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terça-feira, 27 de maio de 2014

A PORTA ESTREITA

Saturno


Saturno manda chumbo grosso
O meu tempo se esgotou
Sou uma alma que jamais
coube no próprio corpo
(e eu digo: não sou grego
nem conheço o seu panteão)
Não renovará licença de oxigênio
sistema imunológico coração
Acusa Netuno de drogar-me
sendas iniciáticas & ilusão
Júpiter de ativista de excesso
expansão sem contração
Vênus de submeter-me
à nutrição do prazer
(fujo pela esquina:
fecha-me na contramão)
Veio pra me ensinar a ser
mas desconsidero a lição
(só passando por seu cadáver
permanecerei no salão)
Já me mandou catástrofes turnês
hospitalares ameaça de castração
(e continuo a vestir
a armadura da negação)
Saturno olha-me nos olhos
amável pede reconsideração
(Estranho membro do clero
em sinistra devoção)
_ "Como ser pobre de espírito
sem aceitar a transformação?"
Amorosamente vi o Mestre
envolto em negra compaixão
(Os olhos de lágrimas negras
pingando óleo pelo chão)
Súbito a ficha caiu
e rolou a conexão
_ "Eis-me aqui: digo
ao meu fim e início
submeto-me ao sacrifício
e aceito a restrição"







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 367


segunda-feira, 31 de março de 2014

ODE A NETUNO





Nirvana dos drogados
Estrela-guia dos hippies e lunático
Patrono dos bêbados  e desesperados
Porteiro do Sanatório Cósmico
ora pro nobis
Trago nos olhos a tua assinatura cósmica
de tanto mergulhar nos oceanos de álcool
um jeito displicente de lágrima em supermercado
como a visão crucificada dos primeiros cristãos


Pelo fruto se conhece a árvore
Pelo peixe se conhece o mar
a 3 bilhões de km da Terra
tua vibração diluviana e sutil
faz girar a minha constelação interna
e enlouquecer a órbita de todos os planetas
qual depósito de lixo cósmico despejado na alma
OAN
NOA
HOA
MANU
POSSEIDON


Grão-mestre da ilusão
por que abriste o céu como paraíso da volúpia
e pregaste o desregramento de todos os sentidos?
(Não sabias
__ assim como o flash da fotografia
descolore a tinta nos quadros a óleo __
o desejo exacerbado
afoga a alegria no homem?)
E assim naveguei e naufraguei
por mares de álcool e dor nunca navegados
disfarçado no vapor do êxtase divino
Eros infantil buscando o amor idealizado
nas paisagens femininas do sexo dos anjos
na cama da eternidade
como um guesa errante entoando a melodia do desejo


Grande Iniciador
fizeste-me cansar das coisas desse mundo
ao dissolver-me o inconsciente
na turbulenta fronteira entre a fantasia e a realidade
onde a verdade e o erro _ como diz o poeta Rumi _
são separados apenas por um fio de cabelo
(Pela educação do sofrimento fui transportado
para o roteiro sacrificial a que me indicavas)
Em tudo te revelaste um Mestre
Se me deste a paixão dos suicidas
mostraste-me em seguida o amor universal
Primeiro a paixão
Depois a compaixão
Primeiro a diluição dos sentidos no mar da ilusão
Depois o inconsciente resolvido no oceano da
compreensão
Pelo excesso abriste-me o caminho da renúncia
antes cobra
depois corda de salvação


Mas compreendi depois
que por trás de tudo estava o Amigo
O Amigo que escreve com as letras das estrelas
o convite
para até o mais extraviado dos seres
vir à sua mesa
sorver o vinho cósmico da alegria e união
sem a embriaguez das alturas


O Amigo cuja misericórdia e rigor
são sempre maiores que a nossa ira
e espera até o final dos tempos
pela oportunidade do reencontro





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 299