Mostrando postagens com marcador verdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador verdade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Z (O Filho Pródigo: Um Poema de Luz e Sombra)

Cena do filme 'Zorba, o Grego'




Guie-nos a Constelação das Plêiades
envolta em nuvens de narcisos
até o santuário de Apolo
onde dorme o sepulcro de Dionísio


Na máscara mortuária dos deuses
contemplamos o resgate do exílio
Ó sonho eterno:
Tua face dourada
e a minha sombria
formam um só rosto
de ornado mistério


Somos dois
frente à divindade
Pequenos sóis
da mesma verdade


Somos o só
e o mesmo
Somos o próprio
em si mesmo


Que viemos fazer aqui
senão confraternizar
com a vida e o seu longo elixir
no prazer de reencontrar-nos?


Entre tantos semelhantes
façamos o mundo girar
e como Zorba dançar
enquanto escoam os instantes


Eia juntos caminhemos
além do além do além
sob o amor frutifiquemos
aos pés do Supremo Bem!





São Luis
jun/dez/2005





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 404






segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A FALA DO BECO

Beco da Bosta, São Luis-MA


nos signos de rotação
fui de áries a peixes
nuvem e gavião


livrei-me das neuroses
com a overdose
das metempsicoses


tomei sol com Menipo
soldado em Alexandria
vaso e arquétipo


depois fui crepúsculo
na bela anatomia
de sólido músculo


estranha coorte:
só eu sei o que vem
depois da morte


verdade nua:
fui antes rua
na Catalunha


realidade-triste
em bico de pássaro
cumpri-me alpiste


quando fui água
segui o roteiro
de todas as mágoas


quando fui fogo
descobri o ideal
do bem e do mal


quando fui ar
descortinei a alcova
onde o vento faz a curva


mudo no mundo
girando na roda-gigante
da alma do todo


reencarnando
ora encarnado
ora verde-musgo


eis-me agora no chão:
pra entender a matéria
e o seu coração




*
tua alma tantra
tem superlativo nó
dar-te-ei um mantra
as cinzas do pó


mas logo te advirto
nada posso aprendizar
a não ser as lições
do teu próprio avatar


ouve: o abc do viver
compreende dois capítulos
a ciência o mestre
a arte o discípulo


como podes entender
o corpo de ressurreição
se combates a matéria
e o corpo do teu irmão?


como ousas apreciar
o belo torso de Apolo
se aos olhos da realidade
és criança de colo?


às vezes não sendo se é
pra ser-se o conteúdo
mas o que se ser pretende
é ser não sendo contudo


mas há um mini-instante
na hora do ave-maria
que a ciência do ser
é a arte do não seria


teu o dizes: sou o beco!
meu caminho é estreito
pela estreita porta
não passa a moura torta


aquele que joga pedras
no telhado do vizinho
sequer perceberá
as pétalas do caminho


quem atira pedras
e esconde a mão
jamais conhecerá
minha salvação


mas quem reza minha cartilha
pega no pote
e segura na rodilha
esse é de família










Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 623
Foto: Gilmore Guy






quinta-feira, 31 de julho de 2014

V (O FILHO PRÓDIGO: Um poema de Luz e Sombra)



Pai
pelo sopro
pelo horto
obrigado


pelos planetas em rotação
pelos ratos do porão
obrigado


pelo amor envergonhado
pelo pão compartilhado
obrigado


pelo vazio ontológico
pelo osso filosófico
obrigado


pelas horas de alegria
misturadas à agonia
obrigado


por voar de asas cortadas
por ter incendiado a casa
obrigado


pelos ciclos de morte
e exposição aos ventos
gerando-me renascimentos
obrigado


pelo jardim e pela torre
pelos pântanos e flores
obrigado


pela beleza sonhada
pela biografia rasurada
obrigado


pelo preço da encarnação
pelo peso da evolução
obrigado


pelo que foi impronunciado
abafado e não gerado
obrigado


pela totalidade
moeda do erro e verdade
muito obrigado







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2. p. 401 



sexta-feira, 7 de março de 2014

ARCANO 19 (O Sol)





