sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O AMOR






somos um livro


está tudo escrito
no dna do espírito
nas cartas astrológicas
nos meridianos dos corpos
na íris dos olhos
no alfabeto do infinito


nosso contrato de risco
é escapar do inaudito
(as garras do hipogrifo)
e escrever c/ fogo e luz
no espaço em branco dos capítulos
o nosso mito





Luís Augusto Cassas
In A Mulher que Matou Ana Paula Usher, p. 89



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

CASABLANCA







Humphrey Bogart tropical
defensor da nobre causa da paixão
rosa amarela na lapela
duas taças: uma na mão
                  outra no coração
abandono o truísmo de perder o amor
pelo altruísmo de vivê-lo
é a última hora do voo
altero o infeliz roteiro
derramo a taça da mão
na taça do coração
apago o cigarro nos dedos
acendo um beijo com o isqueiro
os lábios dela tocam A Merselhesa
e despacho o marido solitário
são e calvo
no último avião





Luís Augusto Cassas
In Liturgia da Paixão, p. 42



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

POEMA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS







1
O amor de Deus nos torna ridículos.
Enriquece-nos com tesouros do céu
mas desliga-nos das coisas da terra.
A barba cresce o orgulho desaparece,
os amigos entristecem as mulheres fenecem.
Pródigos do céu e perdulários do mundo
somos atraídos pelo ouro do alto que ninguém vê
Tudo doamos: até o amor
que não sabíamos armazenado.
Em vez de prazer, ofertamos compaixão.
Em lugar do ódio, oferecemos comunhão.
Somos frágeis palmeiras inclinadas
ao sopro da sua sabedoria.
Mas a arquitetura e engenharia do Senhor,
as obras, as obras, as obras,  quem as compreende?



2
Não e não. Não queríamos Deus
em nossos corações.  Antes uma vida tranquila,
um pôr do sol no campo, um amor à beira-mar,
do que cultivar esses imensos campos verdes
com tantas ovelhas desgarradas a pastar!
Mas o Senhor nos destruiu com seu raio divino:
invadiu-nos a alma, afugentou-nos o temor,
deu-nos por casa o universo,
vestiu-se belos como os lírios dos campos,
alimentou-nos com os pássaros do céu
e nos fez andar descalços
sobre as pedras e espinhos do passado.
Meus pés ardem em chagas,
Meu espírito está em brasa,
mas meu coração transborda em seu cálice!
Maldito quem nos tornou ridículos
 em nome do Amor!
Bendito seja por toda a eternidade
o nome do Senhor!





Luís Augusto Cassas
In Liturgia da Paixão, p. 184



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

FINAL DE TEMPORADA








Ninguém poderia ter vivido exemplarmente

a minha própria vida, melhor que eu!
Quem representaria com tanta perfeição
o imperfeito papel do fracasso e do êxito,
do prazer e da dor, do caos e do sublime,
na profunda necessidade de ser eu mesmo?
Quem, além de mim, viveria plenamente,
tantos personagens simultâneos e múltiplos,
_ Dom Quixote, Hamlet e Fausto _
com mil riquezas de significados
no espaço / tempo de um dia / noite de existência?
Quem representaria com tanta fidelidade,
no palco interno-externo de suas paixões,
a humana comédia da vida,
sabendo que o existir é drama e tragédia,
e para outros, morte e ressurreição?
Bravo! Bis! Cansei de ser aplaudido!
Nenhum prêmio de consolação ou incentivo
pagaria os direitos autorais
dessa interpretação solitária e única!




Quem saberia ter convivido

com o excesso e a carência do real e do ideal,
do amor e da morte, da alegria e da dor,
dividido entre a realidade e o sonho,
e mesmo assim, não se deixou substituir,
e ainda assim, não se deixou fracassar?
Só eu mesmo poderia ter representado
esse papel de ser eu e ter estado em mim,
e não ter ficado absolutamente louco!
Sou um especialista em naufrágios
porque conheço a superfície e o fundo de mim:
portanto, aceito alunos para falar de naufrágios.
Mas não me vicio em drogas. Só em liberdade.
Meus psicotrópicos? as tensões da vida.
Tenho muito tempo para dormir
quando chegar a eternidade.
Sou um personagem que cansou de ser autor
e busca um ator para nova mensagem.
Portanto, aceito novos papéis,
pela possibilidade de incorporar significados!
No palco e na vida, não enjoo mais:
o que sobra de mim é a carência de ter sido
e o que falta é o excesso do realizado.
Tudo para mim tornou-se lucro:
por isso não mandem mais flores para o camarim
nesse final de temporada.



