segunda-feira, 14 de abril de 2014

DA AURA DO DEUS MIX AO SHOPPING DO HOMEM MÚLTIPLO: Uma Poética Caleidoscópica

                                      (Cassas: Reinvenção da poesia e da vida) 
Luís Augusto Cassas

Para Adriano Espínola, à Beira-Sol da poesia


Poderíamos dar início a este ensaio afirmando que o Maranhão é uma ilha cercada de poesia e de poetas por todos os lados. Se é exercício ocioso enumerar a todos os que competentemente têm feito da áspera luta com as palavras seu pão estético de cada dia e a ração diária de uma sobrevivência que se espraia para além da ritualizada rotinização comportamental cotidiana, poderíamos, assim mesmo, lembrar a densidade ontológico-metafísico existencial que imanentiza o luminoso e corrosivo imaginário poético de Nauro Machado, a fecundidade rítmico-imagística de Arlete Nogueira da Cruz, sobretudo a que se delineia na sua belíssima Litania da Velha, o telurismo impregnado de elevado pathos humano de certo viés da apolineamente celebratória poética de José Chagas, Ferreira Gullar e suas Muitas Vozes, dentre outros que compõem a cartografia lírica da iluminada ilha.
Agora, prosseguindo essa rica tradição de luminosos artesãos da palavra poética em suas múltiplas direções, surge Luís Augusto Cassas, cuja poética caleidoscópica, estranha e delirantemente visionária se tem constituído como um dos mais bem realizados projetos literários de nossa lírica contemporânea.
Considero caleidoscópica a cartografia poética engendrada por Luís Augusto Cassas porque, recusando-se criativamente a se enquadrar de forma passiva nesta ou naquela vertente estético-filosófica, sua poesia, portando exacerbada sede de eternidade e obsessiva ânsia de infinito, transcende, pelo alto poder transfigurador de que se reveste, as gramáticas mais rígidas e convencionais das elaborações epistemológicas mais previsíveis, e, guiada por uma peculiaríssima e transgressora lógica que rompe os interditos, venham eles de onde vierem, propõe, universal e transdialeticamente, uma espécie de síntese cosmogônica de tudo, atravessada por uma visceralmente dramática compreensão do universo, através de um vertical incursionamento pelas camadas mais abissais da sua mais significativa e errante personagem histórica: o homem, com os seus desafiadores enigmas e encantatórios sortilégios.
Luís Augusto Cassas
Significativa, porque é a partir do horizonte de expectativas gestado pelo ser humano que tudo, a materialidade objetiva do mundo circundante e os abismos da interioridade subjetiva, ganha o desafiador estatuto e emblemático contorno de uma enigmática esfinge que gera e produz significações (in) decifráveis; errante, porque a travessia humana, em suas mais variadas peripécias, se tem nuclearizado pelo indeclinável sentimento de uma permanente busca, uma incansável procura pela utopia plenificadora; por fim, histórica, por ser no palco impuro da história que as intersubjetivas relações humanas se constróem, ora eufórica, ora disforicamente.
A universalidade do projeto poético gestado pela febricitante imaginação poética de Luís Augusto Cassas provém do fato de que, se por um lado, é das motivações produzidas pela territorialidade geográfica de São Luís que emerge o seu fabulário multi-estratificado; por outro, o recorte telúrico, reordenado por níveis crescentes de acendrada fantasia, é apenas ponto de partida, nunca de chegada, de um transmanente vôo poético em busca constante pela totalidade das coisas, dos seres, dos fenômenos, da linguagem, da poesia; enfim, de tudo o que compõe o vasto e heteróclito repertório da plural e cósmica existencialidade humana.
Já a transdialeticidade, de que o imaginário poético de Luís Augusto Cassas se nutre, na compacta corporeidade de cada verso inventado, com a cumplicidade vigilante da tessitura afetiva dos seus ritmos e imagens, e da sua tonalidade situada nas estésicas fronteiras entre o lúdido-epifânico e o profético-apocalíptico, sinaliza para uma espécie de núcleo ideativo de base ostensivamente holística que, escavando uma espécie de mítica memória ancestral do ser, recusa as dicotomias empobrecedoras e o binarismo recepcional previsível das leituras reducionistas e setorizadas da realidade.
Aventura irreprimível da liberdade criadora, a poesia mobilizada e posta em cena por Luís Augusto Cassas, ancorando-se no porto mágico de uma espiral infinita de sentidos, é uma movediça arquitetura semântica que a si mesma se (des) classifica do ponto de vista de um enquadramento genológico unidimensional, rebelando-se contra os rótulos e etiquetas por vezes postos por uma crítica sistêmica incapaz, diria Eduardo Portella, de ouvir a voz do silêncio ou perceber, mesmo minimamente, os sentidos que ultrapassam as enganosas estruturas imanentes à superfície textual.
Secreta via de um originalíssimo itinerário mental, como o que aflora do fremente diálogo entre discípulo e mestre no estuário semântico do inquietante BHAGAVAD-BRITA-A Canção do Beco, a ascese por que passa o discípulo em busca da iluminação de sua própria consciência segue a estranheza dos roteiros incomuns que, ao fim e ao cabo, podem levar ao bem supremo, exatamente a escorregadia unidade, mas sem a frieza glacial da tirania racionalista, antes com a orquestração consorciada e harmônica de todas as dimensões que essencializam o complexo plural a que na falta de melhor rótulo chamamos de ser humano, cuja maior dificuldade, diria o sinuoso narrador de Clarice Lispector nas asas do seu selvagem coração, é ser humano.
No Sermão do Beco, pregado em três sincronizados tempos, a pedagogia existencial emanada, em cujo estuário consorciam-se tecelagem barroca e acendrado panteísmo cósmico, conflui, uma vez mais, para a única conversão em que acredita o poeta e que se depreende da sua fusionista cosmovisão, o correlacionamento sujeito X objeto, a indissolubilidade entre Deus e o homem, entre a materialidade concreta das raízes da terra e a diafaneidade azul do cromatismo celestial, entre a treva, contraface do bem, e a luminosidade, por vezes disfarce do mal.
