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sexta-feira, 7 de março de 2014

ARCANO 19 (O Sol)





Não serei um Fausto moderno
nem venderei a minha alma ao fogo eterno:
farei um pacto de amor com a verdade
e o emblema da fé e da razão
será o escudo do meu tempo

Não perderei a vida e a juventude
correndo como miragem atrás da felicidade
Mas se encontrar a verdade
detrás dos seus sete véus vislumbrarei a felicidade

Não correrei atrás de nenhuma revolução
nem seguirei o credo de falsos profetas e poetas
A vida me ensinou que toda sabedoria é tradicional
e flui incessante e natural para o rio da existência
Por que então alterar o curso do rio?

Não seguirei ideologias de esquerda e direita
que distanciam o homem do seu verdadeiro caminho
Estar no centro — da consciência e do coração —
é a única maneira de ser junto com o universo
e pulsar no ritmo cósmico da luz
e da sabedoria da vida

Não mais serei analisado psicoanalisado
dividido fotografado laboratoriado autopsiado
sobretudo não serei mais legião
Na busca da Unidade
a parte é igual ao todo
e nada deve ser excluído
da obra da salvação
(Por que não jogar pérolas aos porcos
e doar esmeraldas aos loucos?)

Não criarei cabelos brancos
acumulando bens que deixarei na estação
Mas harmonizarei os quatros elementos
para que possa transmutar todo chumbo em ouro
retornar à nobreza original da condição humana
e legar fortuna aos descendentes

Não desejarei ardentemente o céu
nem temerei prudentemente o inferno
O cenário da vida é obra teatral cósmica
em que somos personagens aprendendo seus papéis
na reapresentação diária da arte de ser
Todo sofrimento é belo pois nos conduz ao reino
Todo sofrimento é antecâmara do amor universal
Estar no meio é compreender o verdadeiro vazio

Sobretudo nos instantes de dúvida e incerteza
quando a lua chegar à noite escura da alma
não imprecarei nem clamarei o seu nome em vão
Quedar-me-ei com a pureza fria dos resignados
e pedirei humildemente que me intua
a verdadeira ciência
de estar nesse mundo sem ser necessariamente dele



LUIS AUGUSTO CASSAS




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

CORPUS HERMETICUM



sou como tu israel
um país recheado de tragédias
e infinitas belezas naturais

um rio de água-viva
jorra nos jardins do tempo
enquanto o sangue dos puros
escorre no muro das lamentações

sou o eleito e o injustiçado
a estrela e a videira
o pastor e a estrela extraviada
a coroa de davi a faca de abraão

embriagado de profecias e maldições
saio ziguezagueando pelas ruas
ouvindo a litania das metralhadores
meu corpo apodrecido estala raízes
range nas tábuas do antigo testamento
as pesadas rodas do canhão

minha espada? a pena
da plumagem de um pombo branco
sujo na fumaça do crepúsculo

o grande mistério da vida
fala pela boa dos profetas:
_ 'jamais te conhecerás integralmente!_
sempre haverá segredos
entre a árvore e a semente!" 
clamam os anciões aos ventos:
_ 'consideras-te sábio?"
aos ignorantes lavam-se os trajes
ao sábio nada é perdoado"

sibila no ar a serpente:
_ 'não conhecerás o amor pleno:
a ilusão será teu veneno!"

aquele que está nas alturas
quando salvará nossa amargura
ó israel?

até quando servir-se-á a dignidade
como prato de vísceras 
no banquete da desolação?

ai israel
meu pecado e o teu
_ a falta de unidade espiritual _ 
desnuda-se a céu aberto:
somos apenas uma rês
multiplicada em três
pastando no deserto

oferto-te um cordeiro em holocausto
com flor de farinha e azeite batido
temperado na pólvora das retaliações

inútil acender-te o incenso
c/ bálsamo cravo libânio açafrão
não disfarçaremos o fedor da eternidade
dos corpos em decomposição

eu vi o sangue libanês
da minha bisavó estrela
resplandecer na taça do sepulcro:
"cerradas permanecem as lojas
'trajes p/ noivas'
enquanto não se consumarem
as núpcias do candelabro e da oliveira
sobre a pedra negra do altar"

flor do cedro
vasilha de luz
de amidá
vinde nos cuidar

adonai 72 vezes
contaram-te morto nas fileiras
exilado na fornalha de nossos corações
tornamo-nos surdos às tuas lamentações

vinde mulher vestida de sol
mãe dos fracos e combalidos
dormir com todos os mutilados:
restaurai-lhes as torres fulminadas

a árvore do bem e do mal
despencou carcomida pelas guerras
(crianças dançam cirandas
jogando-lhes rosa e mirra)

de nossas costelas
escorre um rio de água límpida

somos o livro mordido pelos ossos
navegando no úmero de nomes e números




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 529


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O LIVRO (O Sopro)







No início era o verso
dormindo na escuridão
E um grande amplexo
regia a imensidão
Não havia sofrimento
nem não sofrimento
apenas o mistério
em seu fluxo eterno
As letras do alfabeto
suspensas e incriadas
eram penduradas âncoras
fecundando o universo
A multiplicidade
subordinava-se
à unidade da criação
Estrelas pétalas e peixes
pássaros animais homens
pastavam em cooperação
Mas a obsessão do ser
e a possessão de viver
germinaram o cio
incendiando o vazio
Então o verso
apaixonou-se pelo reflexo
e irrompeu o adverso
desnorteando a estação
-  Faça-se a luz!
clamou a Unidade
- "Faça-se a ilusão!"
bradou a Multiplicidade
Instituiu-se a cobiça
o Bem e o Belo
a Verdade e a Justiça
desconectaram-se do quatérnio
O narciso e a flor de lótus
romperam os votos
E o grande caos
turvou a fonte original
Então a Multiplicidade
dissociou-se da Unidade
Mas preservou-a a Verdade
no arco-íris das Idades






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 513
Gravura em hebraico 'no princípio' (Genesis)