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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

DIALÉTICA DO OLHO ROXO






todo poema é um soco no queixo da história
um cruzado de esquerda na face da arte
um pontapé no traseiro da memória e da vida


frágil ou potente lento ou ligeiro todo poema
é o ato guerreiro de estremecer maxilares
ainda que leve á lona quem o pratica


a quem não jogou a toalha







Luís Augusto Cassas
In 'A Poesia Sou Eu' vol. 1, p.191



sexta-feira, 19 de junho de 2015

RUMPELSTISTIKEN






1
Um dia ficarei absolutamente só
com as minhas lembranças
Solitárias elas virão Uma a uma
descerão a escadaria da memória moral
Pisarão com calma para não ranger
as velhas tábuas do passado
As boas as tristes as passageiras
nenhuma descartarei (Chopin ao fundo
entoará uma sonata distante)
Mensageiras da minha secreta verdade
tingiram as cores do meu arco-íris pessoal
e coloriram o meu sonho de viver
Despedirei cedo os empregados
pra que venham sem cerimônia
Descerrarei os antigos castiçais
Polirei a prata
Baterão à porta? Velhas amigas
sentar-se-ão à rústica mesa de madeira
pra fumar o cachimbo das recordações
Pássaros esvoaçarão contra o relógio
Xícaras de porcelana comovidas as fitarão




2
Ouvirei (comovido) suas conversas de nuvens
relatos e viagens parábolas de sonhos
obituário do acontecido rastros noturnos
da lanterna mágica sussurro no vitral
(Ó trágica flor de ouro maldição de anjos decaídos:
o temível segredo que eu intuía elas sabiam!)
Acrescentarei (com gentileza saturniana)
um ponto de vista virgem pedido de desculpas
ficção de outros personagens leitura do cristal
O que não foi sonegado entenderei
O excesso perdoarei Palavra de lei
Algumas envelheceram juvenilmente
e aderiram ao amargo chá das lamentações
Outras despiram a velha roupa dos preconceitos
e falam o prenunciado idioma da transfiguração
Onde havia ferimento agora há unguento
Onde havia amargura há cura
(Ó trágica flor de ouro maldição de anjos decaídos:
o temível segredo que eu intuía elas sabiam!)
Tudo o que era grande tornou-se pequeno
Tudo o que era pequeno tornou-se grande
e invadiu o pesado teto das reminiscências
- flor rebentando os telhados da casa -
pra colher a saliva dourada do sol


Escombros já não pesam nos lombos
Da desgraça sopra o vento da graça
O que eu sei o que eu não sei
passam a ser lápides extintas
música distante convívio de flautas
frutas submersas no espelho do vivido
Um arquipélago de lágrimas
desata um cardume de sorrisos
Todas as culpas e remorsos lavados
na clara fonte da compreensão
secam no amplo varal da resignação
E me recolho pacificado aos aposentos
lavado na pura água do desfalecimento
Coração de água ferido de um rei




3
Ó destino és (como eu) um animal divino
farejando as pegadas do sentido da vida
De que adianta pagar o cigarro das luzes
as pálpebras e a consciência
se os deuses guardam ciúme dos homens
e se vingam tão eternamente?










Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 364






segunda-feira, 21 de julho de 2014

O (O FILHO PRÓDIGO:Um Poema de Luz e Sombra)



Após o pânico
das caranguejeiras
borboletas azuis 
voam na clareira


O que fora elaborado
no ritmo agônico das horas
irrompe súbito no afogado
no fundo do poço da memória
nas mãos trêmulas do menino
cavando a escuridão
pra não causar o mau destino
nem ser o algoz de seu irmão
fogos-fátuos do passado
campos de concentração
em que adultos desgovernados
desmontavam os seus brinquedos
pra uso e reutilização
absolutamente por maldade
mas por não haver bondade
na guerra em seus corações


Toda a íntima odisseia
fragmentos e mitos
lições do sinistro
do homem em desgraça
perante sua raça:
pétalas de suor
raios de misericórdia
- ritos de passagem
de trágica viagem -
pra quebrar-me o rigor
e manifestar o amor
em meu mundo interior


Só o amor vence o ódio
mas se o amor não o vencer
o ódio torna a florescer
com seus megatons de sódio


Só declarando impotência
ante qualquer violência
lava o homem a consciência
despedindo a culpa imensa


No estranho mundo do ter
vale a metade do apreço
no universo do ser
paga-se em dobro o preço


Criei a mim - vestígios que sabia
filho do abismo e da mão tateante
Sou os escombros e a cumeeira
o que arde em baixo é sol de feira


Ó vocação do fogo
queimar e perecer
ó vocação da água:
morrer e renascer


Meu trabalho é fazer
das folhas secas - verdes
dos sucos - frutos
do luto - muco
descobrir no precipício
o divino
após o demoníaco
e sobrevivente do lixo
hastear o solstício


Meu ofício: realizar
o percurso da água
navegar o coração
(como um rio)
à fonte da lágrima
o ouro da flor:


a água gosta
de lugares baixos
a ferida dos homens
e a sua dor


porque nada passa
nem o ferro de engomar
que as roupas traça
nem o vinco do passado
que o mar escalpa
nem o sol do Saara
que os homens assa


Só o que morre
sobrevive







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 390