Nesse sermão, cuja profissão de fé e credo mais acalentado têm na percepção totalizadora da existência seu paradigma comportamental predileto e parâmetro axiológico inafastável, a bênção maior é a reconciliação do homem com a ordem cósmica de que ele emergiu e para onde voltará, de acordo com a opção mater-espiritualista do eu-lírico multifacetado que Luís Augusto Cassas construiu e fez circular na sedutora diegese lírica que inventou com tanto rigor estilístico e tão arraigado centramento na vitalíssima escola da experiência, ponto final do seu obsessivo evangelho poético integratório, no qual "Deus e a matéria são uma coisa só".
Repelindo enfaticamente qualquer ranço dogmático, seja ele de inspiração física ou metafísica, a poética transmanente de Luís Augusto Cassas, consoante o belíssimo Agradecimento Final do Discípulo Depois da Iluminação com Pedrada no Cocuruto, propõe o desvendamento do ontológico mistério do ser como algo a ser obtido como resultado não de uma epifania episódica e circunstancial, tragada pela desoladora finitude de um tempo fragmentário porque aprisionado ao mero transcorrer inflexível das horas, mas pela recorrente e obstinada travessia do caminhar de todos os instantes, "esvaziando-se o cheio e enchendo-se o vazio", até o atingimento totalizador da sábia lição do beco, tornar o poeta, e a tantos quantos lhe espreitam o labiríntico roteiro, a imagem e a semelhança do coração, território confluente dos mais díspares e às vezes aparentemente inconciliáveis sentimentos.
Sinfonia de uma procura existencial imanentizada por uma, convém reiterar, irrefreável sede de eternidade e ânsia de infinito, flagradas ambas pelo poeta em cada espetáculo do cotidiano, mesmo nos mais aparentemente prosaicos e intranscendentes, a música final do concerto polifônico do Bhagavad-Brita- A Canção do Beco, com a sua intencionalíssima exortação conclusiva, quer atingir o cerne do ser, e, enfim, cumprir a sua alta missão de poesia que, conjugando admiravelmente a inalterabilidade do verso com a inesgotabilidade da imagem e a vertical profundidade de um pensamento radicalmente transgressor porque corajosamente contra-ideológico, como diria o semiólogo português Salvato Trigo, perfurando o hímen da palavra, produz o gozo estético da expressão.
Migramos do cais da polimórfica canção do beco e desembarcamos, uma vez mais, no porto do sagrado em cujo espaço destituído da indiferenciação homogeneizadora de valores e percepções, de acordo com as postulações conceituais de Mircea Eliade, emerge, triunfante, O Retorno da Aura, protagonizado por Luís Augusto Cassas não na busca modista e ridiculamente burguesa pelas paisagens exteriores e macrocósmicas, precário roteiro que às vezes nem consegue disfarçar, como diria Caetano Veloso, a condição de avesso, de avesso, de avesso do velho consumismo estéril em cujas águas turvas a cidadania e o cultivo da subjetividade são tragadas pelas demoníacas engrenagens da ilusão.
A aura, recuperada por Luís Augusto Cassas na encantatória magia verbal do seu febril e incontrolável imaginário poético, não está situada em Jerusalém, Meca, ou qualquer outra mítico-mística geografia planetária, mas na difícil odisséia de volta para dentro de si mesmo, no exigente pacto ético de polimento do próprio coração, para que ele enfim, translúcido como um espelho, se converta num palco sereno em que a vida possa desabrochar com a força soberana de sua celebratória plenitude.
Promovendo a interpenetração dos contrários e, mais que isso, desconstruindo falsos dualismos, a poética de Luís Augusto Cassas, "aos pés do cosmos", faz contracenar, na mesma tessitura sígnica, o sagrado e o profano, face e contraface de um mesmo espetáculo humano, ancestral e jovem, sórdido e sublime, vulgar e solene, em cujo âmago nada há de novo sobre o solo, senão o ingente percurso da busca e a alucinante procura da aura, entre outras coisas, "ora escurecida na perda do amor pelo prazer, ora vilipendiada pelo elogio do ressentimento em lugar do perdão, ora obscurecida pela cobiça em vez do desapego e fragmentada pelas ideologias de falsos profetas e poetas".
Na poética de Luís Augusto Cassas, penalizado qualquer ludismo gratuito e inconseqüente, repelido qualquer retoricismo vazio e esteticamente inconsistente porque desprovido da verdade humana essencial, atributo inafastável de qualquer obra de arte que se preza, há uma alta e assumida consciência de missão ética, para além de qualquer filigrana de ordem estilística ou propriamente genológica.
É que, radicalizando as relações entre a vida e a arte, como fizeram os arautos da desreprimida poética romântica com a excentricidade contracultural dos seus profetas, loucos e dândis, Luís Augusto Cassas, trazendo no peito o fogo prometeico que Prometeu roubou dos deuses e doou aos homens, num visceral gesto de comprometimento com a liberdade, compreende a poesia como a mais revolucionária de todas as artes, daí, "entre um corpo e outro corpo, entre um espírito e outro espírito, o poeta, que cultiva a humildade, "não com devoção, mas com drummondiano constrangimento, e que nasceu em São Luís do Maranhão onde o vento faz a curva e a ilha é parada final de urubus e aviões", bradar, com a força inexpugnável das suas convicções ético-estético-existenciais, as jupiterianas verdades do seu credo e apostolado transdialético e transpoético; no limite, mais que divino porque humano, demasiadamente humano.