O único papel foi ter sido sempre eu mesmo

e a única glória foi representar
- bem ou mal - a própria vida inacabada.
Fi-lo, porque tinha que ser feito, enfim:
e o que foi feito só poderia sê-lo, por mim.
O que eu sou é apenas uma  amador:
um homem clamando em desespero por Deus
na luta incessante contra o anjo do destino. 





Luís Augusto Cassas

In Liturgia da Paixão, p. 136

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O DISCURSO DE LILITH NOS LENÇÓIS DE OR



(Gasolina & Chantilly para o meu Odiado)




1
Na escuridão do Universo cravejado de sangue de ametistas e esmeraldas refulge o meu clarão Filha da noite trago no corpo o incêndio dos vulcões Eu sou a santa loucura que enlouqueceu Nietzsche e lançou ao Rio Estige os profetas de todos os tabernáculos Uma constelação de deusas afogou-se em meu sangue quente Todos os sóis apagaram-se no vapor da minha pele morena Da minha boca saem serpentes e dragões desfiguradores de todos os mistérios.
Exorcizei no umbigo os ideais da luxúria para temperá-los no caldeirão das iniciações Às portas de Babilônia meu coração foi arranhado por leões mas mantive-o poderoso e pleno para ofertá-lo ao vencedor que ultrapassasse os portais do Hades e assassinasse os demônios da minha solidão Eu sou a que ficou com os seios insones à espera da primavera e preservou a concha dos quadris para o bárbaro ataque do Desespero e Beleza mais recôndita
Do meu sexo explodem galáxias tresloucadas Da minha menstruação escorrem os cavaleiros da Discórdia e do Destemor Quem romperá o véu do meu mistério e expulsará a insidiosa Ísis para a cama profana das desrevelações? Sou a que nasceu & morreu & nasceu mil vezes para o cumprimento da realização amorosa do destino Sou a que enterrou na poeira do enxofre e do desprezo os imperfeitos tolos que aspiraram ao sol negro que dorme dentro de meus seios.



2
Rigor — não misericórdia — eis o alimento nutridor da Beleza Planeta em órbita na perfeita geometria do destino força e arbítrio comandam as estrelas da minha criação Excita-me o previsível Masturba-me o determinado Poder e força eis os nomes dos dois cavalos que governam a minha aventura de viver O inesperado sempre foi um anjo manco pedindo esmolas às portas da minha exata consciência.
O coração é o refúgio dos tolos O sentimento morada da fraqueza A esperança lixo reciclado matéria-prima do orgulho e da vontade Todo o resto é miragem Devaneio poético Inflação do sonhado.
Eis que a Morte vem montando tigres de fogo e lençóis de fúria Vejo seu rosto maquilado de ternura e descontentamento Esfinge de carne e osso deponho os véus e armas de Atalanta a que reside em mim e emprestou-me a couraça da perfeição para afugentar os afilhados de Eros Ó sangue! Fugi dos leitos das veias do coração! Ó abismo — plenificai o meu vazio! Tudo o que temia ser — revela-me o espelho — já iniciada estou Meu nome é escândalo script de novela mexicana encarnação dessa palavra ridícula chamada Amor! Profecia! Inauguraram-se os meus dias de inglória!



3
Quem acende as gambiarras do meu desejo indicando o necrológio do meu martírio e o enterro do meu desfalecimento? Quem estrangula os meus receios desencanta os meus fantasmas distribui os anéis da ansiedade e rasga o luto milenar do meu enclausurado silêncio?
Eis que malvindo bem-vindo vem Dá-me o batismo do gozo e o sacramento profano mais intenso Rasga os meus mais secretos oráculos Penetra no abismo das profanações Acende as trombetas do meu paraíso interior.
Traz nas mãos a ternura inflamável de um príncipe banido e a violência de um terrorista do sublime Toca-me os seios como crisântemos Desfolha as lágrimas dos meus olhos e as desterra para a Constelação do Grão-Cão Seu veneno é o antídoto da minha tristeza Sua arrogância a humildade do meu amor É o meu garoto com sua espada a cem Meu Eremita e minha Torre Meu Diabo e meu Renascimento Besta humana sou sua puta sagrada — Helena Afrodite Atena e Penélope em chamas - de quatro na cama da noite do Universo em aflição.


