terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A CANÇÃO DE ANA AMÉLIA


Ana Amélia Ferreira do Vale



toda vez que penso
eu te amo
é engano
mas quando não penso
do amor reclamo

cada vez que penso
eu sou
é quando não sou
mas quando não sou
é que me torno

porque quem diz
te amarei a vida inteira
é o vento afoito
o que é a eternidade?
cinco minutos




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 594
Foto de Ana Amélia, grande amor de Gonçalves Dias




segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

BIBLIOTECA DE LISBOA




viajei todas as histórias
percorri todos os mares
devastei os  horizontes

bárbaro em alexandria
salvei do fogo a sabedoria
na memória de velhos cupins

expulso em ítaca retornei
com meu exemplar de "ulisses"
devidamente autografado

trópico de capricórnio
zeus plexus e sexus
foram meus companheiros de viagem

meu crime e castigo
é ser eterno quixote
num mundo sem afinidades eletivas

mil e uma noites de experiência:
dante refiz-me em selvas de milton
pra reencontrar o paraíso perdido

museu de vícios: incluídos
os mimeografados as páginas amarelas
as edições piratas e bulas de remédios

exemplar de colecionadores:
incansável salteador de estrelas
mas com alergia e poeira

autobiografia reinventada
no roubo de milhão de personagens:
guloso mas com jejum à psicanálise

devorador de roteiros de amor:
othelo romeu orfeu pierrô
só o meu pobre enredo não me conquistou




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 594
Foto da Biblioteca da Universidade de Coimbra



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

CORPUS HERMETICUM



sou como tu israel
um país recheado de tragédias
e infinitas belezas naturais

um rio de água-viva
jorra nos jardins do tempo
enquanto o sangue dos puros
escorre no muro das lamentações

sou o eleito e o injustiçado
a estrela e a videira
o pastor e a estrela extraviada
a coroa de davi a faca de abraão

embriagado de profecias e maldições
saio ziguezagueando pelas ruas
ouvindo a litania das metralhadores
meu corpo apodrecido estala raízes
range nas tábuas do antigo testamento
as pesadas rodas do canhão

minha espada? a pena
da plumagem de um pombo branco
sujo na fumaça do crepúsculo

o grande mistério da vida
fala pela boa dos profetas:
_ 'jamais te conhecerás integralmente!_
sempre haverá segredos
entre a árvore e a semente!" 
clamam os anciões aos ventos:
_ 'consideras-te sábio?"
aos ignorantes lavam-se os trajes
ao sábio nada é perdoado"

sibila no ar a serpente:
_ 'não conhecerás o amor pleno:
a ilusão será teu veneno!"

aquele que está nas alturas
quando salvará nossa amargura
ó israel?

até quando servir-se-á a dignidade
como prato de vísceras 
no banquete da desolação?

ai israel
meu pecado e o teu
_ a falta de unidade espiritual _ 
desnuda-se a céu aberto:
somos apenas uma rês
multiplicada em três
pastando no deserto

oferto-te um cordeiro em holocausto
com flor de farinha e azeite batido
temperado na pólvora das retaliações

inútil acender-te o incenso
c/ bálsamo cravo libânio açafrão
não disfarçaremos o fedor da eternidade
dos corpos em decomposição

eu vi o sangue libanês
da minha bisavó estrela
resplandecer na taça do sepulcro:
"cerradas permanecem as lojas
'trajes p/ noivas'
enquanto não se consumarem
as núpcias do candelabro e da oliveira
sobre a pedra negra do altar"

flor do cedro
vasilha de luz
de amidá
vinde nos cuidar

adonai 72 vezes
contaram-te morto nas fileiras
exilado na fornalha de nossos corações
tornamo-nos surdos às tuas lamentações

vinde mulher vestida de sol
mãe dos fracos e combalidos
dormir com todos os mutilados:
restaurai-lhes as torres fulminadas

a árvore do bem e do mal
despencou carcomida pelas guerras
(crianças dançam cirandas
jogando-lhes rosa e mirra)

de nossas costelas
escorre um rio de água límpida

somos o livro mordido pelos ossos
navegando no úmero de nomes e números




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 529


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

NOSSAS MENINAS



&
as prostitutas de São Luís do Maranhão
são assistentes sociais de plantão


quando abrem as pernas
dizem verdades eternas


&
dão ombros pro paciente chorar
seios pra descansar
boca para beijar
olhos para admirar
sexo pra relaxar

almas generosas
deviam ser condecoradas
por suas obras caridosas


&
as prostitutas de São Luís do Maranhão
são psicanalistas de salão

quando abrem a boca
a alma fica louca


&&
descarregam a tensão existencial
prestam assessoria emocional
conversam sobre taras de estimação
ressuscitam mortos sem tesão
há quem diga: psicanalisam e alisam

almas gostosas
deviam ser cantadas em verso e prosa
por serem tão dadivosas


&&&
depois devolvem os pacientes-clientes
amaciados e quentes
para a fauna faina da vida
mais uma família salva:
uma palma de salvas!