Do Retorno da Aura e das suas fecundas transmutações e alquimias densamente transfiguradoras, rumamos, com os olhos embriagados de imagens e a alma encharcada de poesia por todos, para o mais que envolvente território da paixão e sua indisciplinada liturgia, em cujo epicentro, o amor, a Deus, a vida, a si mesmo, à mulher amada; enfim, a tudo o que integra o vasto enredo da existência, paira soberano como a mola propulsora da vida em suas plurifacetadas dimensões.
Precedida paratextualmente de um luminoso prefácio, a liturgia passional a que Luís Augusto Cassas se entrega com a ostensivamente visível volúpia dos santos e dos místicos, nada tem de idealista nem de ingênua, antes tem consciência nítida dos interditos que intentam obstaculizar a transmanência do vôo humano em busca da plenitude, mas, mesmo assim, se nutre do desejo maior, único pastor de sua humano-divina ascese, que é, nas asas e nas garras do amor, "descobrir o paradoxo de todos os mistérios e desnudar a plenitude de todos os fracassos".
A Liturgia da Paixão, cartografada multidirecionalmente por Luís Augusto Cassas, para além das sombras que a espreitam e contra ela conspiram, renova a profissão de fé no homem, e, mais que isso, faz do espírito o esconderijo mais privilegiado da esperança , e da esperança, o antídoto mais seguro contra os volumosos caudais de desespero que ameaçam subjugar não somente a arte, mas todo e qualquer projeto civilizatório gestado nos incertos tempos do aqui e do agora, nos arraiais da pós-modernidade relativizadora de tudo e de todos.
O amor, orficamente celebrado por Luís Augusto Cassas, recusa as bem arquitetadas algaravias de inúteis e desnecessariamente complexas elucubrações mentais, para ser flagrado, com a conspiração de todos os sentidos, no "centro da folha branca", onde o mistério luminoso da poesia, com a sua insaciável fome e sede de infinito, paradoxalmente se desentranha das mais prosaicas e aparentemente desimportantes cenas do cotidiano, como,por exemplo, a caseira matemática do lavar os pratos, o diálogo com as formigas, o brincar com as crianças, o alface que se prepara para a salada e, por fim, o bom dia à mangueira, gestos que, lembrando um pouco a objetivista poética caeiriana, conferem ao caleidoscópico olhar do poeta maranhense a nitidez e primitividade de quem, litúrgica e permanentemente posto em estésico estado de paixão e êxtase, quer recuperar o mundo em sua (im)possível virginal intocabilidade, e , mais que isso, com ele, nas asas de uma transmanente paixão litúrgica, assinar, racional e intuitivamente, um pacto de perene e poética comunhão.
Na apaixonada liturgia amorosa protagonizada por Luís Augusto Cassas, há também espaço para a corrosiva e afiada faca só lâmina de uma lírica que não suporta a teatralidade inautêntica de uma Alta Sociedade que tem na posticidade das atitudes e no culto espúrio à cartografia dos simulacros , o seu paradigma comportamental predileto.A amorosa e passional liturgia inventada por Luís Augusto Cassas, ao mesmo tempo em que propõe a comunhão universal de tudo com todos, reconhece, com pungente consciência, que o roteiro traçado para a convivência do eu com o outro é espaço do atrito que fere, do conflito que esmaga e da fratura que mata; sabe também, com Eduardo Portella, que, se por um lado, "somos um ser para o outro e fora do diálogo o que existe é o precipício"; por outro, não ignora que a verdadeira "coroa de espinhos é amar o próximo ainda que distante", daí a cortante e paródica sentença final da pungente oração do Poema da Vã Glória ou Da Glória Vã, "Crucifica o próximo,Senhor. Crucifica-me junto com o outro, pra ver se o suporto no paraíso".
Promovendo magistralmente o acumpliciamento dos contrários e a fusão dos mais aparentemente inconciliáveis paradoxos, a liturgia passional de Luís Augusto Cassas celebra ardentemente o amor, e, mais que isso, busca, através dele, restaurar a primitiva unidade de todas as coisas. Da Liturgia da Paixão transportamo-nos para uma Ópera Barroca, na qual, transitando do escárnio para o maldizer numa espécie de revivescência moderna da jocosa, não raro escrachada, poética contestatória dos trovadores medievais, Luís Augusto Cassas, ancorando-se no hegemônico motivo da cidade, centralíssimo nas poéticas da contemporaneidade, canta, às avessas, a ilha de São Luís, pondo em evidência, numa mesma cena lírica, ora suas grandezas, ora o caráter predatório de uma traumaticamente asfixiante modernidade, em cujo estuário, para usar a expressão adotada por Marshall Berman em seu fecundo ensaísmo, "tudo o que é sólido, desmancha no ar", nada ficando de pé diante da voragem impiedosa do progresso, seja o "ciclo do algodão-ciclo do barão-ciclo da jaca-ciclo da mulata-ciclo dos coronéis-ciclo dos cartéis- ciclo do boi- ciclo do já foi".
Aqui, nas asas da vigorosa denúncia social que esses versos encerram, a lacerada e impotentemente cultivada memória do passado é esmagada pelo fraturado e intranscendente tempo presente, tornando-se incertos todos os horizontes de expectativas de um futuro, mais que desconhecido, ameaçador, já que, cindida ao meio, a cidade, dolorosamente cantada pelo poeta, é uma clivada partitura cujas notas musicais mais efetivamente significativas jamais se harmonizarão.
Uma é a nostalgia impotente do que se foi; a outra, a inalcançável utopia do que nunca se vai ser, daí, a "ruína barbárie / de uma acareação em série / redundará às duas / uma procissão de cáries / uma está entrevada até os ossos / a outra tem penhorada as veias do pescoço / uma está tombada / outra desmoronada / uma quer exílio / a outra, auxílio / mas na embaixada do meu peito / meu coração em beleza / põe mesa e lhes dá asilo".
Exilados ambos, o poeta e a sua cidade, natural extensão das suas vivências íntimas, só lhes resta, ao desolado poeta e à arruinada cidade, o asilo da poesia, coreografado pela força escarninha do seu debochado ritmo e aquecido pelo fogo purificador de sua virulenta e cortante tessitura imagística.