4
Meu amado me odeia com seu mais puro rancor Marca de roxo e rosa minhas costelas Acende lâmpadas de mil volts em meu desejo Desaloja ninfas dos meus seios interdita o território do meu sexo De decúbito ventral impõe-me trabalhos forçados Despede-me o rubor Ateia fogo em meu vestido Tortura meu corpo em brasa.
Ridícula sou quando estou próxima ao meu odiado Arranca-me as asas Tempera os meus lábios com sua saliva viscosa Cadela no cio revira a lata de lixo come as minhas sobras Escolhe-me pelos meus dentes igual égua em supermercado Nas pérolas do seu esperma sou alfazema derramada Na cama abro as pernas e rezo para que morra Caia napalm em seu pau Mas temo nunca mais ficar envergonhada.
Meu odiado é lindo como um genocídio de papoulas e sublime como um coquetel molotov arremessado sobre a minha casa Dos seus lábios floresce a canção do abismo Ávida sou devorada pelo seu sarcasmo Risca como página a minha pele avara Ameaço o suicídio tomando gasolina & chantilly Trágico ri da minha cara
Detestável é o meu ardor quando estou distante do meu amado Masturbo luas em lençóis de cetim Corto o sexo com gilete pra que fique desesperado Inauguro sorriso de batom negro nos lábios Ardente pulsa minha vagina louco Stradivarius! Mas só ele desperta em mim a fera que dorme acuada Inflama o meu mais puro desdém De caos deixa o meu rosto decorado Meu odiado é o Rei do meu Medo e o Senhor Absoluto de todos os meus chacras O Demônio-Javé que reina em meu pânico e em meu suor O que incendeia as florestas do meu corpo só pra ver a sua fera iluminada.



5
Acesa em delírio sou planeta fora de órbita maçã devorada Seu desejo em chamas acende ruínas na minha carne desolada Meu orgulho torna-se chá de abismo Minha perfeição — erótica vadiagem.
Sou Sodoma saqueada Paris desfigurada Berlim destronada Londres transtornada.
E maldigo os burocratas do céu — 1 bilhão de anos-luz sem poesia e em desterro cósmico — poder purificar-me na mais suja transcendência arder em línguas de fogo enlamear-me da luxúria desse amor que em sua ausência mais divina é a própria essência do mistério do Crucificado.


Até ontem fui Noite.
Meu nome é Luz





                 Luís Augusto Cassas
                 In  A Mulher que Matou Ana Paula Usher, p. 68

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A ROSA






Sempre fui vulcão & mar sem salmo
água benta & bala de canhão
coquetel molotov & beijo de abismo
olho ametista & pesadelo de plutão

Sempre fui incesto & transcendência
nuvem-kamikaze & guerrilheiro provençal
dinamite-split & caos de quintessência
libriano Romeu & incendiário Parsifal

Em mim a água se fez fogo de luxúria
A terra transfigurou-se em vendaval
O ar fugiu pros quintos da Manchúria
e o éter desembarcou no diet-Caos

Sempre fui colibri & cataclismo
eneagrama do enigma & cacos de Berlim
O 5o. Cavaleiro do Eclipse
o espinho espetando a rosa em mim



Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 236


terça-feira, 22 de outubro de 2013

O SENTIDO




qual o sentido
de se estar vivo:
viver os cinco sentidos?
acender a luz do espírito?
reedificar o paraíso?
tornar-se do todo amigo?
ser lírio ou narciso?


por que quando o sentido
 a face vem mostrar
esconde-se o não sentido
para o sem sentido brilhar?


o sentido
é paisagem que aí está?
o não sentido
é passagem que se abrirá?
o sem sentido
é viagem sem lugar?


ad finitum
é o universo:
mysterium
tremendum
mas do precipício
seremos salvos
quando a essência
reencontrar o princípio


por enquanto da vida
 só captamos os ruídos
mas o verdadeiro sentido
será definitivo


quando o que clama
desde jerusalém
irromper-nos à alma
com o seu amém!




Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 572


A CAVERNA DE PLUTÃO



1
Todos têm direito
ao arco-íris:
apenas os fortes
os loucos e os profundos
são os escolhidos
para ler a escuridão

2
Jamais ergas pontes levadiças
para não ouvir o coração
Entroncamento ferroviário fábrica de enigmas
o inimigo é quem convida ao silêncio
Por que levantar rutilantes escudos
contra a invasão do sol vermelho?
Pensamentos são espadas Abrem clarões
Penetra no reino dos ruídos:
lá encontrarás as múltiplas vozes
que celebrarão o êxtase da agonia
Tua única glória é estar vivo
Onde o silêncio pasta — camisa-de-força —
encontrarás a ausência do conflito
 desnecessário à angústia da existência
Ferve o sangue para a revolta:
tempera-o no fogo das fermentações
Não terás paz É verdade Mas o que é essa paz
senão a cessação do pulsar da vida
o cemitério do desejo
o deserto de toda recordação?
É na azáfama diária
na conferência do caos e do sublime
 no intervalo do beijo e do aniquilamento
que a tua carne beliscará a vida
Convoca os deuses ao teu leito
Serve-lhes absinto A verdade é luto
Nessa hora agônica Deus
 descansará dos frutos
E a solidão a grande solidão
é a única invenção da criação

  
3
A Morte — não o discurso sobre Ela
a Óbvia a Escaldante a Extasiada
que nos leva rútilos ao parque dos ossos
Falo das pequenas excelências
melhor dizer ilustríssimas as carentes
que sucateiam nossas carnes pânicas
e exibem a coleção de fracassos
na passarela das mais puras convicções
Elas as minúsculas as preparatórias
que carimbam os passaportes de viagem
e nos remetem à sagração do abismo
para o jogo olímpico do gozo e da fúria
Bem-vindas sois dançarinas flamencas
ao tédio de toda ansiedade
Girai os tendões de vossos pés
sobre os cadáveres da falsa bondade
e dançai ao som das flautas-tíbias
onde a flor expectora a eternidade
Arrancai os olhos ao pedestal da força
celebrando o fracasso da perfeição
Consegues sobreviver à Grande-Morte
vivendo a morte da transformação?
Dissipa o treinamento do lamento
e enfrenta face a face a desolação
Só quando carregares o cadáver
de tuas falsas esperanças
terás te libertado da ilusão
Rouba ao céu um buquê de estrelas
segura a mão do imprevisível
e abandona a bagagem na estação
Ainda que flores de insânia
desabem da casa de infância
segue adiante Eis o grande mar
Só novo pecado nos renascerá


4
Nenhuma novidade
encontrarás na luz
A pupila gasta o sonho
na gilete do sonhado
A não ser que desças
a sete palmos de noite
 miragens te propiciarão
o pesadelo do imaginado
Toda luz é ocultação
O que te cega
é o excesso de claridade


5
Senhores recorrei aos arcanos:
 ensino-vos a abrir oceanos
 Lançai fora todas as chaves
e girai a que abre pra dentro
Eis a Nota-Sol o Em-Si-Lá
a grande chave o Eu-Centro
Adestrai de presto a lírica:
a vida real é mais criativa
que a ficção científica
Riscai ao redor um círculo mágico
e evocai o poder do trágico
Sou Oroboro o Rei-de-Ouro
que fechou o círculo do fogo:
abriu o segredo da Flor de Ouro
e tornou-se o Sol vindouro
girando rabo e boca ao tesouro
as larvas cozinhando o ovo
Sou o Misantropo e o Minotauro
o Dinossauro e o Pitecantropo-Outro
o Centauro-Pavão o Galo-Ígneo
que purifica a luz do olho
dinamitando o Bezerro de Ouro
Sou o que recicla os mitos
fecunda os astros e floresce a flor no lixo
 preparando-te para a luz do Espírito
 sem o qual serás submisso
Por renegares o teu negro ego
vagarás 40 anos no deserto
 Teu sol deixará de ser cego
então irromperá o fogo amarelo
Enquanto não aceitares tua escuridão
 o mar não se abrirá ao coração
Até lá treina tornar vinho em água
 abracadabradacabradacabracadabra


