terça-feira, 22 de outubro de 2013

MITOLOGIA ÍNTIMA




Sou muito Poseidon
numa sociedade Zeus
Hades e Dioniso
em tempos de Apolo
No palco entre atores
Hermes nos bastidores
Sou mais profundidade
que altura
Menos claridade
mais noite escura
Solitário entre as águias
dispenso as algaravias
Meu ouro íntimo
a melancolia



Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2 , p. 226



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A TERAPIA DAS BORBOLETAS





Se um dia perderes
o significado de tudo
— triste e confuso
nos mistérios de Deus e o Mundo —
observa as borboletas
no mistério de voar
Igual ao espírito que sopra
e ninguém sabe de onde vem
e pra onde vão borboletas
são arcos-íris ambulantes
breves traços no espaço:
o ninho é apenas breve pouso
em qualquer lugar
Borboletas não pensam
no espaço não sabem do tempo
Nem se preocupam em ser
só em estar
 Borboletas são ondas
que nascem e renascem
desapegadas salgadas
em qualquer sol
em algum mar

Borboletas são sonhos
de fadas acordadas
Borboletas são?
Embaixatrizes da leveza
felizes sem nenhum motivo
 em qualquer lugar




Luís Augusto Cassas
In 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

ELOGIO DA LÁGRIMA




1



Joia secreta de alguma dinastia celestial

Relâmpado molhado de água marinha
Chuva de prata do céu interior
Meteorito desconhecido
que o Super-Homem não perceberá
Precioso pingente
que os joalheiros não adjudicarão
Só os puros e impuros te conhecerão
quando chegares translúcida e terrível
como uma tempestade de cristais


2



Síntese do fogo e da água

Consoladora dos contrários
Secreta fonte da dor e da alegria
Oásis? Nascimento? Morte?
Puro milagre do espírito
ao romperes (nas faces) os diques
da mais fria emoção
semeias os devastados campos da alma
refloresces das cinzas o coração
e renasces no opaco brilho dos olhos
o súbito clarão





Luís Augusto Cassas 

In Liturgia da Paixão, p. 178 e 179

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O CÉU DO CORAÇÃO




o raio 
e a estrela
quem lembra-lhes
a beleza
dos tempos místicos
celebrados à mesa
revoluções e milagres
dragões e princesas?

quantos sacariam 
a força da natureza
caminho da humildade
culto à realeza
detrás do biombo
o poder explosivo
render-se à flébil gentileza?

quem não ousaria
brincar no céu
do princípio
da incerteza
e pular a fogueira
do raio  e da estrela
no papel de parede
da noite acesa?




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 219


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

TORRE DE BABEL (ARCANO 16)




Quando os cupins invadiram a biblioteca
e devoraram as letras e o papel dos livros,
senti que algo desmoronava em mim
como a torre ceifada pelo raio.
(Outrora tinha acontecido assim.
   quando encontrei uma cobra no jardim
   e descobri que o egoísmo
   era meu inimigo oculto)
Repetia-se a representação externa
de um drama íntimo da alma,
em que os cupins anunciavam a terrível revelação
de que o antigo eu estava sendo destruído
e o espírito (com fome e sede de verdade)
quisesse libertar a alma oprimida.
Percebi (então) que era absolutamente essencial
jogar fora o conhecimento dos livros,
o orgulho intelectual e a redoma de cristal,
e limpar todos os compartimentos do ser
para que a alma pudesse buscar o céu.
Dentre os escombros, - liberto da opressão da matéria, -
um pequeno espaço brotava em mim. Aberto à claridade.
Mas nele cabia - as estrelas, a lua e o sol, -
e a dimensão profunda de que algo novo
- algo terrível e absolutamente belo, -
                                                         a Vida
estava pronta a ser decifrada.




Luis Augusto Cassas
In O Retorno da Aura, p. 39
  

RETRATO DO AUTISTA QDO JOVEM







Escrevo pela absoluta incapacidade de me expressar A incomunicabilidade é meu guia: me salvará 

Escrevo p/ me desconhecer mais do que me traduzir Desescrever-me é o exercício mágico que a 
realização me absolverá Escrevo p/ fugir à obrigatoriedade de ser feliz perante público que jamais 
se lerá Meu leitor _ os que dão as costas à escrita cuneiforme dos apócrifos de Shangrilá


Destextualizar-me é o objetivo final até ser a palavra que ninguém ouvirá Sou a obra inacabada   de

poeta que inaugurou o não pesadelo de sonhar Não sou _ retrato mais perfeito de incomunicar Sou
um dicionário de águias em voo orbital rumo à página que jamais rasgará O Diabo constrói sistemas 
fechados eu os destruo Fosse _ falaria Escrevo por não saber sonhar