Da Ópera e seu dramático barroquismo seguimos para o Shopping de Deus. Lá encontramos não somente a alma do negócio como também a imagem mais irretocável do multifário e tumultuado espírito da modernidade dividido entre a hóstia e o cartão de crédito, entre a fé avulsa e a razão convulsa, entre o céu e o inferno de cada eternidade feita sobre os escombros fugazes de cada epifânico instante.
Discordo da afirmação do ensaísta Marcelo Coelho quando ressalta que na obra poética de Luís Augusto Cassas tenha havido uma fase marcadamente religiosa, da qual o Retorno da Aura e Liturgia da Paixão pontificam como momentos culminantes, a que se seguiria um mergulho mais vertical na materialidade do mundo, acerca do qual esse inquietante Shopping de Deus se corporificaria como a onda mais efetiva.
Não. O conceito de fase, pelo que implica de estanque e estacionário, me parece absolutamente incompatível com a poliédrica cartografia de um imaginário poético deslizante que parece estar, desde o primeiro verso produzido, celebrando ou querendo celebrar, contra todas as interdições inerentes à nossa congênita falibilidade, uma espécie de síntese universal de tudo,"matrimônio e litania dos opostos, somente para usar duas belas imagens mobilizadas pelo poeta maranhense.
Caleidoscópica e portadora, isto sim, de múltiplas faces que coexistem simultaneamente na tessitura plural de uma vasta e complexa identidade poética que, no limite, chega a lembrar o heteronímico projeto estético idealizado por Fernando Pessoa, Luís Augusto Cassas, tanto quanto o genial Pessoa, parece querer "deixar ao cego e ao surdo a alma com fronteiras, para sentir tudo de todas as maneiras".
Por essa razão, também discordo frontalmente das leituras setorizadas que insistem em reduzir o Shopping de Deus, inventado pelo mercador das palavras , Luís Augusto Cassas, ao unidimensionalismo redutor da mera denúncia social das narcotizantes engrenagens do consumismo, do qual o shopping, imantado por sedutora aura, funcionaria como clausura predileta, templo primordial e porta-voz oficial da sua irresistível propaganda.
Aliás, contra o equivocado lugar comum em que normalmente claudica a crítica das obsessivas sondagens do conteúdo, desatenta aos negaceios e malandragens da forma e dos subterrâneos simbólicos do texto, ainda que tal separação obedeça apenas às travessias do recorte didático, o próprio eu-lírico multifacetado do abrangente sistema poético engendrado por Luís Augusto Cassas afirma, em acendrada postura metalingüística, "Se alguém disser / que é a favor do espírito / mas é contra a matéria, / não me compreendeu: / quem não está comigo / não está nem consigo".
A angústia na poesia de Luís Augusto Cassas, nem sei bem se esse é o termo adequado, nada tem do desolado niilismo imanente a significativas parcelas da lírica presentificada nos decantados tempos pós-modernos, nem muito menos se organiza em torno do surrado mote segundo o qual a nossa era prioriza a matéria em detrimento do espírito. Nada disso. O desconforto estético-ético-religioso-físico-metafísico-lógico-ontológico que recobre todas as camadas afetivas da expressão poética do notável poeta maranhense e lhe empresta um tom e dicção originalíssimos em nossa plurifacetada lírica contemporânea, em cujo estuário não falta nunca a celebradíssima esperança, provém exatamente do fato de que a poesia e o homem, a arte e a ciência, a fé e a razão ainda não foram capazes de perceber que são faces indissociáveis de um mesmo projeto divino-humano que clama por total plenificação.
Por último, desembarcamos no híbrido e desconcertante santuário do Deus Mix, de cujo código bíblico, recriado paródica e palimpsestuosamente, emerge uma procissão de preces que, caleidoscopicamente uma vez mais, consorcia o alto e o baixo, o solene e o trivial, a suma transcendência e a mais desauratizada percepção da fenomenologia humana, tudo urdido e curtido por um refinado pathos humorístico e por uma extremamente risível alquimia verbal, mas que nada tem, que fique bem claro, do raquítico ludismo trocadilhesco em que se convertem certas escrituras poéticas da contemporaneidade, indigentes de imaginação, criatividade, e, mais que isso, de um mínimo de verticalidade no processo, nem sempre fácil, de acumpliciar fecundidade imagística e profundidade de pensamento.
No divertido humor presentificado na poética de Luís Augusto Cassas não falta a gravidade alegre do sempre presente tom de meditação existencial polimorficamente lançado sobre todos os desvãos e abismos de quantos existem e compõem a multifacetada realidade humana. Seguindo as trilhas abertas pelo Shopping de Deus e com ele mantendo nítidos vínculos de relacionamento e dialogicidade textual, o Deux mix, nascido da sugestão dada pelo rei Davi que, em sonhos, visitou o poeta maranhense solicitando-lhe, onírico-visionariamente, a empreitada de celebrar, para além do conúbio Deus X homem, o próprio mundo em sua santa materialidade ou espiritualidade materializada, de modo a, rasurando o empobrecedor superficialismo das falsas polaridades, ratificar a recorrente proposta de quem, assumidamente multifário, tem como desiderato ético-estético maior, a cosmogônica síntese universal de todas as coisas.
     Como diria Adélia Prado, a poética de Luís Augusto Cassas "funda reinos, inaugura linhagens, e, para além disso, cumpre a sina de, transdrummondianamente, penetrar,surdo-barulhentamente, no reino das palavras e reinventá-las, porque, com Cecília Meireles, decerto o poeta maranhense aprendeu a bonita lição segundo a qual, "a vida só é possível reinventada". Bendita, pois, a reinvenção da vida promovida por Luís Augusto Cassas sob a égide de uma tão caleidoscópica poética. 




