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quarta-feira, 22 de outubro de 2014

EPÍSTOLA AOS TOLOS

'Universal Love' de Julie Jensen



Não quero mais o amor cartesiano
que divide o ser em corpo e alma:
que elogia as pernas e a finesse
mas critica o recato e o idealismo
Quero o amor universal
que seja sexo e transcendência
prazer e Deus morte e renascimento
e nenhum tratado ou encíclica
reclame o território conquistado


Não quero mais o amor
que mata a cobra
e esconde o pau
Quero o amor que seja
cara e coração
Mostrem-me com urgência
onde começa o corpo e termina a alma
Procurem pacientemente
em que bolso escondem-se o amor e a fúria


Não quero mais o amor cartesiano
descartiano descartável
até por Descartes - pois pois - 
nunca foi dois mas somente um


Quero o amor que seja apenas amor
e não simulacro de amor
e que seja absolutamente puro pleno e ridículo
como o céu invadido por casal de passarinhos








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol, 1, p. 535





sábado, 22 de março de 2014

BORRACHARIA DO AROUCHE (40 GRAUS)






Sol de látex
Calor importado pela Pirelli ou Goodyear
de alguma floresta amazônica ou africana
(temperatura ideal
pra ler Dante no original)
Os pneus feridos renascem com suor
na incubadora da máquina de recauchutar
Até o vil metal
derrama uma lágrima tropical
Menos Rita apenas Rita
pose felina na folhinha de calendário
permanece bela e refrescante
igual a um boeing sacudindo as estrelas
Marylin Monroe mulata tão gata
que a fotografa descolorida
traz de longe o cheiro do seu sexo
e a multidão é mosca procurando açúcar
excitada na febre humana de viver




Luis Augusto Cassas




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

NOSSAS MENINAS



&
as prostitutas de São Luís do Maranhão
são assistentes sociais de plantão


quando abrem as pernas
dizem verdades eternas


&
dão ombros pro paciente chorar
seios pra descansar
boca para beijar
olhos para admirar
sexo pra relaxar

almas generosas
deviam ser condecoradas
por suas obras caridosas


&
as prostitutas de São Luís do Maranhão
são psicanalistas de salão

quando abrem a boca
a alma fica louca


&&
descarregam a tensão existencial
prestam assessoria emocional
conversam sobre taras de estimação
ressuscitam mortos sem tesão
há quem diga: psicanalisam e alisam

almas gostosas
deviam ser cantadas em verso e prosa
por serem tão dadivosas


&&&
depois devolvem os pacientes-clientes
amaciados e quentes
para a fauna faina da vida
mais uma família salva:
uma palma de salvas!



Luis Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 479




sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

ODE (QUASE) LOUCA






1

Decididamente
deve existir por aí uma mulher
manequim 42  sandálias 38  náufraga de luz
vaga inclinação para hot-dogs e filmes de Fellini
sem compromissos maiores que não seja o amor
Ela está estendida nua no tapete da sala de estar
e secretamente (sem que Dylan na vitrola perceba)
alisa lentamente as rosas do púbis
pensando na imagem de um poeta que a excita
Possivelmente um poeta que os críticos taxam de louco
desses que os pais de família chamam de irresponsável
e os executivos fazem aguardar nas antessalas
(como a flor de plástico
que desabrochará no jarro)
avesso a cortesias e gravatas italianas
mas cúmplice de todos os carinhos
capaz de exterminar o estoque de rosas vermelhas
dos restaurantes e floriculturas
e doar (por intrépida doçura)
as cerejas de todos os martínis doces
Ela está só e esqueceu a identidade burguesa
o vestido francês o concerto de Shankar
e passeia (na imaginação) por verdes pradarias
como uma égua servindo-se do seu cavalo
No cenário nu que a rodeia
o ketchup e o vidro de esmalte vermelho
derramam sangue sobre o tapete da sala de estar
É uma corça ferida de desejo
no entanto  o seu desejo não está só