Luis Augusto Cassas

In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 225
Foto do autor

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

DANÚBIO CINZA




O amor e a morte sempre me deixaram sem palavras
como um piano de cauda tocado frente ao oceano.
Subterrâneos, os risos e as lágrimas correm transbordantes
na introvertida face do olho e a boca que ninguém vê.
Explosão de vida que é do céu da alegria e das ondas do amor
que se arremessam contra os arrecifes do destino,
qual vidraça da alma estilhaçada por uma pedra
nas azuis espumas que o oceano destilou internamente?!
Oh gaivotas da agonia! Praias do coração despovoadas!
Que mal eu fiz para afogar-me na líquida seiva
do amor e da morte que me afogam o coração?
Oh amor de morte! Oh morte do amor! a quem o poeta
pensava não morrer. Se se morre de amor? Sim, sim se morre.
Mas se renasce. Assim como o oceano renasce a chamado do sol
para a manhã claro-dourada da existência.
A quem buscar nessa sinfonia do indizível silêncio
se ninguém ouve o lamento dessa nota dissonante?
A que distância de minha alma suspira a meia-metade,
envolta na imensidão da vaga melodia?
Toca, piano, a ária desse amor desengonçado!
Toca, piano, a valsa cansada desse amor encarcerado!
Que o amor e a morte sempre me deixaram sem palavras,
e o que resta - navio fantasma desse deserto marítimo -
é apenas ser ouvido pela face feminina da minha alma
enclausurada na noite mais profunda do meu ser!






Luís Augusto Cassas

In Liturgia da Paixão, p. 114



O CALDEIRÃO




o que aconteceu?
por mais que o abismo
sorrisse olhos de orfeu
à luz confessemos:
grávidos gravitamos
no fogo de Deus


mas os planetas
em proximidade
abriram florestas
nas identidades
e o vento disse às centelhas:
as brasas - elevemo-las


no intenso carrossel
o eros se ergueu
adoeceu philia
o ágape se perdeu
a mágica poção 
de sol veu-se




Luis Augusto Cassas
In A Mulher que Matou Ana Paula Usher, p. 55


A LINHA DO HORIZONTE




                       Poetas nunca alcançam o céu.

São constelação de pássaros, pétalas de nuvens,
gravitando entre o previsto e o insondável.
São lua cheia recebendo a luz do sol.
O acaso e o inesperado são a sua sina.
Quanto mais se elevam em direção ao céu,
as asas batem de retorno ao ninho.
                      Poetas nunca estão na terra.
                      Sobra-lhes o céu às cabeças.
                      Falta-lhes o chão aos pés.
Os pensamentos são raízes de nuvens.
Seu caminho é o vento. Seu endereço é o coração.
Beleza e tragédia, eis seus companheiros de viagem.
Amados ou esquecidos, sublimes ou desterrados,
poetas vivem apenas o seu destino.







Luís Augusto Cassas


In Liturgia da Paixão, p. 187




quinta-feira, 10 de outubro de 2013

PISCIS







Sou partidário da água:

rios, regatos e córregos
são fontes de celebração interior.
Um rio parte do coração
e banha as profundezas da alma.
Os braços são dois longos afluentes
correndo subterrâneos para o abraço da vida.
Nas veias serpeia a líquida seiva
que se derrama em um lago de transcendências.
Transformar pântanos em regatos cristalinos
sob o olhar aceso do firmamento - as estrelas -
eis a essência do trabalho da vida!
Muitos querem ser exaltados.
Aceito com paciência a humilhação.
Muitos são seduzidos pela glória e o poder.
Sou anônimo como o vento e a serenidade
e inútil como o amor e a poesia.
Muitos desejam a imortalidade.
Quedo-me à transformação da matéria
e ao esquecimento.
Enquanto alguns têm os olhos secos
carrego no olhar a chuva de muitas estações.
Como a semente lançada, que enquanto dorme,
floresce sem cessar,
em mim a natureza do seu curso
no dilúvio do tempo e eternidade.
Sou eterno como a gota d'água.
Na fraqueza reside a minha fortaleza.
No meu líquido inconsciente
liberto a angústia dos poetas
dos bêbados e desesperados.
Eu compreendo os incompreendidos,
consolo os que têm sede de justiça,
e aceito (de joelhos) fazer o serviço sujo
de lavar os pés da humanidade.







Luis Augusto Cassas   
In  O Retorno da Aura, p. 120