José Mário da Silva 

Professor de Teoria da Literatura 

na Universidade Federal da Paraíba, Campus II





Fonte: Jornal da Poesia
http://www.revista.agulha.nom.br/luac1.html



quinta-feira, 10 de abril de 2014

O ESPELHO





Companheiro a vida é escândalo
se à luz o reflexo ignoras
Não procures nas nuvens os anjos
Os demônios não estão lá fora

Separa o sutil do espesso
na imensa teia dos dogmas
Contemplarás pelo avesso
o ser que tanto deplora

Combate interno o perigo
de erguer castelos e mitos
Libertar-te-ás do castigo
de ser o próprio inimigo

Por que os homens sendo soltos
permanecem prisioneiros?
Débeis lançam ao mar revolto
a chave que os mantinha inteiros!

Não busca a via que transforma
Aguarda o sagrado bem
Esculpirá áurea a forja:
ao peito - Jerusalém!

Ah! Jerusalém soubessem os
homens de onde jorram as fontes
estilhaçariam os reflexos
que cavam abismos Não pontes

Aceitar o inaceitável
absorver o absurdo e a raiva
integrar o imperdoável
consumar o todo e o nada

dissipar véus e neblinas
jamais negar a descida
mas reelaborar a subida
desvelará sino e sina!

Até lá prisioneiro
combaterás contra o espelho
destruindo inútil guerreiro
a glória de seres tu mesmo!




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol.2, p.528





quarta-feira, 9 de abril de 2014

A AURA NA POÉTICA DE CASSAS

Luís Augusto Cassas


No empenho de integração de forças maranhenses no âmbito universal da poesia, invocando e associando-se a expressões diversas da cultura, sejam mitopoéticas ou filosóficas, tecnicistas ou herméticas, observa-se na lúcida manifestação do pensamento de Luís Augusto Cassas, radicado em São Luís, o objetivo de atingir uma síntese que incorpora inclusive o niilismo, o nirvana, o satori, como fundamentos oníricos de uma dramática visão do mundo, cuja sinatura possui nuanças realistas, expressionistas, dadaístas, surrealistas, atento o poeta ao intrincado instrumental de uma linguagem que se insere de modo definitivo no panorama da poesia brasileira.
De “Liturgia da Paixão”, Nórdica 1997, a “Ópera Barroca”, Imago 1998, um salto abrupto, a partir de “Retorno da Aura”, Nórdica 1994, denota a intenção de uma poética abrangente nesse work in progress, que congrega elementos universais do saber como desfecho de um fazer não com o aparato apenas de invenção, de que é fértil o poeta, mas de síntese mesmo e de relação com o que constitui a captura da imagem nos diferentes estágios da realidade, à qual a linguagem poética se presta no sentido de cotejo e visão crítica dos arquétipos, cujo sincronismo preside o mecanismo empírico da representação.
Em “Liturgia da Paixão”, o sentido trágico do ser pressentido outrora pelos gregos adquire ali conotação erótico-existencial. Observa-se nessa abordagem objetiva, racional, um tempo concreto e um realismo exacerbado, configurando de modo renovador a poética do paganismo decadente de Horácio, Ovídio, Catulo e mesmo do espanhol de Bilbao, 40 dC, Marcial, e seus epigramas exemplares, expostos na revista “Medusa” nº 1, de Curitiba. Cassas retoma o rumo de uma arte despojada de metáforas e do mito em função de um saber e uma paidéia com todo o cotejo da moderna herança pós-renascentista.Em “Ópera Barroca” temos Vieira e Gregório de Matos no itinerário daquele que ama São Luís e aponta as veredas da cidade, os becos com os vícios e virtudes de todas as grandes e pequenas cidades, cujo emblema é o de nossos corpos transfigurados em “sotaques endiabrados”. As collages entremeando os poemas, na metade do livro, com retrato do autor, em número de vinte, onze com um cromatismo discreto contrastando com a iluminura noturna da cidade e o “sonho com o futuro e o passado de glória”, conferem a esta obra singular uma historicidade evocadora das ruínas do palácio de Príamo e as estátuas de reis mortos, que o poeta quer resgatar.
“Ópera Barroca” é único em sua promíscua realeza. O estilhaçamento de uma retórica perversa decadente reinaugura um estilo ao refazer o corpo da bela cidade de São Luís.
O livro é concebido como anagrama do Corpo e da Palavra, segundo a antiga Cabala e o Torah. A desenvoltura dessa linguagem quebra os tabus da metafísica do ser e o universo da subjetividade. É uma leitura necessária ao resgate do canto, ora obscurecido, ora aviltado, o qual nesse exercício desopila o bom leitor. “Novema do Hemorroísso” e “Anedotas das 1001 Noites Maranhenses”, p. 91 e 209, quase matam de rir. O posfácio de César Teixeira denota certa cumplicidade no amor à cidade, vista de dentro.
Em “Titanic-Boulogne (A Canção de Ana e Antônio)”, Imago 1998, Luís Augusto Cassas parodia o lado noir na vida de Antônio Gonçalves Dias, com feroz sensibilidade de duplo do poeta romântico, patriotismo amoroso e uma amplitude de glosador a abarcar o intimismo preconceitual de uma acerada aristocracia provinciana. Neste livro, além da alusão à figura do grande cantor indianista, residente na cidade de São Luís, de tantas vielas caprichosas e sobrados de azulejo português, a obsessão do poeta é enriquecida com anagramas irônicos - logos/até logo, dram/ice cream, Roma/aroma. Nesta poesia tardia a serviço da notícia, o aedo está presente como nas antigas rapsódias, a relatar a história e os mitos. Ana Amélia é um travo de amor que Cassas aponta ao leitor, envolvendo seus poemas de uma aura ludovicense que lembra em sua nostalgia byroniana a Atenas brasileira.
O exímio ensaísta Franklin de Oliveira reconheceu os méritos dessa excelente poesia. Cassas comparece ao banquete do espírito, enriquecendo intensamente a diversidade do canto, o qual se fecha no interior de um círculo atemporal. Em seus poemas o autor desempenha o papel de duplo da nova Atenas, que aguardava seu ícone pós-moderno.
Em outro livro, intitulado “Shopping de Deus & A Alma do Negócio”, Imago 1988, ao afirmar o autor na “declaração de príncípios” que veio do “ventre do nada”, nos deparamos com a alegoria alquímica da pedra de esmeralda, onde se lê “que o vento o transportou em seu ventre”, cf. Le Miroir de la Magie, p. 98. A definição sumária de tantas máscaras e pseudônimos de “Agosto” é uma trágica reedição da heteronimia pessoana. Em “Matrimônio dos Opostos”, p. 21, o duplo de E.A. Poe, projetado na multidão, ali comparece inteiro. Em “Entre dois Amores”, p. 29, a dicotomia Deus e o Mundo corresponde a uma hierogamia alquímica. Espírito e Matéria são arquétipos e comparecem como representação do sujeito.
Uma metafísica percorre esse livro para ser lido com atenção, no qual se retoma todo o fulgor mitopoético de antigas cosmogonias. A ontologia é uma questão filosófica retomada criticamente. Transcendência e imanência sofrem o jogo vocabular de desconstrução, aliciando leituras adormecidas. A ironia é levantada como contradição extraída de altos momentos do pensamento, onde espírito e matéria pertencem ao rei do mundo no umbigo da Terra.