2


Decididamente
deve existir por aí  uma mulher
estátua viva do mais puro mármore
musa de mil tentáculos  especialista em naufrágios
vaga inclinação para as causas mais secretas
sem compromissos maiores que não seja o amor
Miss noite  mademoiselle fúria
(está só nesse instante em que pisco os olhos)
na janela do apto. em frente
o bico do seio (como um diamante
ferindo a vidraça)
enquanto durmo e sonho acordado
(com a aurora do seu ventre em chamas)
desperta em seu quarto na América
e envia os sinais lânguidos de leoa acossada
para a selva do meu quarto de dormir
Decididamente
deve existir por aí  uma mulher
que me ensine lições de abismo
(e me atualize o desejo tempestuoso do amor)
que me toque tão profundamente
(como a brasa acesa toca o cigarro)
que me dê colo e transcendência
(e me fale de Deus e sexo
Henry Miller e S. Francisco de Assis)
e responda a questões urgentes do meu ser
(não com mensagens de sua boca)
mas com palavras quentes de todo o seu corpo:
o amor é uma turbação?
é uma perturbação?
uma revolução?
uma realização?
um desejo etéreo?
um mistério eterno?


Como compreender o instante e a eternidade
de amar a terra e o céu ao mesmo tempo
se tenho amado quem não quero
e não tenho amado quem quero?
Se meu corpo faz o que não pretendo
e a minha alma regozija com o que não posso?
Se o gozo das coisas do alto
eleva-me o desejo das coisas de baixo?




3

Esta noite  Deus (em sua misericórdia)
perdoará o excesso de fragilidade humana
e descontará a minha fatia de céu
Mas ainda que me fira a carne com todos os espinhos
Jejue mortifique-me e veja os sinais da queda
tudo será em vão
Hoje meu céu está na terra
e o desejo é o meu único pastor
Quero escorregar como um sol de abismo
e no leito da noite  num corpo de mulher
descobrir o paradoxo de todos os mistérios
desnudar a plenitude de todos os fracassos
e nas curvas sinuosas do seu corpo
acender as estrelas da Ursa Maior





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 324
Imagem: pintura de Modigliani





segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O DISCURSO DE LILITH NOS LENÇÓIS DE OR



(Gasolina & Chantilly para o meu Odiado)




1
Na escuridão do Universo cravejado de sangue de ametistas e esmeraldas refulge o meu clarão Filha da noite trago no corpo o incêndio dos vulcões Eu sou a santa loucura que enlouqueceu Nietzsche e lançou ao Rio Estige os profetas de todos os tabernáculos Uma constelação de deusas afogou-se em meu sangue quente Todos os sóis apagaram-se no vapor da minha pele morena Da minha boca saem serpentes e dragões desfiguradores de todos os mistérios.
Exorcizei no umbigo os ideais da luxúria para temperá-los no caldeirão das iniciações Às portas de Babilônia meu coração foi arranhado por leões mas mantive-o poderoso e pleno para ofertá-lo ao vencedor que ultrapassasse os portais do Hades e assassinasse os demônios da minha solidão Eu sou a que ficou com os seios insones à espera da primavera e preservou a concha dos quadris para o bárbaro ataque do Desespero e Beleza mais recôndita
Do meu sexo explodem galáxias tresloucadas Da minha menstruação escorrem os cavaleiros da Discórdia e do Destemor Quem romperá o véu do meu mistério e expulsará a insidiosa Ísis para a cama profana das desrevelações? Sou a que nasceu & morreu & nasceu mil vezes para o cumprimento da realização amorosa do destino Sou a que enterrou na poeira do enxofre e do desprezo os imperfeitos tolos que aspiraram ao sol negro que dorme dentro de meus seios.



2
Rigor — não misericórdia — eis o alimento nutridor da Beleza Planeta em órbita na perfeita geometria do destino força e arbítrio comandam as estrelas da minha criação Excita-me o previsível Masturba-me o determinado Poder e força eis os nomes dos dois cavalos que governam a minha aventura de viver O inesperado sempre foi um anjo manco pedindo esmolas às portas da minha exata consciência.
O coração é o refúgio dos tolos O sentimento morada da fraqueza A esperança lixo reciclado matéria-prima do orgulho e da vontade Todo o resto é miragem Devaneio poético Inflação do sonhado.
Eis que a Morte vem montando tigres de fogo e lençóis de fúria Vejo seu rosto maquilado de ternura e descontentamento Esfinge de carne e osso deponho os véus e armas de Atalanta a que reside em mim e emprestou-me a couraça da perfeição para afugentar os afilhados de Eros Ó sangue! Fugi dos leitos das veias do coração! Ó abismo — plenificai o meu vazio! Tudo o que temia ser — revela-me o espelho — já iniciada estou Meu nome é escândalo script de novela mexicana encarnação dessa palavra ridícula chamada Amor! Profecia! Inauguraram-se os meus dias de inglória!