Não serei um Fausto moderno
nem venderei a minha alma ao fogo eterno:
farei um pacto de amor com a verdade
e o emblema da fé e da razão
será o escudo do meu tempo

Não perderei a vida e a juventude
correndo como miragem atrás da felicidade
Mas se encontrar a verdade
detrás dos seus sete véus vislumbrarei a felicidade

Não correrei atrás de nenhuma revolução
nem seguirei o credo de falsos profetas e poetas
A vida me ensinou que toda sabedoria é tradicional
e flui incessante e natural para o rio da existência
Por que então alterar o curso do rio?

Não seguirei ideologias de esquerda e direita
que distanciam o homem do seu verdadeiro caminho
Estar no centro — da consciência e do coração —
é a única maneira de ser junto com o universo
e pulsar no ritmo cósmico da luz
e da sabedoria da vida

Não mais serei analisado psicoanalisado
dividido fotografado laboratoriado autopsiado
sobretudo não serei mais legião
Na busca da Unidade
a parte é igual ao todo
e nada deve ser excluído
da obra da salvação
(Por que não jogar pérolas aos porcos
e doar esmeraldas aos loucos?)

Não criarei cabelos brancos
acumulando bens que deixarei na estação
Mas harmonizarei os quatros elementos
para que possa transmutar todo chumbo em ouro
retornar à nobreza original da condição humana
e legar fortuna aos descendentes

Não desejarei ardentemente o céu
nem temerei prudentemente o inferno
O cenário da vida é obra teatral cósmica
em que somos personagens aprendendo seus papéis
na reapresentação diária da arte de ser
Todo sofrimento é belo pois nos conduz ao reino
Todo sofrimento é antecâmara do amor universal
Estar no meio é compreender o verdadeiro vazio

Sobretudo nos instantes de dúvida e incerteza
quando a lua chegar à noite escura da alma
não imprecarei nem clamarei o seu nome em vão
Quedar-me-ei com a pureza fria dos resignados
e pedirei humildemente que me intua
a verdadeira ciência
de estar nesse mundo sem ser necessariamente dele



LUIS AUGUSTO CASSAS




quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O LIVRO (O Sopro)







No início era o verso
dormindo na escuridão
E um grande amplexo
regia a imensidão
Não havia sofrimento
nem não sofrimento
apenas o mistério
em seu fluxo eterno
As letras do alfabeto
suspensas e incriadas
eram penduradas âncoras
fecundando o universo
A multiplicidade
subordinava-se
à unidade da criação
Estrelas pétalas e peixes
pássaros animais homens
pastavam em cooperação
Mas a obsessão do ser
e a possessão de viver
germinaram o cio
incendiando o vazio
Então o verso
apaixonou-se pelo reflexo
e irrompeu o adverso
desnorteando a estação
-  Faça-se a luz!
clamou a Unidade
- "Faça-se a ilusão!"
bradou a Multiplicidade
Instituiu-se a cobiça
o Bem e o Belo
a Verdade e a Justiça
desconectaram-se do quatérnio
O narciso e a flor de lótus
romperam os votos
E o grande caos
turvou a fonte original
Então a Multiplicidade
dissociou-se da Unidade
Mas preservou-a a Verdade
no arco-íris das Idades






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 513
Gravura em hebraico 'no princípio' (Genesis)




quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

SILÊNCIOS







as ideias e as formas
pedem-me o descanso
das estações dos ventos
atravessa-me a melancolia
o sacrifício de nomear
a indizível água do mundo
o essencial tornou inútil
a carnadura das palavras
qualquer imperceptível ruído
ferirá o pássaro no ninho
entre memória e abismo
deus constrói o seu vazio
não escreverei mais poemas
sobre a beleza e a verdade
poetarei c/ o silêncio
essa máquina hiperbólica
capaz de captar e ferir a voz
mesmo sem despertá-la




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 241