Quem muito guarda menos me possui

           Firma o poeta à p. 77, de “O Retorno da Aura”, dica em 1994, ao implantar um axioma neo-taoista com o subtítulo “Golden Meditation”. Ao proclamar neste livro o TodoUno, o poeta restaura o pensamento de Xenófanes de Colofão (570-528), inesgotável em seu intrincado paradoxo em face da negatividade. Há uma sabedoria restauradora em vigor nessa poesia como convém à união implícita do filósofo e o poeta, i.e. a prática do saber e o imaginário a serviço do poeta/inventor. A sabedoria é praticada em “O Retorno da Aura” de maneira fescenina, burlando pois o jargão da sofística. Poema-quase-lápide e Piscis como arremate do volume são pequenos ‘ramos de ouro’ que encerram uma grandeza feita de palavras: 
 

e (agora) está completa 
toda a operação do Sol! 
 
Tal síntese corresponde a uma alusão irremovível ao logos heraclitiano em relação à Mônada, da qual a consciência deve resgatar a amplitude universal do ser planetário enquanto individualidade.



Foed Castro Chamma



Fonte: Jornal da Poesia        
http://www.jornaldepoesia.jor.br/fcc1.html




terça-feira, 8 de abril de 2014

A LÍNGUA DE EINSTEIN





Nunca consegui fazer uma revolução
na poesia e na vida
Todos os meus amigos têm sido campeões em tudo
Mas ultimamente tenho estado alegre
e transfiro a alegria pra versos e gestos
Minha alegria contagia até flores de plástico
Todos estão circunspectos como a basílica de São Pedro
Todos estão sérios demais como o bigode de Mona Lisa
Todos estão iluminados e distantes como a cara de Buda
Mas eu não  Eu tenho estado sempre alegre
e essa é a melhor revolução que conheço
Nenhuma universidade me ensinou a alegria
Nenhum poeta me ensinou a alegria Só o riso irônico
A alegria é a minha contribuição ao que sobrou
da estética da infelicidade e culpa cristã Por isso sou radical
Minha teoria é o intervalo da Teoria da Relatividade
entre a gargalhada artificial e a infinita tristeza
elevado ao expoente máximo em ser natural
Outros sejam malditos e plebeus
Eu sou apenas alegre sem a culpa de estar alegre
com o direito de estar eterna ou momentaneamente alegre
no pleno exercício da minha alegria
e mostrar (ou não) a língua pro mundo






Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 1 p. 285



segunda-feira, 7 de abril de 2014

A CELA DO MONGE (constrainscrições do Claustro)






o deserto de (m)orar sozinho
é ser o próprio vizinho
o desterro de (m)orar sozinho
é ser carente como um gatinho
o destempero de (m)orar sozinho
é o incenso assar o passarinho
o desmantelo de (m)orar sozinho
é entristecer igual santinho
o desespero de (m)orar sozinho
é ouvir a sombra de fininho:
_ "deus brinca de sol cá fora
e você desolado irmão (ch)ora!"