Luis Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 479




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

SALMO DAS CARTOMANTES




senhor dá boa estrela
às cartomantes
retribui destino de borboleta
às cartomantes
são sobrinhas de joana d’arc
não enjeitadas de van gogh
acendem a fúria do sol
no abismo da noite
projetam futuro de boutique
aos descamisados
resgatam a lepra
dos enjeitados
atrapalhos de amor
rosa resolve
meteorologia de emprego
mãe sílvia cessa a chuva
escândalo em família
irmã lourdes apaga o fogo
senhor protegei
a padroeira dos apressados
que a noite acende
a fogueira das revoltas
e o canto dos grilos
é um massacre de sinos
sua misericórdia
não é ortodoxa
mas alinha tijolos
na casa de vossa bondade:
canonizai as cartomantes
15 segundos de eternidade!






Luís Augusto Cassas



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

UM AUGUSTINHO PÓS-MODERNO E SUA ATRAÇÃO PELO TODO

Marco Lucchesi e Luís Augusto Cassas



Caminho com Luís Augusto Cassas pela praia do Calhau.
O sol de São Luís não admite concessões. É como a poesia. Ou tudo ou nada. E uma conversa que cresce em espiral. Como a concha de um nautilus. Ou a de Afrodite. A de Botticelli. E as que vemos nesta praia.
Um domingo de junho. E uma catedral submersa, onde o padre Vieira prega no fundo do mar a conversão dos peixes no Paraíso secreto das águas.
Cassas decide recolher o sermão aos peixes, a espiral do nautilus e o rosto de Afrodite nesta manhã de domingo, que parece não ter fim.
O Cristo-peixe é infinito. E o mar é um domingo de esperas.
Vejo a obra reunida de Luís Augusto Cassas. E me espanto com a população que habita seus livros. Uma demografia incomum. Toda ecumênica. Cheia de beleza. E frescor. Mais de uma praia. E mais de uma cidade. O mundo e a redescoberta de sua grande poesia. Uma das mais belas que se escreve hoje no Brasil. E das que mais me comove. Algo de Apollinaire. Algo de Blaise Cendrars. Mas tocado pelo tempo atual. E com uma síntese toda sua, uma linguagem toda sua e um acento inconfundível.
A poesia de Cassas nasceu como Minerva da cabeça de Júpiter. Grego equinocial. Cidadão do mundo. Amante do corpo e do intelecto.
Saúdo a impureza de Luís Augusto Cassas. Tal como as águas cheias de sedimento fluvial que deságuam nessa mesma praia do Calhau.
Luís Augusto Cassas jamais poderia ser o poeta da razão pura, asséptica, de tampa hermética, fechada a vácuo, ou simplesmente uma república de aduanas impermeáveis e intransitivas.
Posso definir sua poesia como sendo a crítica da razão impura, dentro da porosidade do sim, ligada a todo um processo de mixagem, de quem saúda e acolhe a coincidência dos opostos na corrente sanguínea da poesia.
Estamos na dimensão impura, ao mesmo tempo líquida e sólida, nítida e incerta, escura e luminosa, sacra e profana. Não como campos excludentes, mas como formas de conceber a transição.
E sobe as ladeiras do tempo e as de São Luís com a mesma desenvoltura com que desce a rua da Paz — íntimo da Tábua Esmeraldina, que afirma a semelhança das coisas de baixo com as de cima. E abraça a totalidade no fragmento — que o redime da atração, do desespero e da saudade que sente pelo Todo.
Para Cassas, o universo é uma teia de correspondências, em que as pedras e as estrelas se comunicam sob os céus do Maranhão ou de qualquer parte do Globo. Como se buscasse a espiral de Deus. O nautilus invisível.
A razão impura é como o Livro de Dante, que concentra em suas páginas tudo o que no universo vai desgarrado e perdido. Cassas sonha com este livro e sua obra reunida não deixa de apontar para a unitotalidade das coisas que o cercam no sonho e na vigília.
Conversam as pedras e as estrelas de São Luís. E a chuva secreta dos astros. E as cartas do tarô. O universo é ecumênico. E a soma de tantas abordagens reflete a nostalgia de uma unidade perdida, as ruínas de Babel e de Alcântara que a sua poesia — a de um náufrago de Deus — tem como princípio restaurar. Todos os casarões que se perderam. E as sacadas. E os amores. Assim como a beleza solitária de uma Torre que marcou o fim de uma idade de ouro.
E Cassas é este sobrevivente pós-moderno de Babel, o DJ de Deus, o trapezista luminoso de um circo de palavras, perdido entre alturas e adesões. O universo é como um iPod. E Cassas busca o modo de fazer o download de alguns resíduos de Deus que vagam no ciberespaço. Além da pedra. Do sonho. E da estrela. E o livro do mundo precisa ser lido. Tudo aquilo que diz sem dizer. O espaço entre as palavras. O branco da página. O desenho do abismo na vasta superfície.
Temos o poeta da cabala do visível, que sai do papel e vai para a vida — nunca saiu da vida este poeta nietzschiano, atrevido, apaixonado às últimas consequências. O corpo é o seu meio. A sua leitura. O seu risco. Os seios de Afrodite. Os olhos de Leda. E toda uma arte combinatória em que a virgem e a prostituta cumprem uma latência de beleza e mistério. E soma e divide as letras. Descobre o céu que as gerou, com setas, arqueiros, aquários, abismos e ceias luminosas.
Eis por que sua razão é impura. Elege o ser em sua equivocidade. Nas tantas manifestações em que revela seus segredos. O e-mail de Deus para Cassas não tem antispam. E sua obra reunida é um e-mail inteiro, um só arquivo anexado, que serve no plano da imanência e da transcendência.
O céu não sabe de aduanas.
Donde essa poesia cheia de força. De mística. E de razões políticas. Mas da política da poesia.
Um permanente j´accuse como um profeta do antigo testamento no seio da modernidade. O drama da figura do Pai e da piedade do Filho. Uma telemaquia de Cassas à procura de Ulisses. A espera do Pai. E do futuro. E do filho pródigo. E a volta. A transfiguração materna em ampliados afrescos. Dvořák e o banquete de cordeiros físicos e metafóricos. O Alfa e o Ômega de uma dor íntima. Ao cabo, o encontro com Hölderlin, atingindo o ápex de uma vida dedicada de todo à poesia. Alta voltagem de mistérios e revelações.
Ele preferiu a escola do abismo. Mais que a de Telêmaco. De quem aprende com as impurezas do Hades. E ao voltar, como Orfeu, buscou Eurídice por todos os quadrantes. Mas seus olhos tinham fogo. Sua boca havia sido marcada pela sarça ardente da poesia. Era demasiado tarde para uma crítica da forma pura. E toda uma língua forte — cheia de frescor — com uma férrea vontade de levar a termo uma nova razão de estado da língua de seu país, em que tudo aparece deslocado e destramado. Sua poesia não tem compromissos. E é livre e compartilha um ecumenismo raro na literatura brasileira. E aqui não falo apenas de uma compreensão mística, mas de uma variedade poética e vocabular cheias de eletricidade.
Poeta que canta as belezas do mundo. E suas partes trágicas. Mas com um sorriso de fundo permanente. Sorriso que os trágicos adivinham. Tão nobre se mostra, mesmo quando não tem a intenção de o ser. Tão afetuoso no seio de uma fria injunção. Leve quando combate moinhos rudes e metafísicos.
A Obra Reunida aqui está. Cassas tem agora a imagem do próprio rosto. O itinerarium mentis. As confissões deste Augustinho pós-moderno, maranhense e brasileiro.