3
Quem acende as gambiarras do meu desejo indicando o necrológio do meu martírio e o enterro do meu desfalecimento? Quem estrangula os meus receios desencanta os meus fantasmas distribui os anéis da ansiedade e rasga o luto milenar do meu enclausurado silêncio?
Eis que malvindo bem-vindo vem Dá-me o batismo do gozo e o sacramento profano mais intenso Rasga os meus mais secretos oráculos Penetra no abismo das profanações Acende as trombetas do meu paraíso interior.
Traz nas mãos a ternura inflamável de um príncipe banido e a violência de um terrorista do sublime Toca-me os seios como crisântemos Desfolha as lágrimas dos meus olhos e as desterra para a Constelação do Grão-Cão Seu veneno é o antídoto da minha tristeza Sua arrogância a humildade do meu amor É o meu garoto com sua espada a cem Meu Eremita e minha Torre Meu Diabo e meu Renascimento Besta humana sou sua puta sagrada — Helena Afrodite Atena e Penélope em chamas - de quatro na cama da noite do Universo em aflição.


4
Meu amado me odeia com seu mais puro rancor Marca de roxo e rosa minhas costelas Acende lâmpadas de mil volts em meu desejo Desaloja ninfas dos meus seios interdita o território do meu sexo De decúbito ventral impõe-me trabalhos forçados Despede-me o rubor Ateia fogo em meu vestido Tortura meu corpo em brasa.
Ridícula sou quando estou próxima ao meu odiado Arranca-me as asas Tempera os meus lábios com sua saliva viscosa Cadela no cio revira a lata de lixo come as minhas sobras Escolhe-me pelos meus dentes igual égua em supermercado Nas pérolas do seu esperma sou alfazema derramada Na cama abro as pernas e rezo para que morra Caia napalm em seu pau Mas temo nunca mais ficar envergonhada.
Meu odiado é lindo como um genocídio de papoulas e sublime como um coquetel molotov arremessado sobre a minha casa Dos seus lábios floresce a canção do abismo Ávida sou devorada pelo seu sarcasmo Risca como página a minha pele avara Ameaço o suicídio tomando gasolina & chantilly Trágico ri da minha cara
Detestável é o meu ardor quando estou distante do meu amado Masturbo luas em lençóis de cetim Corto o sexo com gilete pra que fique desesperado Inauguro sorriso de batom negro nos lábios Ardente pulsa minha vagina louco Stradivarius! Mas só ele desperta em mim a fera que dorme acuada Inflama o meu mais puro desdém De caos deixa o meu rosto decorado Meu odiado é o Rei do meu Medo e o Senhor Absoluto de todos os meus chacras O Demônio-Javé que reina em meu pânico e em meu suor O que incendeia as florestas do meu corpo só pra ver a sua fera iluminada.



5
Acesa em delírio sou planeta fora de órbita maçã devorada Seu desejo em chamas acende ruínas na minha carne desolada Meu orgulho torna-se chá de abismo Minha perfeição — erótica vadiagem.
Sou Sodoma saqueada Paris desfigurada Berlim destronada Londres transtornada.
E maldigo os burocratas do céu — 1 bilhão de anos-luz sem poesia e em desterro cósmico — poder purificar-me na mais suja transcendência arder em línguas de fogo enlamear-me da luxúria desse amor que em sua ausência mais divina é a própria essência do mistério do Crucificado.


Até ontem fui Noite.
Meu nome é Luz





                 Luís Augusto Cassas
                 In  A Mulher que Matou Ana Paula Usher, p. 68