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 242




sexta-feira, 4 de abril de 2014

O PRAZER (Doutrina da Poesia)




PRÓLOGO


coroada de lírios
morangos à boca
estrelas nos cílios
a loucura à porta:

_ "vem a meus lábios
cultiva os sentidos:
no prazer florido
desabrocha o sábio"

com mãos de alegria
banhada de aurora
a sabedoria
tece o sol e ora:

_ "queres - glória ao céu -
bem-aventuranças?
reveste o prazer
com a luz da ciência!"



O PRAZER

O prazer é o início da loucura
e  o fundamento da sabedoria
vivê-lo _ atravessando a selva escura _
coroar-te-á  de caos ou alegria

Eis a doutrina do prazer
que à loucura é fantasia
alegria felicidade
sábia bem-aventurança
consagra-lhe todo o ser
tempera-o com o azul  ternura
tornarás a ser criança

aceita a expulsão do paraíso
quedas? tropeços em pedras
restaura a senda com pétalas
e o desejo será teu amigo

vê: o trabalho do prazer
é reintegrar-se ao ser
_  mas qual a glória do prazer? 
_ servir à causa do ser!

medita nesse pantáculo
e protege a tua casa: 
delícias - crescerão asas
delírios - duros tentáculos

prazer pelo prazer 
não existem níveis seguros
ao consumo das substâncias:
mergulha em sua toxidade
solidão - a recompensa

queres ser mestre
na arte de viver?
igual moisés no deserto
que ergueu a serpente ao alto
às regiões celestes
dirige o prazer
(não sucumbas à tentação
de entrevar o coração)

leva rosas à vida:
jamais colha flores 
no jardim vizinho
torna água em vinho
não serás sozinho

ó prazer da noite escura
que une o amante e o amado
esvazia-nos o amargo travo
preenche o ser de doçura!

renuncia ao prazer
e virá te servir
abdica ao ser
e virá luzir

vós que privilegiais o fazer
não perturbeis o prazer
não o forceis ou o apresseis
antes que a luz se manifeste:
conhecendo-lhe o poder
acrescentando-lhe o saber
sereis tolos ou reis
à essência que reflete

ó qualidade de vida
meço-te em abraços-hectares
do prazer em mil teares
que abraço o corpo da vida

celebra o prazer trino:
mens/sentimento/ vontade
alcançaras a unidade
e servir-te-á o divino

dou-te novo mandamento:
não afrontes o sentimento
e conservarás o templo
em teus dias sobre a terra
ao prazer dedica-lhes as horas
sagradas à glória eterna



EPÍLOGO

um dia lambando as nuvens
erguida em irmãs - paisagens
a sabedoria e a loucura
trocando posters/ figuras
verão que o gozo é viagem
ritos de humana passagem
e erguendo aos céus nova taça
concluirão: tudo passa
saboreando com arte
sorvetes de chocolate




Luís Augusto Cassas
In A Mulher que Matou Ana Paula Usher, p. 81




quarta-feira, 2 de abril de 2014

PEQUENA INTRODUÇÃO AOS MISTÉRIOS DA PAIXÃO E DA COMPAIXÃO



Luís Augusto Cassas


1
O amor é a maior experiência mística do ser humano. A lei do amor é a grande síntese do universo. A vida cumpre seus desígnios através do cumprimento da lei do amor. Doamo-nos para descobrir-nos cheios. No vazio, encontramos a plenitude. É vida e morte, beleza e tortura, mel e fel, luz e sombra, fogo e água, céu e terra. Somos demônios e deuses na ascensão e queda no vazio de nossas perplexidades. De mãos vazias, penetramos no templo do desconhecido. Todo ele se dirige à transcendência, ao centro, ao nirvana, à cruz, à realização. É o dever-ser, no qual o ente que somos realiza o valor mais profundo da existência.

Cada vez que alguém ama, repete-se a história da criação do Mundo. Seja dirigido a uma mulher, a uma causa, a um ideal, ao próximo, á vida, a Deus, o amor é a execução da lei cósmica que nos remete ao infinito de nós mesmos, para que possamos concretizar a busca da totalidade. Onde eram dois, se tornam um, para vivenciar uma nova realidade na abrangência da plenitude humana. É a ponte que nos liga ao eterno, desertando as máscaras de nossa impermanência.

O amor é o chicote que nos expulsa do edifício da insinceridade. É a espada violenta que corta o cordão umbilical do nosso egoísmo, transmutado no violino introdutor da nota da esperança na sinfonia da vida. Nele, o destino pacifica-se com o livre-arbítrio, sob as bençãos da providência, para forjar um novo horizonte repleto de significados a serem descobertos e realizados.

Todos os caminhos - ensina a tradição - levam ao amor. Pelo amor se chega à infinita sabedoria. Pela verdadeira sabedoria, desembarca-se no amor. Na árvore da vida, o amor é a verdadeira raiz, embora estejamos quase sempre absorvidos na paisagem. Sem ele, nada seríamos.

São Francisco amava os passarinhos. Kant amava a liberdade e a alma. Freud viu no amor a sublimação do desejo. Victor Frankl vislumbrou no amor a própria essência do ser. Goethe dizia que o homem que não realizou o amor não cumpriu o seu destino. Cristo dizia que devemos amar até os nossos inimigos.

Chega-se ao amor pela busca? Depara-se com o amor, pela não busca? Nasce em nós ou passa por nós? É uma ciência, uma in-ciência, a recompensa do justo salário da vida? É uma grande corrente explosiva que ao romper as comportas do nosso mundo interior, faz-nos rever todos os conceitos que achávamos ridículos? É uma explosão? Um transbordamento?

O amor é o céu? O inferno, portanto, seria a ausência do amor? De que é feito o amor? Quem são seu pai e sua mãe?

Quem é o amor?