6
Ah Tirésias Tirésias
 Empresta óculos-laser aos sensíveis
Protege-os das insolações infernais
e da corrupção da lei astral
Ai os sensíveis os sensíveis os sensíveis
Fácil é identificá-los — faróis baixos —
na fila de pão doce das padarias
A psicoterapia deles é o olho derramado
Feridos oferecem a outra face
até o massacre total
Delicados instruem a família
a enviarem santinhos na missa de 7º dia
Por carregarem um coração puro
são os mais castigados por Deus


7
Somos aquilo que morremos
Sê teu próprio antídoto e veneno
Abandona o roteiro do animal ferido
rumo ao último repouso
Jamais te tornes a lata de lixo
de tuas ultrapassadas crenças
As muralhas das costelas pedem destruição
mas o templo ressurge ao terceiro dia
O que vulgarmente chamas livre arbítrio
é a terceira dimensão da solidão
Tudo o que não flui pleno
retorna de mais ou menos
Vive a plenitude da realidade
e abandonarás o resto pela metade
O buraco negro da existência
é a luta do sonegar e partilhar da luz
Como trazer fogo à consciência
senão com a fricção da experiência?
A cada morte sobes mais alto
buscando oxigênio na raiz
Estranhos são os salões de beleza
do renascimento O mistério da morte
é o perigo de tornar-nos mais belos


8
Todos nós fracassamos
Mártires e virgens fracassamos
Anjos e demônios fracassamos
Revolucionários e revoltados
Mendigos burgueses potestades
Fracassamos Fracassamos Fracassamos
Menos você sexo: flor do desejo
Prima-dona da agonia
Angústia do divino Êxtase do caos


9
Rasga dogmas profecias livros:
tudo precisa ser reescrito
A vida é pessoal e intransferível
Deus: uma aventura excepcional
Cada experiência — uma ciência
Da escuridão — vem sempre o clarão
 Do arco do triunfo do peito
lança à verdade a seta mais funda: a emoção
 Imagina se igual ao movimento do mar
a vida estiver no devido lugar?
Da tensão entre arbítrio e destino
está o ponto de transmutação
Quem sabe se a súbita revolução
é aceitar pessoas e coisas como são?
Jamais interceptar o vir-a-ser
do ser plasmado a acontecer
Aclara o relâmpago do impulso
e corta os pulsos da dissipação!
Só algo resta a ser transmutado:
a ilusão da iluminação


10
Vem noite
com o teu agasalho de estrelas
o teu vestido de mulher morena
o teu perfume de aloés e noz-moscada
Restabelece o mistério dos deuses
Resfria a minha pele corrompida
Lava a minha dor eterna
Expulsa o invasor diurno
Cura o coração incendiário
Sobrevive meu olhos ao holocausto
das ulcerações do Sol


11
Quebradas as tábuas dos princípios
 vivemos sob o signo do precipício
Só o amor explode o inferno
faz em cinzas a discórdia
e veste a temporada do eterno
Na proporção da profundidade da cova
ascenderás à vida nova
Aceita a morte Busca o abraço da vida
A morte transforma a vida
mas a vida despacha a escuridão
A morte pesa tonéis A vida
sempre é luz no início e fim do túnel
Jamais a constelação do Dragão
ofuscará os carneiros do Sol
Por que dançaste às sombras dos abismos
é necessário polir o corpo nas estrelas
Do veneno transmutado ao escorpião
esculpirás as garras do leão
que plasmará na águia o coração
Conclusos estão os trabalhos de parto
 da oitava superior de Marte À postos
Sonâmbulas as carcaças dos dinossauros
ressurgem o ouro azul das utopias
Não há patos na Patagônia
tarzãs na Tanzânia babéis em Babilônia
A Morte é insônia Convoca
Vênus Netuno e Urano E sonha


12
Nada há mais a fazer
Agora é ser





Luís Augusto Cassas
In A Poesia Sou Eu, vol. 2, p. 539