidromel
e palmilhas de cor creme

serão os bons companheiros
da minha trilha descalça
quando tornar-me o herdeiro
de caminhar sob a graça





Luís Augusto Cassas
In O Evangelho dos Peixes para a Ceia de Aquário, p. 69
Pintura de Bosco, 'Sapateiro'


terça-feira, 22 de outubro de 2013

A QUINTA CHAGA




Aos amigos Leonel Araújo Lima, Zeca Belo e Alberico Carneiro, companheiros da flor-de-lis metálica no coração



Eis o caminho das espadas
que o Mar Vermelho abençoou
na constelação das coronárias
Taça de vinho tinto derramado
 na toalha branca do sacrário
sou a ceia devorando ervas amargas


Víscera sagrada estressado músculo
ovelha imolada templo do crepúsculo
sol de Hiroshima bíblia de Abel
palco da chacina açougue do céu
bala de canhão dos doze apóstolos
 UTI da paixão de todos os sós


Morrer pela cruz ou pela espada?
Arrancaria do peito a bomba-relógio
e contra a turba arremessaria a granada?
Metralhado ostentaria estrelado
os buracos do céu em adoração
guerrilheiro da magia sagrada?


Ave quinta chaga de Cristo:
o serafim científico executou o rito
de angioplástico gozo: projétil metálico
Ante-sala da iniciação — stent no coração —
fuso a fuso parafuso a parafuso
penetraremos no paraíso?


Buraco de agulha — eis a porta estreita
da artéria — chave da compaixão
Por esse buraco passaram e passarão
Franciscos e Pios o vício e o perdão
Nos canais interditados das veias
navegam uníssonos o mau e o bom ladrão

Vede os estigmatizados da razão
 e o mistério decepado de asas
Ninguém transformará em devoção
 os estigmas dos endurecidos corações
clamando onipresentes à rigidez do músculo:
— “afastai a pedra do sepulcro!”


Venerado com catéteres e adrenalina
 o corpo cambaleia nas estações
Ora a nicotina: “ópio do povo /
 vício do todo / cinzas de maria”
A serpente com as presas de metal
 envenena-me com a seta do aguilhão


Na caverna do peito — fenda
da rocha — o poço da paixão
3 da tarde: as angustiadas badaladas
da máquina gritando manutenção
Arame farpado: a chaga da terra
a natureza submetida à corrupção


Ferido por minhas próprias transgressões
 dilacerado pelos meus pecados
minhas feridas jamais me curarão:
pingue nelas o sangue do crucificado
Quem reerguerá esse templo de paixão
consumido em desejos e desolação?


Consagrei o corpo em flor
às obras em suor do amor:
mão direita — realeza
mão esquerda — beleza
pé direito — profundidade
pé esquerdo — busca da verdade


Mas o coração milagre da criação
sofre o abalo da gravitação
a queda da eterna árvore
Entre o elástico e o esclerótico
lançou-me o peito a um voo egoico
— estreito céu — fatídica ave

Extenuado em vasoconstrição
 quem reconciliará meu coração
com a senda do amor e compaixão?
o crucificado sursum corda
alargará os afluentes envenenados
jorrando sangue e água da misericórdia


Ser conduzido pela claridade
aprender com a fonte a sobriedade
como o lírio curvar-se à castidade
eis minha precária humanidade:
a água condutora de eletricidade
fogo espalhou à chama da vaidade


Celebrei-te ó fragmento
 sob as colunas do templo
Prisioneiro do tempo e vento
 ergui-te fáustico monumento
Hoje ardendo em fragmentação
 aspiro ao sol da união


Desta sexta-feira sou o crucificado
clamando ao meu anjo os seus cuidados
Coração novo Caminho novo
Cântico novo Mundo novo
Complete o céu a grande obra
de quem na vida suportou ígneas provas


Do amor a via sacra negativa
seja transmutada a chaga em água viva
Pai glorifica os meus fracassos:
no peito habite o sagrado pássaro
Ó mangueiras do Sítio do Físico:
sobre vós derramo o meu espírito


OFERTÓRIO

Quando fores a São Luís aquece o teu coração:
enverga a jaqueta gris e leva a flor entre as mãos
Indaga à rua do Giz e aos sabiás de plantão
pela alegre codorniz que morreu de solidão
Chama um menino feliz do Coroado ou Pespontão
pra abençoar a cicatriz e dar asas à rejeição
Quando fores a São Luís ajoelha-te em oração:
encontrarás na Matriz meu corpo de ressurreição!




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 550