2
Liturgia da Paixão
Este livro é uma tentativa de falar do amor. Fala-se do amor, quando se quer vivenciá-lo plenamente ou quando se foi tragado por suas chamas. Só a cinza deve falar do fogo? Não pode a madeira falar da brasa que a quer consumir? Ainda assim, quem o vivenciou, como o explicaria, face a seu caráter de obra aberta, impregnado de multiplicidade? E, explicando-o, como cada um de nós, na pluralidade da apreensão dessa mensagem, o entenderia, sabendo-se de antemão que no significado está sempre embutido o código pessoal de quem o recebe?

Protossíntese do paradoxo, o amor, ao ser analisado, poematizado, verbalizado, raciocinado, tende a perder a sua essência. Pertence, por sua natureza, à coleção dos enigmas do silêncio. Mas calá-lo significaria, também, uma adesão à morte, à sonegação de si mesmo.  Estes poemas, destarte, estão inscritos na categoria do silêncio e da voz e servem de paradoxo das suas notas dissonantes, mas integrativas: a da sonegação e da oferta. Da preservação da sua essência e da profanação da sua fragrância. Esta última, como declarado e sutil objeto de catarse, purificação, redenção.

Preferível é dizer que este livro fala da paixão. Da paixão e compaixão. Qual é o primeiro nome da compaixão? Paixão. Qual o segundo nome da paixão? Compaixão. Fala dos pequenos mistérios da paixão e compaixão de um poeta dividido ( e unido) entre o amor sensual e o amor espiritual, entre a lógica formal e a lógica moral, entre a causa do mundo e a causa de Deus. Dualidade-unidade, a que todos estamos submetidos por um imperativo da criação, que nos modelou Céu e Terra, fazendo os cabelos arranharem as nuvens e os pés presos no barro dos dias. Dirige-se ao amor-fricção que queima e ilumina, e ao amor-irradiação, consubstanciado nas palavras do Mestre:


Então os justos brilharão com o sol no reino do meu pai.
                                                                                                     (Mateus, 13;43)


No caminho da totalidade, o autor percorre estradas não ortodoxas. Não faz opção entre o amor humano e o amor divino. Deus e a mulher. Ele busca a essência de que está impregnado. A penetração nos mistérios para saber dos seus significados. A matéria e o espírito. A paixão e a sua outra face: a compaixão.

Como transcender a dualidade, senão aceitando as duas faces do rosto da vida? Ficar numa polaridade  e renegar a outra face seria combater o próprio amor, princípio da totalidade. Seria render-se à unilateralidade e assumir-se apenas pela metade. Tenta nada julgar, absorvendo as experiências, para que naturalmente sejam feitas a mutação e a comunhão. De que maneira? Permanecendo natural, deixando a vida fluir espontaneamente, conduzindo-o naturalmente à realização. Sabe que é impossível dirigir a vida. Deixa que o amor a dirija. Pode uma gota de água governar o oceano? Um gota de água é apenas uma minúscula gota do oceano da vida. Uma gota de água é apenas uma criança que quer ser  conduzida ao paraíso.



3
A Poesia Sou Eu, vol. 1
Assim como o homem é dividido em corpo e alma, para melhor ser apreciado, o autor pensou em agrupar, inicialmente, por motivos didáticos, o conteúdo poemático do livro em dois blocos: Sábado da Paixão e Domingo da Compaixão, paráfrase ao trânsito roteirial da noite escura de São João da Cruz.  Pelo sábado da paixão penetrar-se-ia no domingo da compaixão. Mas depois percebeu – paradoxo da unidade na diversidade e da diversidade na unidade –  que muitos dos poemas incorporam características binárias dos dois polos. Na via-crucis  humana, o mistério glorioso, às vezes, é preparação para o mistério gozoso.  A Terra cobra o preço do condomínio de existir.  Então, a linearidade foi trocada pela deambulação dirigida ao centro, à cruz, à realização. O amor, no meio, seria a síntese. Será por esta razão que, na arquitetura do corpo, o coração está no meio do tórax, não totalmente no centro, mas um pouco mais à esquerda, indício formal de que a compaixão é a inclinação natural para que a paixão seja transcendida?

O autor busca o seu caminho no amor. Não o caminho oficial das escrituras que opõem o amor humano ao divino. Seu caminho passa pela paixão e quer viver a sua experiência integral, rumo à plenitude desse significado. O caminho do homem comum impregnado do Céu e  da Terra. O Jnãna-Bhatkii do seu céu-terra interior.

Na sua busca tudo se faz sagrado. O profano e o divino, a eternidade e a provisoriedade, o erotismo e o amor-ágape, o prazer e o significado da vida. Ora seus poemas dirigem-se à existência, a Deus, à mulher, à própria poesia, à matéria e à transcendência. Ora mergulham na transmutação do valores do sentimento e do pensamento. Ora investem contra a própria escuridão íntima para devassa-la e extrair-lhe o puro ouro do cascalho.  Tudo serve,  no seu entender, à glória da vida.

Nessa viagem, faz parceria de ideal com a personagem Sidarta, de Herman Hesse, que, convidado por Buda para segui-lo em seu caminho ascético, preferiu viver no mundo a sua solitária experiência interior, pequeno mestre de si mesmo, embora advertido dos perigos e das emboscadas do caminho. 

Sabe que o caminho é cheio de pântanos e pedras.  Sempre existirá uma pedra no meio do caminho. Mas sabe que a busca passa por trevas e pedras para desembocar na luz. Por via das dúvidas ou dúvidas da via, sabe que o caminho da totalidade é mais doloroso e solitário, mas talvez seja a única via – para que nada se perca e tudo seja salvo – do batismo de fogo da sua iluminação.





 Luís Augusto Cassas
In Liturgia da Paixão
In A Poesia Sou Eu, vol. 1, p. 317