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segunda-feira, 2 de março de 2015

O POETA ANIVERSARIA



FELIZ ANIVERSÁRIO, POETA!

Hoje é aniversário do nosso grande poeta Luís Augusto Cassas. 
Um poeta transcendente, cujos versos servem a uma causa maior. A poesia de sua natureza pisciana nos faz nadar em mares alquímicos, mergulhar em abismos profundos e navegar no oceano sagrado da fé. 
Nasceu para ser poeta, sua missão nesta vida. Profetiza a  beleza e a profundidade pelas palavras, que se amalgamam em universo próprio,  um verdadeiro cosmos poético. 
Deixo aqui, então, essa pequena homenagem, em nome de seus leitores, com votos de um Feliz Aniversário. Muita saúde, paz, alegria e, sobretudo, inspiração, para continuar derramando sobre o papel sabedoria e beleza, sua marca registrada de transcendência. 




Cosmos Poético

                                                                                      para Luís Augusto Cassas
  

Herança sideral
do Universo,
tua poesia 
é sinfonia de palavras
regendo a música
sagrada das esferas,
metáfora dos astros
que orbitam teus olhos.
Obediente à analogia
dos movimentos,
tua poesia 
guia a rotação 
dos corpos semânticos,
habitados nas estrofes
de significado infinito.
O ritmo cíclico
da transcendência,
tua poesia 
possui,
nela eclodem rimas
que revelam a eufonia
das luzes,
numa dança poética
de estrelas.






Elizabeth F. de Oliveira








quarta-feira, 2 de julho de 2014

O SEGREDO DE DEUS




Há anos guardo comigo
um segredo
Salvo-conduto do humano
passaporte para o eterno
só eu sei dele
e Deus


Desde a madrugada de outrora
quando o fogo misturou-se à água
e os sete planetas foram criados
trago-o guardado a sete chaves


Dele não falo às árvores
ou dou notícias aos peixes do rio
Medo de trair o estranho pacto
que o universo revelou-me
num terrível jogo de dados
sobre o paradoxo da criação


Às vezes
o segredo pesa
como bomba de nitroglicerina
Às vezes
é leve
como a carícia do vento
(minha estratégia
é carregá-lo como pluma
embora tenha peso de pena:
as duras penas de existir!)


Crepuscularmente
quando as trevas e a luz se compreendem
no abraço oposto da lua e do sol
acende-me um riso cúmplice
de intimidade com os mistérios da vida
Sutil Deus fala por símbolos
e retribui com um piscar de estrelas
selando a nossa aliança de silêncio
sobre a grande ironia da criação


Ele é o autor do meu mistério
Eu sei parte do seu segredo
Cúmplices seremos
por toda a eternidade







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 362

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O LIVRO (O Sopro)







No início era o verso
dormindo na escuridão
E um grande amplexo
regia a imensidão
Não havia sofrimento
nem não sofrimento
apenas o mistério
em seu fluxo eterno
As letras do alfabeto
suspensas e incriadas
eram penduradas âncoras
fecundando o universo
A multiplicidade
subordinava-se
à unidade da criação
Estrelas pétalas e peixes
pássaros animais homens
pastavam em cooperação
Mas a obsessão do ser
e a possessão de viver
germinaram o cio
incendiando o vazio
Então o verso
apaixonou-se pelo reflexo
e irrompeu o adverso
desnorteando a estação
-  Faça-se a luz!
clamou a Unidade
- "Faça-se a ilusão!"
bradou a Multiplicidade
Instituiu-se a cobiça
o Bem e o Belo
a Verdade e a Justiça
desconectaram-se do quatérnio
O narciso e a flor de lótus
romperam os votos
E o grande caos
turvou a fonte original
Então a Multiplicidade
dissociou-se da Unidade
Mas preservou-a a Verdade
no arco-íris das Idades






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 513
Gravura em hebraico 'no princípio' (Genesis)




segunda-feira, 25 de novembro de 2013

POEMA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS







1
O amor de Deus nos torna ridículos.
Enriquece-nos com tesouros do céu
mas desliga-nos das coisas da terra.
A barba cresce o orgulho desaparece,
os amigos entristecem as mulheres fenecem.
Pródigos do céu e perdulários do mundo
somos atraídos pelo ouro do alto que ninguém vê
Tudo doamos: até o amor
que não sabíamos armazenado.
Em vez de prazer, ofertamos compaixão.
Em lugar do ódio, oferecemos comunhão.
Somos frágeis palmeiras inclinadas
ao sopro da sua sabedoria.
Mas a arquitetura e engenharia do Senhor,
as obras, as obras, as obras,  quem as compreende?



2
Não e não. Não queríamos Deus
em nossos corações.  Antes uma vida tranquila,
um pôr do sol no campo, um amor à beira-mar,
do que cultivar esses imensos campos verdes
com tantas ovelhas desgarradas a pastar!
Mas o Senhor nos destruiu com seu raio divino:
invadiu-nos a alma, afugentou-nos o temor,
deu-nos por casa o universo,
vestiu-se belos como os lírios dos campos,
alimentou-nos com os pássaros do céu
e nos fez andar descalços
sobre as pedras e espinhos do passado.
Meus pés ardem em chagas,
Meu espírito está em brasa,
mas meu coração transborda em seu cálice!
Maldito quem nos tornou ridículos
 em nome do Amor!
Bendito seja por toda a eternidade
o nome do Senhor!





Luís Augusto Cassas
In Liturgia da Paixão, p. 184



terça-feira, 22 de outubro de 2013

O SENTIDO




qual o sentido
de se estar vivo:
viver os cinco sentidos?
acender a luz do espírito?
reedificar o paraíso?
tornar-se do todo amigo?
ser lírio ou narciso?


por que quando o sentido
 a face vem mostrar
esconde-se o não sentido
para o sem sentido brilhar?


o sentido
é paisagem que aí está?
o não sentido
é passagem que se abrirá?
o sem sentido
é viagem sem lugar?


ad finitum
é o universo:
mysterium
tremendum
mas do precipício
seremos salvos
quando a essência
reencontrar o princípio


por enquanto da vida
 só captamos os ruídos
mas o verdadeiro sentido
será definitivo


quando o que clama
desde jerusalém
irromper-nos à alma
com o seu amém!




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 572