terça-feira, 17 de junho de 2014

CARTA DO INICIADO FENDIDO AO MEIO





1
Quando eu era materialista
amava a lua na escuridão do céu
Depois me tornei espiritualista
e quis ser o sol da meia-noite
Agora que não sou mais
espiritualista nem materialista
cigarra e formiga cantam juntas
no aurorescer e alvorecer
Não sei mais o que eu sou Eu sou


Todos estão rigorosamente certos
Todos estão exclusivamente errados
Não há nada a fazer
Não há partido a tomar


Se o visível procede do invisível
— seria correto dizer —
que o material leva ao espiritual?
Sol e lua brilham para todos:
muita treva conduz à claridade
e excesso de luz pode cegar
Portanto quem está aqui pode estar lá
Tudo que é sólido desmancha no ar
Não sei mais o que sou Eu sou


Na verdade — quem não busca o céu
por mala direta ou oblíquo véu?
As estrelas e as lojas de departamentos
os homens de negócio e o asceta tibetano
todos crescem e multiplicam-se como nuvens
apenas para cumprir a obra de Deus

Portanto quando perguntam:
materialista ou espiritualista?
Não sei o que eu sou Eu sou




2
Quem não vê
(conectando a luz da alma no fio da visão)
que o ébrio procura na embriaguez
dissolver a sua dor em Deus?


e o intelectual ensimesmado
busca a sabedoria de Deus?


e o neurótico desiludido
apenas o amor de Deus?


e o capitalista convicto
o poder de Deus?


e a prostituta
que se entrega por dinheiro aos homens
 anseia (sem perceber)
como entregar a alma nua e pura ao Pai?


Quem julgará o certo e o errado
com sabedoria e toda a ciência
 se o bem e o mal
são apenas estados de consciência?





3

Antigamente eu tinha muita
 culpa por viver embriagado no  mundo
Agora que me embriago de Deus
e recuso o cálice do mundo
vejo que permaneço ébrio
e o vinho exala forte em minha alma
Ontem estava certo
Hoje estou certo também
Não há nada a fazer
Não há nenhum céu a conquistar
Nenhuma cerejeira vai florescer
Nenhum salvador vai chegar
Só sei que a cada dia menos sei
Só sei que a cada dia menos sou

 Não sei mais o que sou Eu sou







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 345


segunda-feira, 16 de junho de 2014

DOGMA DO AZUL E BRANCO




Os especialistas
nunca entenderão
o multimistério
da Imaculada Conceição


Deter-se-ão na investigação microscópica
da membrana filosófica
Despacharão expedições a Nazaré
pra colher amostras de sangue
Estudarão o limão dos seios
e a meia-laranja dos quadris
Dissecarão (como flor de plástico)
o Amor e seus derivados


Depois escreverão
milhares de teses
(mais que as estrelas do céu)
demonstrando
ci-en-ti-fi-ca-men-te
que a fé veste
mas a ciência despe
e (portanto) a carne é fraca
e ovelha não jura pra capim


Um dedo apontará a lua
e mostrará a verdade nua:
alguns verão o dedo
outros a lua!


Enquanto isso toda frajola
vestida de azul e branco
arco-íris nos cabelos
sol e lua sob os pés descalços
a Virgem leva seu menino ao parque
pra passear com os rinocerontes






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 556

sexta-feira, 13 de junho de 2014

DISCURSO DO INTELECTUAL SOBRE O AMOR



                                                                                                                               a Roland Barthes



O amor é para ser lido
num dia de domingo
(ou então) segunda-feira
Rostos e cabelos
não são passagens mas hieróglifos
Tempos e circunstâncias
são indícios
Bocas e línguas
são solstícios



O amor é para ser vivido
na branca cama do linossigno
como uma página aberta
e/ou desejo repleto de possibilidades
Dicionário de probabilidades
no triângulo das bermudas
uma perna distante
é uma perna perdida



O amor é para ser consumido
como uma laranja grega
ou um sol tombado
cheio de gemas e pantáculos
onde se estuda o mel dos anacoretas
no mar azul das molhadas hélades
e o efeito estufa do canto das sereias
nos gatos aprisionados nos navios



(Quem não souber ler signos
e dissecá-los sem perplexidade
jamais compreenderá profundamente
o significante do significado do amor:
mensagem interceptada no dilúvio
colar de conchas roubado à praia
borboleta de ouro batendo asas
no sonho acordado de Salomão)



O amor é para ser amado
como lua de mel da especialidade
viagem de férias da realidade
carta de colagens dos sentidos essenciais
Fragmentos de um discurso amoroso
são litanias de deuses sem ascenso
ainda que aos cépticos a musa decadente:
_ "Ai amor eu não te amo mais!"









Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 351



quinta-feira, 12 de junho de 2014

UM



quando estou em ti
e tu estás em mim
inverte-se o princípio
do início e fim
no primeiro momento
há movimento:
eu sou tu és
no segundo momento
há desfalecimento:
não sei quem sou
acaso és?
no terceiro momento
viramos fragmentos:
o nós e o vós
habitam em nós
depois não há nada
e o espírito do só
recolhe-se ao pó







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 331




quarta-feira, 11 de junho de 2014

A BELA E A FERA



tua ausência
explode os castelos da minha angústia
em que pululam famintos no fosso
os jacarés da aflição 


tua ausência
sufoca o sol c/ aranhas e centopeias
esbofeteia os lírios do jardim
e planta buracos negros nas constelações


tua ausência
é máquina de tortura: geme a fúria dos ossos
em consórcio de agonias e range o peito
derramando absinto pelo chão


tua ausência
é sinfonia de vitrais partidos
estilhaços de angústias litanias de cobalto
cruz devorando a carne em flagelação


aquela que brilha em chamas na pupila
chegará a tempo antes que me cresçam as garras
e a fera destrua o sonho de transmutação?


lança último olhar sobre o espelho:
entre o bicho e o infinito desfaleço
rosa negra desabrocha-me nas mãos


nos lábios despetala o derradeiro suspiro
de animal ferido que sabe o encantamento
e em desespero aguarda o beijo da libertação







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 337




terça-feira, 10 de junho de 2014

EROS





sou feito
de ausência
e distância


filho
de penúria
e abundância


a encarnação
mais pura do mito


a emanação
do cintilar da presença


o amor








Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p/ 562





segunda-feira, 9 de junho de 2014

A BUSCA DO MITO (pintando quadros)







1
não serás jeanne
hébuterne
hôpital de la 
charité
voando            pela janela
até                   modi


nem clara
de assis


nem eu
francisco
(casados em espírito
devotos do serviço)


nem
penélope
tecendo luas
ao retorno
de ulisses


nem gala
(dólar)
aguardando
dali: seu sonho
de consumo
(no lar)


nem
frida khalo
ao seu encalorado
diego:
"_ pés para que vos quero
se não tenho asas para voar?"



2
dois loucos
numa noite suja de anima
lavando do karma a hybris



dois corações

apaixonados
brincando como leões no circo


duas ovelhas negras
clamando por pureza
numa selva de vínculos


o magnetismo do amor
arremessávamo-nos ao infinito
mas em nós espiava o bicho



3
ainda que caminhasses
pelas sendas da agonia
e o hades atravessasses
te faria companhia


seria o novo
em tua colmeia
seria teu povo
tu minha rainha


mas na noite escura
da nossa humana loucura
incomodamos Deus
em sua ventura



4
por mais que calemos
o grito
somos
o mito inconcluído
                        o submito
                        q fugiu no
elevador de serviço
e mora -  golen
romântico - entranhado
nas paredes do prédio
recendendo a saudade
                      e lixo


(aprendemos humildes
a lição do espírito:
arrependamo-nos do equívoco
repensemos nosso arbítrio)



5
somos a letra perdida
do alfabeto hebraico
talvez reencontrada
em novo sonho arcaico


somos o vaso alquímico
que não suportou o segredo
e ao fabricar o ícone
fugiu a luz entre os dedos


tua teologia negativa
cortou-me a cabeça da hidra
mas reconciliei-te com eva:
o coração de maria


a lua apagou o seu alfange
o sol rompeu nos mirantes
em nome do amor perdoemo-nos
o que foi demais não sendo



6
alma gêmea
alma fêmea
paiol de lenha


pelas caligrafias
do infinito
caminhemos


rumo
a novas constelações
e oceanos


sê o último portal
além do bem e do mal
até o amor real







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 355




sexta-feira, 6 de junho de 2014

COMPANHEIRO MAGNO

B. B. King



1
ele não veio de Harvard
nem das calçadas da fama
mas iluminava as salas de A.A.
com pinta de barack obama


tinha o sonho à luther king
ginga de djalma santos
fôlego de b. b. king
montado em sapatos brancos


sapateiro igual bohème
remontava novas crenças
anônimo ludovicense
fazia brilhar as consciências


prisioneiro como mandela
vestiu a roupa de presídio
o alcoolismo foi sua cela
a liberdade  o seu grito


nos ombros recolhia em casa
os embriagados do mundo
colava-lhes coragem e asas
retornava-os sóbrios e fecundos


e quanto mais vergava a espinha
salvando secos e molhados
reerguia-o a misericórdia
com o sol do transfigurado


ele só pedia 24 horas
de humildade
ele só queria 24 horas
de sobriedade


ave magno o amor é a tua lei
boca do sol  língua do céu
tenor principal imago sei
vox populi vox dei




2
seu nome
não brilhará
no neon
seu busto
não ornará 
o pantheon




3
quando o orgulho
se ajoelhar
à humildade


e o egoísmo
prestar serviço
à coletividade


companheiro magno
será nome de avenida
na cidade


mas até lá
outra será 
a humanidade




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 437



quarta-feira, 4 de junho de 2014

MEDITAÇÃO DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA





fogo sagrado da vida
santuário do puro amor
chaga da sabedoria
chama do céu interior


_ que luz brilhais no sacrário
farol do humilde e exaltado?
_ sede revolucionários
jamais revoltados!


_ como refletirmos as flores
do teu arco-íris fecundo?
_ substituindo as vossas dores
pelos martírios do mundo!






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 269



terça-feira, 3 de junho de 2014

O DEPOIS




está tudo resignificado
o mal de que sou acusado
o bem de que fui espoliado
no banco foi descontado


não há mais nada a dever
ao ser e ao não ser
e o que resta por vir
seja uma estrela a luzir


em tua eterna glória
perdoa-me ó rei
pois em minha miséria
agora sei







Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 321