                                                            Marco Lucchesi





Marco Americo Lucchesi    (Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1963) é um poeta, escritor, romancista, ensaísta e tradutor brasileiro. Membro da Academia Brasileira de Letras (desde 2011) e também da Accademia Lucchese delle Scienze, Lettere e Arti. Graduado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), é mestre e doutor em literatura, pela UFRJ, e realizou pesquisa de pós-doutorado em filosofiaa da renascença na Universidade de Colônia, na Alemanha.


A GEMA DO OVO





Um ovo estrelado
na manteiga real
não é um fato banal


Pode ser surreal:
o Imperador Amarelo
mendigando um terno


Pode ser sexual:
uma galinha sem recato
ofertando-se no atacado


Pode ser desacato:
um galo desmamado
na aurora do prato


Pode ser até besteirol:
o rei do colesterol
afogado no sal


Um ovo estrelado
na manteiga real
é excepcional


se percebemos o recado:
está em tudo a luz do sol
No todo no velho no ovo


Na quadratura do círculo
o sol quadrado no prato
é a claridade do resultado






Luis Augusto Cassas

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A CAMA




Paradoxal é o gozo
na morte e no amor
Liberta de suas túnicas
a carne não comporta
cerimoniais de mão única



O que podia ser Carrara
ou folha morena de volúpia
são alvas pradarias iluminadas
que o desejo bordou
em guerras púnicas


Sob quatro patas
o amor é um polvo de mil pernas
em que a espada cravou sua estocada
staccato
ou gran finale


Mulher de bruços
ferida em soluços
parece absorta?
mas é amor


Observa a morte nas rinhas
cabeças coroadas de beleza
guerreiros só alcançam a realeza
quando as facas explodem as bainhas


O que queres minha rainha
em teu jeito fruta e flor:
um amor de morte
ou morte de amor?


Derrama as tuas pétalas
em meu corpo de poeta
Entre eras e ervas
— a eternidade nos espera —
alimentemos as feras


eis a minha assinatura:
fogo que perdura
amor que cura


Sou o teu mensageiro
o que vem libertar o teu prazer da culpa
e inaugurar mil anos de volúpia
com a pureza de todos os janeiros


Num dia de domingo
estaremos tardos e findos
Até lá ensolarados
cavalguemos lindos



Luis Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 321